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Livre da pílula

A superestimada pílula. Há quem diga que ela foi responsável pela libertação feminina, mas eu diria que foi o contrário. Tomamos a pílula para não precisar pensar no assunto - toma todo dia e não vai engravidar. Com o tempo, a pílula passou a ser receitada para tudo - regular a menstruação, ovários policísticos, endometriose e até acne. Parece um milagre. Nossos problemas acabaram?



Você se lembra da sua primeira consulta? Eu me lembro que não houve muitas perguntas, nem muitos esclarecimentos. Afinal, era uma solução óbvia. Não quer engravidar, toma pílula. Ninguém pergunta o porquê, ou se há alternativas... ninguém pergunta se há contraindicações.

Eu tinha sangramentos muito intensos na pausa da pílula, tão intensos que não podia doar sangue e precisava de suplementos durante todo o ciclo para não ficar anêmica. A solução: outra pílula, sem pausas. Sem pausas, sem sangramentos. Funcionou bem por um bom tempo, até que o corpo não aguentou. Tomando a pílula, eu passei a ter sangramentos diários. Não era muita coisa, mas era como uma torneira pingando. Constante.

Consegue imaginar a agonia?

Nesse momento eu já estudava há algum tempo sobre métodos alternativos, mas não cogitava parar a pílula por causa do risco de engravidar. Durante os meus estudos, eu tomei ciência de que o meu histórico familiar não é favorável à administração da contracepção hormonal, mas o medo de engravidar era maior. (Não é assustador que a gente tenha mais medo de engravidar do que de ter um piripaque e morrer?). Mas eu não aguentava mais sangrar sem parar. Sem parar.

A minha ginecologista pediu exames e mandou parar a pílula por um mês, e naquele momento eu decidi: eu não volto mais. Ainda sangrei por vinte dias depois que parei e no retorno, com todos os exames perfeitos, comuniquei a minha decisão de não tomar hormônios e saí do consultório com uma receita de suplementos pré-concepcionais. Ou pílula, ou grávida. Ou não.

Toda essa história já faz mais de um ano e eu não engravidei, não por algum problema ou porque tive sorte, mas porque eu não quis e porque existem métodos contraceptivos não hormonais eficazes o bastante para permitir isso. Eu optei pela combinação de um método de percepção da fertilidade com um método de barreira.

Independente do método que você usa - mesmo que seja a pílula - se você não quer engravidar de jeito nenhum, precisa combinar pelo menos dois métodos contraceptivos porque 1) todo método tem uma taxa de falha em uso perfeito e 2) o mau uso do método aumenta essa taxa de falha. Todo mundo conhece alguém que engravidou tomando pílula, né? A combinação de métodos serve para que um cubra a taxa de falha do outro.

Nada como o autoconhecimento
Eu já falei que não gosto dessa palavra, mas preciso dizer que não há nada mais empoderador do que o autoconhecimento. Saber como funciona o seu corpo, saber interpretar os sinais que ele dá e usar essas informações para tirar o melhor proveito dos seus dias.

O ciclo feminino é muito complexo - é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Quatro hormônios sendo ativados em momentos diferentes que fazem funcionar a engrenagem do corpo. Muita coisa mudando o tempo todo! O caminho do óvulo, as mudanças do endométrio, mudanças na temperatura do corpo...

Muita gente confunde percepção da fertilidade com tabelinha, como se não fossem opostos. Seguir tabelinha é pegar aquele ciclo de vinte e oito dias, supor que a ovulação acontece exatamente na metade do ciclo e querer que o corpo corresponsa a essas expectativas. Percepção da fertilidade é uma leitura de dentro pra fora, é o corpo, e não o livro, quem conta o que está acontecendo. É informação confiável e personalizada em tempo real.

Meu corpo não é sujo
De tudo, pra mim o mais surpreendente foi descobrir que nem tudo o que sai da vagina é corrimento. Essa informação crucial quebrou uma barreira enorme, a barreira do nojo. Desde a adolescência, encontrar uma secreção na calcinha trazia frustração e uma cobrança interna - falta higiene, falta limpeza, falta cuidado.

A descoberta de que não é algo sujo, mas algo lindo - sinal de fertilidade! - trouxe uma sensação completamente diferente, um deslumbramento, uma curiosidade, a alegria de ver, em mais um sinal, que está tudo funcionando direitinho. Minha vagina é minha amiga. Sai, neura!

A parceria fundamental
A contracepção não é um assunto feminino. Dentro de um relacionamento, a contracepção será sempre um assunto do casal. Está dentro da área mais íntima da relação, onde não há espaço para desonestidade.

Enquanto eu estudava sobre o assunto, antes de tomar a minha decisão, eu compartilhava com meu marido todas as informações. É um direito e um dever dele também participar dessa escolha, estar bem informado quanto às alternativas, indicações e contraindicações.

Os métodos que escolhemos foram uma decisão conjunta e consciente. Quando eu falei para ele que não queria mais tomar hormônios, ele sabia o porquê. Esses fatores ajudaram muito nos momentos de arrependimento - sim, às vezes a gente se arrepende e enche o saco. Tomar a pílula é muito mais fácil, é prático, não precisa pensar. Saber o porquê de estar fazendo o que se está fazendo é fundamental para levar à frente qualquer projeto.

Saudades da pílula?
Parar de tomar a pílula não serviu só para estancar o problema imediato. Eu percebi diversas mudanças em mim, algumas coisas que eu nem sabia que eram influência dos hormônios que estava tomando. Uma elevação da disposição, da sensação de bem-estar, da libido... só tenho uma coisa a lamentar, porque não seria honesto deixar de dizer: quando eu tomava hormônios minha pele era per-fei-ta. Voltei a conhecer cravos e espinhas, meio chato, mas nada grave, né?

Agora que eu me sinto dona do meu corpo, consciente do que estou fazendo e do porquê estou fazendo... agora que provei para mim mesma que é possível ter uma vida sexual ativa e não engravidar, mesmo sem a pílula... eu posso dizer que liberdade é não precisar fazer o que não se quer. Eu não preciso da pílula. Essa é a minha libertação feminina.

O jeito errado de educar

Eu costumo dizer que, enquanto educadores - pais, tios, avós, preceptores, professores, guardiões, seja lá qual for o título oficial - o nosso papel é de moldar uma personalidade única para que ela consiga conviver com as demais e aproveitar o seu potencial. Assim como cada criança é única, cada um de nós tem o seu jeitinho especial de educar - experiência, crença, cultura, educação, tudo isso e muito mais influencia nas nossas escolhas.

É certo que existem muitas formas de educar, e também é certo dizer que não há uma maneira correta - e nesse ponto o respeito é fundamental. Procuramos aquela que parece ser mais correta segundo nossas crenças e valores, mas não podemos esquecer que as outras pessoas dificilmente terão exatamente o mesmo conjunto informativo, e mesmo que compartilhem, podem considerar de maior importância algo que consideramos não ser tão fundamental.

Todo mundo acha importante que as crianças tenham saúde, mas isso significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Para uns, criança saudável é a que não está doente, para outros é a que come frutas e verduras, outros consideram fundamental para a saúde que a criança não experimente açúcar até os dois anos de idade. 

Enquanto a gente discute quem está mais certo, a probabilidade de que todos estejam vivos e saudáveis daqui trinta anos é muito grande, e que todos nós tenhamos perdido o nosso tempo discutindo, maior ainda. É necessário um esforço de empatia para compreender que todo mundo - ou pelo menos a maioria das pessoas - está tentando fazer o seu melhor, na medida do possível.



Por outro lado, não podemos cair na armadilha de pensar que todo mundo está certo do seu jeito. Existe, sim, o jeito errado de educar.

Dependência

É um paradoxo muito grande ter um serzinho completamente dependente de você. É maravilhoso, péssimo e assustador, tudo ao mesmo tempo. Dá medo de fazer tudo errado e, ao mesmo tempo, medo de deixar que eles façam e errem mais ainda. Dá aquela canseira de ter que fazer tudo e, ao mesmo tempo, aquela dor no coração de saber que somos cada vez menos necessários.

É um desafio educar humanos autônomos: o delicado equilíbrio entre a segurança e a ousadia. Ainda, é completamente necessário que as crianças desenvolvam, em seu próprio tempo, a autonomia de que vão precisar pra não ter que pedir pro pai abrir o pote em rede nacional.

Dá medo de soltar essas pessoinhas nesse mundão? É claro que sim. Mas é melhor aprender a cuidar da própria vida em um ambiente seguro do que, de uma hora pra outra, precisar se virar sozinho e não ter com quem contar.

Ninguém dura pra sempre, e a dependência traz uma fragilidade enorme à vida de uma pessoa. Hoje, a maior dificuldade dos adolescentes institucionalizados e dos egressos de acolhimento (estou me referindo aos "orfanatos" e "abrigos", que a gente não chama mais assim) é a ausência de autonomia - não aprenderam como fazer compras de supermercado, como pegar um ônibus, como funciona um cartão de crédito.

Não importa se o seu estilo é mãe-águia, que joga o filhote do penhasco e fica observando pra ver se vai dar tudo certo, ou se o seu negócio é criação com apego, ou alguma coisa no meio dos dois. É importante incentivar a autonomia.

Arrogância

Há um movimento muito interessante na educação que destaca a criança como uma pessoa a ser respeitada, na mesma linha do Estatuto da Criança e do Adolescente, que elevou as crianças ao status de sujeitos de direitos - e não mais objetos. Esse movimento diz respeito à consideração da criança como um ser dotado de personalidade, uma pessoa única, que tem aptidões e desejos, que se emociona, que age e reage. Um ser a ser compreendido, antes de corrigido.

Não há nada de errado com esse movimento. Não é disso que se trata o jeito errado de educar. Crianças são pessoas e devem ser tratadas como tais. Respeito gera respeito. Amor gera amor. Etc gera etc.

O problema surge quando elevamos a criança ao status de super-pessoa, majestade, soberano. A coroação da infância faz com que em cada lar habite um pequeno monarca - mas a mamãe não é a rainha e o papai não é o rei. Diante da majestade criança, todos somos súditos.

Crescer com essa mentalidade é muito cruel. É uma visão de mundo distorcida, como se fosse toda feita de vidro, que a qualquer momento pode se estilhaçar, com cortes, gritos e traumas. A criança precisa dos limites, precisa do não, precisa ter consciência de que existem outros, e que ela é mais um dentre os outros. Antes que os outros ensinem isso pra ela. Fora de casa as lições não são temperadas com amor.

Medo

Nenhum ambiente violento é saudável para qualquer pessoa. Nenhuma criança se desenvolve bem quando vive com medo. Eu sei que muitos vão dizer "mas eu cresci com medo do meu pai e tô aqui". Só que eu não estou falando que as crianças vão literalmente morrer de medo - muito embora a morte não seja um resultado incomum em um ambiente de violência.

Viver com medo faz mal porque o medo não é o contrário da coragem, mas da confiança. Algumas coisas não são letais e ainda assim trazem prejuízos com os quais a gente precisa conviver e tratar na terapia anos depois. Crianças precisam se sentir seguras - confiança em si, nos pais, nas pessoas, em Deus - para chegar à plenitude do seu desenvolvimento.

Existe uma dose saudável de medo, aquela que nos faz viver longos anos. O medo que nos impede de morrer de um jeito estúpido. A medida certa de medo não nos impede de desenvolver vínculos de confiança com outras pessoas. A medida certa de medo não nos impede de calcular riscos, tomar decisões corajosas e executar atos de bravura. A medida certa de medo é aquela que nos ensina a viver num mundo de sobreviventes.

Ignorância

Uma saia justa todo dia. Nada passa despercebido aos seus olhos e ouvidos, e o filtro entre o que se pensa e o que se fala praticamente não existe. A curiosidade é enorme e precisa ser bem aproveitada para estimular a inteligência e a criatividade.

No meio de tantos o quês e porquês, às vezes a gente se perde. Seja por não sabe como explicar um assunto complexo para uma pessoa tão nova, ou por achar que não está na hora de aprender esse tipo de coisa, ou mesmo porque a cota de porquês do dia já explodiu junto com a paciência.

Todo aquele rebolado para não responder as perguntas cabeludas ou contar mentiras para encobrir uma história que você não quer contar agora acabam se revelando armadilhas que podem explodir bem na sua cara.

Eu disse recentemente e reafirmo: cabe aos pais decidir, na medida do possível, quando, onde e como abordar assuntos sensíveis e importantes. Por outro lado, quando estivermos lidando com a medida do impossível, precisamos tratar as crianças com honestidade e franqueza, sem esquecer a idade que têm e a sua capacidade de compreender a complexidade da vida.

Guia AnnieEscreve #6

Parece que alguém acendeu uma fagulha nesse mundo encharcado de gasolina. A intensidade das últimas duas semanas rendeu muito bafafá, e eu me vi aprendendo que sobre certas coisas é melhor não se pronunciar. Não dá pra entrar em toda terta que aparece, principalmente quando a treta parece fabricada pelo marketing da produção do evento. 

Inútil? Não necessariamente... uma situação como essa pode provocar discussões interessantes e esclarecimentos importantes. Ânimos aflorados podem revelar o que realmente pensam certas pessoas e mudar o modo como as enxergamos dali em diante. 

Mesmo assim, enquanto pessoas estão morrendo em tragédias naturais e humanas pelo mundo, me parece pequeno discutir o sexo dos anjos. É mais proveitoso que cada um arregace as mangas para deixar a sua parte de tempero nesse mundo ácido.


Sendo assim, embora tenhamos aproveitamos o momento para refletir um pouco sobre o lugar da política, da sexualidade, da religião e de outros temas sensíveis no ambiente escolar, encerramos a temporada falando sobre prioridades. Antes disso, falamos sobre a necessidade de crescer, mencionando as atitudes que nos tornam verdadeiros adultos.

A Fall Season - principal temporada de séries americanas - começou, e eu ainda não conferi as novas temporadas das séries que acompanho, embora tenha conseguido espaço pra assistir o piloto de algumas séries novas. (Eu não sei como isso acontece, mas parece que não é só comigo).

Liar traz uma história em que cada pessoa envolvida tem uma versão diferente par ao que aconteceu - alguém está mentindo. A primeira temporada fala sobre um suposto estupro, marquei para continuar assistindo em outra oportunidade e confesso que vou ficar decepcionada se tomar a história tomar a via fácil para fazer do homem o mentiroso.

Philip K. Dick's Electric Dreams tem a proposta de apresentar uma história diferente do autor de ficção científica em cada episódio. Talvez o nome não lhe seja familiar, mas muitos roteiros de cinema se basearam em suas histórias, como O Vingador do Futuro e Minority Report. Como fã do escritor, não pude deixar de ver o piloto e gostei muito da representação, apesar de ainda não ter lido o conto em que se baseia. 

The Good Doctor pode ser mais uma história de um geniozinho autista (ainda não sei se eu fico com o copo meio cheio da divulgação do tema, ou com o copo meio vazio da popularização do estereótipo). No caso, o gênio-autista acaba de ser aprovado para residência cirúrgica em um grande hospital. Uma espécie de Greys Anatomy com Atypical, exceto que o menino não tem família. O piloto não foi ótimo... mas tem potencial para melhorar.

Vamos terminar essa temporada com esperança - esperando que as próximas semanas sejam melhores. Esses últimos dias só serviram pra vender jornal... só que ninguém mais compra isso.

Primeiro: a ordem das coisas

Parece quase injusto que em um mundo tão cheio de possibilidades e oportunidades, estejamos aprisionados nesse regime chamado tempo. Por outro lado, talvez essa limitação seja de fato uma bênção. Afinal, se o tempo também fosse infinito, a importância das coisas seria um tanto desbotada...


Porque precisamos escolher, precisamos escolher bem. A nossa moeda mais valiosa precisa ser aplicada nos melhores investimentos, não haverá outra oportunidade. Mas o que estamos fazendo com o nosso tempo?

É um discurso recorrente, preciso colocar minhas prioridades em ordem. A frase se repete como se a gente já não soubesse o que é prioridade e também o que deveria ser. Parece que estamos sempre para trás nessa corrida.

Prioridade não é aquilo que, no fundo do coração, eu acho importante, ou aquilo que eu penso que deveria ser mais valorizado. Um exame realista da rotina pode dizer melhor do que a gente mesmo quais são as prioridades.

Esperar o tempo sobrar para poder sair com a família, aprender um idioma, destralhar aquele quartinho da bagunça, correr no parque, sair com os amigos só demonstra que essas coisas não são prioridades nesse momento.

O tempo nunca sobra. O que sobra? Sobram coisas na nossa rotina. A gente arruma tempo para aquilo que é importante tirando o tempo daquilo que não é. 

Bloqueia a agenda no sábado à tarde para organizar a lavanderia. Separa uma hora todo dia para ler. Coloca um ponto final no dia de trabalho na hora certa para passar tempo com a família.

Aquilo que deveria ser prioridade não o será enquanto o tempo estiver sendo gasto com outras coisas. Prioridade é aquilo que vem primeiro.

O que a escola ensina

Bias. Palavra que indica uma tendência, inclinação, preferência. Inclinações não são sempre ruins. As pessoas precisam de preferências, tendências e inclinações - o nome disso é ter opinião. É importante que cada um tenha a sua. Quem lê este blog conhece quais são as minhas tendências e inclinações. Mas a opinião tem o seu lugar, assim como a imparcialidade.

Quando a opinião ultrapassa o seu espaço demarcado no jornal, a informação é comprometida. Pior, quando a opinião se disfarça de imparcialidade, quando teorias se apresentam como fatos, quando a preferência de uns sufoca as preferências dos outros, o que era tendência se transforma em manipulação.

Dizem que a imparcialidade é impossível. Talvez seja verdade, mas uma coisa é certa: os problemas causados pela parcialidade diminuem consideravelmente quando há uma parcialidade honesta, quando admitimos e confessamos quais são os parâmetros, as tendências, as crenças, os valores que informam nossas preferências. 

Ao entrar em uma igreja, temos uma noção razoavelmente clara do que será pregado ali. Ninguém espera cultuar um deus hindu em uma igreja evangélica, mas ninguém vai a uma igreja se não quiser - pelo menos não deveria. Embora não existam muitas opções lá dentro, estar ali é uma opção.

Independente do que diz a lei, o STF e o povo do Facebook, é papel da família ensinar sobre sexo, religião, política, entre outras coisas, porque os valores morais são o tipo de educação que a família concede à criança. A escola existe para ensinar conhecimentos específicos.

É claro que as coisas se misturam um pouco na linha divisória entre o educar e o ensinar. A escola precisa lidar com a ética, os pais precisam ajudar os filhos a aprender o conteúdo escolar. No entanto, essa área cinzenta onde a parceria deveria ocorrer pode se transformar rapidamente em zona de conflito.

Não é que a educação não possa ser informada por valores específicos - sejam eles políticos, religiosos, morais... - mas ela precisa ser completamente honesta sobre esses valores desde o princípio. Não há promessas de imparcialidade religiosa em um colégio adventista ou vincentino. Instituições educacionais com propostas pedagógicas não convencionais procuram deixar os valores de sua abordagem bem claros aos pais e responsáveis - eles sabem que precisam de uma parceria, e não de uma zona de conflito.

É totalmente aceitável que isso aconteça porque ninguém é obrigado a matricular os filhos no colégio de freiras. É uma opção. Não concorda, leve a sua criança para outra escola. O problema é quando a optativa se torna obrigativa. Por diversas circunstâncias, as pessoas podem se ver sem condições de optar por uma educação em conformidade com os seus valores familiares.

Quem matricula seus filhos na escola pública normalmente não tem muita liberdade de escolha sobre a escola - é a mais próxima do seu endereço, a que tem vagas, a que aceita crianças peculiares... O Estado não seleciona os pagadores de impostos - ele aceita o dinheiro de todos para prestar serviços a todos, portanto não pode aderir a uma opinião em detrimento das demais.

Se por um lado a instituição pública não pode ter um posição oficial em matérias opinativas e altamente controversas e pessoais, é impossível exigir o mesmo dos agentes estatais. Sugerir que as pessoas não devem ter ou manifestar opiniões quando exercem suas funções é, no mínimo, ingênuo, e no fim das contas funciona como a desculpa perfeita para vestir de imparcialidade e absoluta correção aquilo que não passa de uma opinião ou preferência pessoal.

É simples assim: se eu não devo manifestar a minha opinião, a minha fala nunca será meramente opinativa, mas revestida de formalidade, apesar de contaminada, inevitavelmente, com a minha opinião. Esse recurso pode ser usado propositalmente - aproveitando-se da cátedra para o doutrinamento dos alunos vulneráveis - ou de forma inocente - tem gente que acredita mesmo que consegue informar sem opinar.

Por isso que, em todos os casos, é sempre melhor ser honesto. As opiniões surgirão inevitavelmente. Os assuntos surgirão inevitavelmente. As crianças não têm filtro sobre o que se conversa em casa e o que se conversa na escola, e muitas sequer terão a oportunidade de falar sobre certos assuntos em casa.

Mas os assuntos devem ser tratados de forma honesta, colocando as etiquetas certas naquilo que é opinião e no que não é, tendo o tato de dizer que algumas perguntas devem ser levadas para casa - ainda que encontrem uma resposta (dentre muitas) na escola. As crianças precisam ser estimuladas a investigar, a ouvir diversas fontes e a formar a sua própria opinião. E isso vai além, muito além das aulas de filosofia. 

Como deixar a adolescência e se tornar um adulto de verdade

Por algum motivo, as pessoas desta geração associaram a vida adulta a um período cheio de obrigações e responsabilidades, e só. Quando você paga contas, você está sendo um adulto de verdade. Quando você passa o sábado assistindo a Netflix que você pagou, bom, isso não é adulto? 

Nós ensinamos aos adolescentes que toda liberdade vem associada a uma responsabilidade do mesmo tamanho. Talvez seja necessário ensinar à geração Peter Pan que toda responsabilidade vem com uma liberdade de igual valor. Ser adulto não é a pior coisa do mundo. Na verdade, não há nada melhor do que viver plenamente a idade que se tem.


A verdade é que a gente adora fingir que sofre, destacar tudo de negativo nessa vida que a gente leva, que na verdade nem é ruim. Chega de drama. Engole o choro. Vamos ser adultos de verdade, sim.

Corte o cordão umbilical e declare a independência

Ou, pelo menos, comece a planejar essa etapa. É um grande passo para você, um pequeno passo para a humanidade. A frase não tem tanto impacto quanto a original, mas a sua vida vai mudar. No entanto, tome muito cuidado: existe o jeito adulto e o jeito adolescente de fazer isso. Estamos tentando ser adultos aqui.

A maioria dos meus amigos e conhecidos saiu da casa dos pais para trabalhar, estudar ou casar, mas eu conheço muita gente que não precisou morar fora para estudar ou trabalhar, e que não vai casar tão cedo. Parece que não há uma motivação para essa mudança de endereço. Um corpo em inércia tende a ficar em inércia, não é?

A adolescência é um período de muita ansiedade pela independência - vislumbramos a liberdade, não a responsabilidade. A vontade de que as coisas aconteçam do seu jeito e de que tudo à sua volta seja uma grande declaração de quem você é. Sim, ansiamos por liberdade e gritamos "eu não vejo a hora de sair dessa casa!"

Aí nos tornamos adultos, e embora o costume tenha tornado aquele grande comichão em uma coceirinha companheira, a necessidade de ter um canto só seu continua ali. Para a maioria das pessoas. Mas nem todas fazem algo a respeito, e muitas fazem do jeito errado.

Nesse momento, se você mora com seus pais, precisa fazer uma avaliação sincera sobre o motivo pelo qual você continua com eles: os seus pais dependem de você? você está aproveitando o momento em que pode economizar para dar um grande passo no futuro? ou você simplesmente resolveu aproveitar o máximo possível até que eles não aguentem mais a sua presença e resolvam sair de casa?

E qual é o jeito errado de sair da casa dos pais? É sair como um adolescente, movido pelas emoções e sem pensar direitinho em como vai viver de forma independente. Não precisa esperar até conseguir o manter o mesmo padrão de vida que você tem morando com seus pais - uma contenção de gastos é esperada para abrigar as contas necessárias, mas não dá pra sair com uma mão na frente e outra atrás, pra dormir na casa de um amigo, pagando a sua parte do aluguel com serviços domésticos. Veja bem. Tenha um plano, um plano de adulto, e paciência para levar esse plano até o final.

Resolva a sua própria bagunça

Nem todo mundo que saiu da casa dos pais é independente (da mesma forma que já refletimos que nem todo mundo que mora com os pais está parasitando o lar). Uma pessoa autônoma precisa ser capaz de cuidar das próprias coisas. Uma pessoa responsável precisa saber consertar as merdas que faz.

Todo mundo erra. O que separa as pessoas decentes do resto é o quanto a pessoa se responsabiliza pelas suas decisões. Na vida adulta a gente lida com papéis, com burocracia e com dinheiro. Lidar com essas questões é ser o gerente da própria vida.

Isso não quer dizer que você nunca deve procurar um profissional, apenas tente não se acomodar. Você não precisa de um contador para administrar suas finanças pessoais. Peça conselhos, peça ajuda, e principalmente, peça para que te ensinem como se faz - assuma a responsabilidade pela sua permanência nessa grande bola giratória.

Aprenda a lidar com gente

Não sei se foram os computadores ou a falta de obrigação de falar com as pessoas... você já viu uma geração tão socialmente incompetente quanto a nossa? Não sabemos falar com as pessoas, temos aversão a chamadas telefônicas e Deusmelivre ter que resolver um assunto pessoalmente. Isso não tem nada a ver com ser introvertido ou extrovertido, mas com competências interpessoais. Se você não vive no seu próprio planeta, precisa aprender a falar com outras pessoas.

Tudo bem que muita coisa pode ser feita com um clique e isso facilita a nossa vida, não estou radicalizando. Mas as pessoas tinham muito mais prática nesse negócio chamado "relacionamentos interpessoais" quando esses relacionamentos não aconteciam pela via escrita, intermediados por uma tela e um avatar.

O que não mudou é que as pessoas ainda existem. São vizinhos, vendedores, prestadores de serviços, professores, colegas de trabalho, gente com quem, eventualmente, a gente precisa lidar e até, quem sabe, puxar conversa no elevador. As pessoas estão aí e não existe nada de especial em viver no seu mundinho, se recusando a interagir. Não perca a chance de interagir com humanos de verdade. Vai saber quanto tempo a gente ainda tem.

Descubra onde se informar

Um adulto de verdade não precisa saber tudo, mas é importante ter o telefone de quem sabe saber onde procurar. Isso significa que pedir ajuda é coisa de adulto, sim, com a diferença de que o adulto sabe quem pode ajudar em cada situação.

Procurar ajuda, seja de uma pessoa da sua confiança, de um profissional ou de um portal online, é muito diferente de procurar fundamentação para as certezas que você já tem, quer dizer, buscar alguém para concordar com você. É expor a sua vulnerabilidade e permitir que alguém lhe ensine algo.

Ao contrário do que a gente achava, ser adulto não significa ser perfeito e acabado, mas compreender a nossa incompletude. A maturidade traz a humildade de quem não conhece tudo, mas tenta, na medida do possível, aprender com os melhores.

Permita-se

Ser adulto não é apenas ter boletos a pagar. Aliás, a graça de crescer é poder calcular riscos e tomar decisões. A responsabilidade é apenas um lado da moeda. Ser adulto significa que eu posso decidir o que será do meu dinheiro, do meu tempo, das minhas habilidades... - em vez de depender das vontades e possibilidades de outra pessoa.

Quando a lista de prioridades é minha, eu posso decidir que prefiro sair pra jantar a assinar canais de televisão. Na sexta-feira, eu posso decidir se vou dormir mais tarde, ou se prefiro acordar cedo no sábado. E se eu preferir acordar cedo no sábado, não vou me achar uma pessoa boba ou velha porque eu não preciso me sentir pressionada, como um adolescente, a tomar as decisões que "todo mundo acha" que são as mais legais.

Ser adulto é, às vezes, errar, porque adultos assumem as responsabilidades e consertam o estrago que fizeram. É saber que a gente não tem que ser sério e produtivo o tempo todo, que a vida precisa ser equilibrada com a leveza, as risadas, que a mente precisa ser arejada, assim como a casa.

Ser adulto é se divertir sem ser idiota - e quando eu falo idiota estou falando daqueles que acham que é legal se divertir com o sofrimento de alguém, ou que tomam decisões precipitadas, assumindo uma conta que não serão capazes de pagar. Ser adulto é gastar o seu dinheiro com o seu hobby, sem ter medo de ter que explicar para alguém o que você está fazendo.

Sobre este assunto: um dos melhores livros que eu li em 2017, Como Criar um Adulto (Julie Lythcott-Haims) não ensina apenas sobre como podemos influenciar a próxima geração, mas nos faz refletir para sermos melhores adultos.

Guia AnnieEscreve #5

Já faz 84 anos desde o último #GuiaAnnieEscreve. Mesmo devagar, enquanto eu estava dando conta de algumas prioridades muita coisa interessante aconteceu por aqui. Será que você perdeu alguma coisa?



Muita coisa foi escrita aqui desde o último guia. O site chegou a ficar fora do ar por quase um mês, e sabe o que fez os textos voltarem com tudo? Todo mundo que mandou mensagem porque tentou acessar e não conseguiu. Eu não escrevo porque tem gente lendo, eu escrevo porque preciso, mas saber que vocês estão aí do outro lado dá muita vontade de fazer tudo cada vez melhor. Obrigada!!

E sobre o que eu escrevi? Aqui no Annie Escreve se fala sobre todo tipo de assunto. Não é um blog sobre política, livros, organização, relacionamentos, vida cristã, séries, moda, beleza... É o meu blog. Assim como os meus amigos podem conversar comigo sobre esses e quinhentos outros assuntos, vocês podem ler a minha opinião sobre qualquer coisa aqui.

Falamos sobre tolerância e empatia, e sobre comunicação no casamento. Falamos sobre atividades extravagantes para gastar o tempo e o dinheiro que a gente não tem, falamos sobre a rotina de cada um e os motivos porque muitas mulheres estão sozinhas no trabalho doméstico.

Dei dicas de séries sobre política e de como descartar alguns itens que se acumulam pela casa porque a gente não consegue jogar no lixo. Indiquei alguns livros para ler e dar risada e falei sobre a problematização da beleza.

Escrevi sobre o dilema em que a melhor parte é também a mais difícil, a glamourização do sofrimento, a polêmica da exposição que foi cancelada e, talvez a treta mais importante do ano: um texto informativo, explicativo e bastante extenso sobre a reforma trabalhista, colocando de forma bem clara o que é verdade e o que é mito, o que vai ajudar a sua vida e o que vai atrapalhar. Se você ainda está meio confuso com esse tema, leia já! A reforma já começa a valer em novembro.

Eu li Multiplique (Francis Chan) depois de Casais e Dinheiro (Victoria Felton-Collins e Suzanne Blair Brown), Dívida Boa Dívida Ruim (Jon Hanson) e Mais Tempo Mais Dinheiro (Gustavo Cerbasi e Christian Barbosa). Depois de ler muita coisa sobre o mesmo tema em sequência a mente começa a saturar. Eu estava precisando mudar de assunto, e esse livro sobre discipulado foi perfeito para o momento.

Depois disso, li Marketing de Conteúdo (Rafael Rez) e Você é o que você compartilha (Gil Giardelli). Recomendo muito a leitura do primeiro para quem quer colocar a sua cara na internet, o segundo livro já não é tão interessante como na época em que foi lançado. Terminei a leitura de Cristianismo puro e simples (C. S. Lewis) e agora estou lendo A Lógica do Cisne Negro (Nassim Nicholas Taleb), um livro com muitas críticas negativas e positivas, o que torna as coisas bastante interessantes.

Também li Contos Plausíveis (Carlos Drummond de Andrade) e Cien Años de Soledad (Gabriel García Marquez) muito, muito lentamente. Depois disso, li rapidinho A lenda do cavaleiro sem cabeça para poder dizer para vocês: não leiam! É chato, os personagens são chatos e o cavaleiro aparece por dois segundos na história toda (por que esse título, né?). Voltei para o Drummond: Lição de Coisas, o último Drummond não lido na minha biblioteca. Estou aceitando doações (na edição branquinha da Companhia das Letras, por favor, pra não bagunçar a estante).

Aqui no apartamento doze terminamos de assistir House of Cards e Better Call Saul e embora estejamos duas temporadas atrasados com Orange is the New Black, a falta de vontade de continuar assistindo (desculpa) nos levou a começar Forever, uma série curta - só teve uma temporada de 22 episódios - sobre um médico legista imortal. Tem uma pegada Sherlock Holmes, com uma história mais complexa sobre a sua imortalidade e a descoberta de outro cara imortal, só que psicopata (eita).

Por falar em Holmes, estou assistindo Elementary na Netflix, uma releitura de um Sherlock Holmes contemporâneo em Nova York acompanhado de uma Watson, sim, John Watson se tornou Joan Watson. Estou curtindo muito a série! Quase todas as temporadas estão na Netflix e, se seguir o padrão, a última deve ser lançada no streaming quando começar a próxima na TV americana, nos próximos meses.

Comecei a ver Parenthood, a série que todo mundo quer ver depois de Gilmore Girls. Tenho um número bem restrito, e pra entrar uma nova alguém tem que sair, e essa estava na fila há muito tempo. Entrou no lugar de Orphan Black, que acabou.

Orphan Black tem todas as temporadas na Netflix e conta a história de clones humanos lutando por sua liberdade contra a empresa que os criou. O filme Onde está segunda?, lançamento da Netflix, me lembrou um pouco a série, com esse ar de ficção científica e distopia e uma grande atriz interpretando várias personagens diferentes.

Assisti Ballerina, que é uma animação bonitinha, mas nada de extraordinário. Fomos no cinema com o sobrinho marlindo ver Meu Malvado Favorito 3 que eu achei bem mais ou menos perto dos outros filmes da franquia. Os meninos gostaram.

Um filme que eu achei que seria mais ou menos, mas acabou sendo engraçado é o Mom's Night Out, que em português ficou com o título Mamãe: Operação Balada (que não tem nada a ver porque elas saem pra jantar e não pra balada). Com o marido, assisti Malévola (ele escolheu e isso significa que eu casei certo), e embora eu estivesse com muito sono (tô virando a minha mãe) gostei muito do filme!

Tô ouvindo muito as rádios do Spotify. A minha favorita é a partir da artista Lorena Chaves. Toca muita música delicinha nessa trilha. A "rádio do artista" no Spotify não são músicas escolhidas pelo artista, são músicas que as pessoas que ouvem aquele artista gostam e você pode calibrar a rádio contando para o Spotify se você gosta dessa música ou não. Também tô curtindo muito Vocal Livre, Amanda Rodrigues e Deise Jacinto.

Fora do streaming, já estamos ensaiando para o musical de Natal!!! Pois é, piscou, o ano acaba, e por aqui vai ser tudo liiindo. Eu sou o tipo de pessoa que ama essa época do ano, e não vejo problema nenhum em começar the most wonderful time of the year alguns meses mais cedo. Já é Natal por aí?

Quatro razões porque você faz tudo sozinha em casa

"Tudo eu nessa casa" é uma frase que une as mães e os adolescentes - uns com mais razão do que outros. Não é difícil encontrar uma mulher que acredita que o marido, os filhos, ou quaisquer que sejam as pessoas com quem ela more, poderiam e deveriam ajudar mais.

As estatísticas não me permitem falar besteira aqui: as mulheres gastam, em média, o dobro de horas nas atividades domésticas, em comparação com os homens - sem contar as donas de casa em tempo integral. Estamos falando de gente que trabalha quarenta horas por semana... e passa mais vinte horas cozinhando, limpando, lavando, passando, cuidando das crianças....

A realidade é esta, sem enfeite, nem maquiagem: o reflexo de uma cultura machista que há séculos aprisiona os homens e mulheres da nossa sociedade. Porque isso é verdade, volta e meia surgem textos, sermões, pregações, infográficos, vídeos e todo tipo de material para dizer "Homens, se toquem e comecem a fazer mais atividades domésticas".

O problema é que todo esse material é visto e aplaudido apenas por mulheres. Os homens não estão seguindo uma série de quadrinhos para entender o quanto a sua esposa está cansada e como ele é um folgado que vive como se tivesse empregada doméstica. As pessoas dificilmente chegam ao final de um texto que fala contra elas. E aí? Nada acontece.

Ficamos esperando que os homens mordam a isca para se instruir, criem consciência sobre o mundo ao seu redor, que eles entendam indiretas e que todo mundo contribua em casa de forma mais ou menos igual, sem precisar ficar falando, repetindo, insistindo, brigando... Enfim, ficamos esperando que a mudança parta deles.

"Eu já faço demais", eu sei, eu sei. Mas se você é adepta do "quer fazer bem feito, faça você mesmo", então você sabe que a forma mais eficiente de mudar a sua realidade começa com a sua própria mudança. Será que você não está fazendo algo para contribuir para o seu próprio martírio?




Toda a organização da casa está concentrada em você

Saber o que tem que ser feito - parece óbvio, mas não é. A coisa é muito mais simples quando não envolve várias pessoas. Quais são as tarefas que precisam ser feitas, e com que frequência? Acredite, isso não é universal, tampouco é um conhecimento implantado no cérebro desde a fase embrionária. É daquelas coisas que a gente aprende em casa, com as figuras de referência e com nossa própria experiência.

A grande questão é que cada pessoa tem um histórico diferente - experiências diferentes, criação diferente - e traz consigo a cultura do seu berço, que pode ser muito, muito parecida com a sua, mas sempre será diferente. Isso significa que esses detalhes, que a carrega a vida toda, e por isso parece tão óbvio, precisam ser esclarecidos quando estamos lidando com mais de uma pessoa. Não dá pra cobrar das pessoas a execução de tarefas que só existem na sua cabeça.

Vocês podem sentar e decidir como organizar as atividades domésticas, para formar um plano. Não importa se cada um terá as suas tarefas definidas, ou se simplesmente vão definir o que precisa ser feito, sem designar pessoas específicas... O importante é que todas essas coisas saiam da sua cabeça e estejam em um local acessível a todos.

Ninguém faz como você

Para que as pessoas realizem certas tarefas, é importante dar a elas a liberdade necessária para fazer do jeito delas. Há uma diferença enorme entre dar sugestões para melhorar o processo e ditar passo a passo de como fazer cada coisa.

A sensibilidade precisa ser maior quando falamos de pessoas que, diferente de você, não têm anos e anos de prática. O nível de exigência precisa ser menor para quem está aprendendo. Costumamos fazer isso com as crianças, mas por algum motivo não temos paciência para deixar que o adulto aprenda.

Nem toda crítica é útil ou necessária - o que você acha super importante pode ser apenas uma mania, e a maioria das críticas pode ser transmitida sem um tom ofensivo - em vez de enfatizar o que está errado, dê uma sugestão sobre como essa pessoa pode melhorar.

Muitas mulheres criticam e até ridicularizam os maridos no serviço doméstico ou no cuidado com os filhos apenas para reforçar um estereótipo - "olha o jeito que ele segura a criança", "olha quanta água ele coloca no balde", "todo esse tempo pra lavar uma louça..". Se você recebesse esse tipo de estímulo, qual seria a sua reação?

Deixar que os outros façam significa aceitar que cada um vai fazer do seu jeito - segundo as suas competências e limitações. Se você não consegue lidar com as pessoas fazendo de um jeito diferente do que você faria - que não é necessariamente errado - talvez seja melhor aceitar que sempre fará tudo sozinha.

Você sustenta padrões irreais

Existe um limite daquilo que é possível em uma casa onde as pessoas vivem. Muita gente usa esse limite como desculpa para a bagunça. "Casa arrumada não tem vida" - quantas vezes não ouvimos isso? Eu já falei que não é verdade. Existe um equilíbrio entre a casa impecável do showroom e a casa onde ninguém liga porque as pessoas estão vivendo - em meio ao caos.

A gente se cobra demais pela cortina que não ficou bem ajeitada, pela ponta do tapete que está dobrada, pelo cisco que caiu no chão. O fato é que aquela casa impecável do fim de sábado - ou que é arrumada para as visitas - não se sustenta por mais de duas horas, não deu nem tempo de descansar da faxina.

Descubra o padrão de limpeza e organização que você consegue sustentar. Em vez do ciclo semanal em que a casa fica muito suja e bagunçada, para depois ficar muito limpa e arrumada, encontre um padrão realista, que vocês conseguem manter todos os dias, sem precisar de uma força-tarefa.

Acredite: é muito melhor viver em uma casa 8/10 todos os dias do que passar duas horas em uma casa impecável, sendo que nessas duas horas você está tão cansada que nem consegue curtir antes do primeiro suco derramado.

Os padrões irreais são tão exigentes, que desanimam muita gente antes mesmo de começar - a gente sabe que vai dar trabalho e não vai durar. É muito melhor envolver todo mundo na manutenção de um padrão realista do que se frustrar porque toda aquela faxina só durou duas horas.


Você mora com pessoas mal-educadas

Existe gente ignorante e existe gente sem noção. Estou falando de gente folgada, egoísta, egocêntrica e preguiçosa. Nesse ponto, pensando no que se pode fazer a respeito, há uma diferença enorme a partir de quem são as pessoas que moram com você. Algumas relações são voluntárias, outras não. Algumas situações você ajudou a criar, outras já estavam lá quando você nasceu.

Você não escolhe os seus pais, mas escolhe o amigo com quem vai dividir o apartamento. Você não tem muita influência sobre a educação do seu marido - as pessoas mudam, mas não mudam -, mas é 100% responsável pela educação do seu filho (não, não é 50% pra cada um, é 100% pra cada um: lidem com essa matemática).

Algumas situações podem ser remediadas imediatamente, outras requerem tempo de planejamento e preparo. Às vezes vale mais a pena ser trouxa do que passar a vida inteira falando com as paredes - sabe como é? Afinal de contas, na maioria das vezes, a gente escolhe quem são as pessoas que a gente mora, e escolher errado traz pro seu colo uma parte da responsabilidade...

Pode ser que a paz interior esteja em fazer o que tem que ser feito, e se sentir feliz consigo mesma. Se você se sente bem com isso, não tem problema nenhum em fazer tudo sozinha.

Arte, censura, liberdade

Uma coisa todo mundo concorda: o banco errou. Uns vão dizer que errou em fazer a exposição, outros apontam o erro no cancelamento.

Insentões aparecem para criticar todo mundo ao mesmo tempo: "Liberais defendendo a censura e esquerdistas defendendo um banco". O mundo dá voltas ou nós é que estamos tontos?


A liberdade de expressão

A Constituição garante a liberdade de expressão, colocando sobre ela apenas uma regra: a responsabilidade. Já falei que a responsabilidade é a outra face da liberdade, e que uma não pode existir sem a outra. Por isso, quem quer se expressar livremente precisa dar a cara a tapa - não vale se esconder no anonimato - e se responsabilizar pelo que expressou diante de todos - inclusive sobre eventuais calúnias, ofensas e bobagens em geral.

Quer dizer que o tal artista tinha todo o direito de fazer a sua arte? Sim. E de enfrentar todas as consequências do seu ato. Fazer arte deve ser uma manifestação de coragem, a exposição daquilo que se carrega dentro de si. Arte covarde é uma contradição.


A liberdade de expressão do outro

O direito do artista de fazer a sua arte é correspondente ao direito que todas as pessoas têm de achar aquilo tudo uma bela bosta. Ou achar lindo. De achar o que quiser. De dizer que todo mundo deveria prestigiar a obra, ou de que a exposição deveria ser fechada porque ninguém merece ver uma coisa dessas. Enfim, todo mundo tem liberdade para se expressar sobre a obra, e eu acho que ninguém discorda disso.

Censura

A censura, por outro lado, vem encerrar a liberdade de expressão em sua origem. Ninguém vai se manifestar sobre a obra, porque a obra não está apta à exposição pública, de acordo com os critérios obscuros de alguém. Nesse sentido, nenhuma manifestação popular contra uma obra de arte pode ser considerada censura, porque a censura somente pode vir de uma autoridade superior.

Hoje existe censura em filmes, por exemplo, para impedir o acesso de determinadas faixas etárias a certos conteúdos que os legisladores consideraram inadequados - critério deles, autoridade superior. Censura não é ver, não gostar, fazer campanha contra... isso é liberdade de expressão. Censura é fazer com que ninguém possa dizer que não gostou.

Cancelamento não é censura?

Pois bem, vamos falar do caso concreto: um banco privado abre uma exposição de arte. As pessoas visitam a exposição e muita gente não gosta. As pessoas que não gostam da exposição começam a pressionar o banco para que a exposição seja cancelada.

O movimento, a pressão, as ameaças e as milhares de contas canceladas (eu não me daria ao trabalho, mas né, cada um se manifesta como acha que deve) são manifestações legítimas da expressão de uma parcela - que não é pequena - da população. A expressão do outro não deve ser menos legítima por ser diferente da minha. Não é assim que a gente joga esse jogo chamado democracia.

Cada consumidor tem um super poder, que é o de escolher para onde vai levar o seu dinheiro. Todo mundo tem direito ao boicote, como forma legítima de se manifestar sobre os temas que lhe são caros.

"Nunca uma exposição de arte foi cancelada" talvez seja verdade para exposições gratuitas e abertas ao público em geral (não pesquisei), mas a afirmação é completamente falsa se considerarmos o universo total das exposições de arte, incluindo aí aquelas que a gente precisa pagar ingresso para ver. 

Quando se cobra ingresso para uma exposição de arte e ninguém paga porque uma pessoa foi e disse "tá, ó, uma bosta", a exposição é cancelada e em seu lugar vem outra coisa. Isso acontece o tempo todo, não só com as artes plásticas: filmes saem de cartaz antes do tempo, peças de teatro e shows musicais encerram suas turnês mais cedo, porque o artista precisa comer, e pra comer ele precisa de dinheiro e pra ter dinheiro ele precisa cobrar ingresso. Se ninguém quer pagar pra ver esse show, o jeito é cancelar e fazer outro.

De onde vem a grana

O Santander Cultural é um espaço de acesso gratuito, o que torna essa coisa do boicote mais difícil - daí as manifestações mais fervorosas e medidas drásticas de quem vai precisar procurar outro banco, conhecer outro gerente, transferir todas as contas, avisar o patrão e/ou os clientes... é um baita de um esforço para fazer a sua opinião ser ouvida.

Acontece que o artista em exposição não tinha muitas preocupações - já estava bem alimentado porque as obras foram financiadas com dinheiro público.

Agora vejamos... se alguém pega o seu dinheiro, o dinheiro do pagador de impostos, para financiar um artista que faz uma obra que você considera de mau gosto, você não acha que merece dar uma opinião - para não dizer dar um escândalo? 

Você está pagando impostos porque precisa, pensando que, pelo menos, vai pagar o salário dos professores e os remédios da farmácia popular, mas em vez disso o seu dinheiro é usado para fazer uma coisa que você nem gosta (por exemplo, seja financiar um artista que não é do seu gosto ou pagar o mensalão de um corrupto) - não é revoltante?

Será que a liberdade de expressão deve ser financiada com dinheiro público? Não seria mais honesto fazer um financiamento coletivo para que a sua arte fosse apoiada apenas pelas pessoas que concordam com ela?

Antes do fim

Não posso terminar esse texto sem falar sobre o conteúdo da exposição. Quem defende a exposição, disse que não viu nada de mais. Quem é contrário à exposição, encontrou todo tipo de perversidade, e até crime, naquilo que viu. Eu só vi uma imagem, e só vou me manifestar sobre ela:

Qualquer imagem que sexualize crianças é um incentivo à pedofilia, porque a pedofilia é a inserção de uma criança em uma relação sexual. A minha opinião sobre esse assunto não é nada flexível: a sexualidade da criança não deve ser despertada. Isso significa que a gente não fala que criança namora, nem diz que a criança é sensual. Criança não tem decote, nem lábios carnudos. Criança não é homo, nem hetero. Criança é criança.

Talvez as pessoas sejam inocentes, ou bobas, ou se façam de bobas... talvez você não tenha jamais pensado nisso, mas existe um motivo porque muitos pais sequer colocam fotos dos filhos nas redes sociais, para evitar que imagens de crianças sejam usadas como objetos sexuais. É errado tratar as crianças dessa forma. Ainda que a criança da imagem não sofra nada, outra criança pode sofrer em seu lugar.

Como eu vou explicar isso aos meus filhos?

A exposição recebeu muitas crianças, em excursão escolar - desacompanhadas dos pais, e eu imagino que muitos deles não foram à exposição, ou não o fizeram antes do passeio dos filhos. Os pais confiam no discernimento da escola para disponibilizar às crianças o conteúdo adequado à sua faixa etária.

No entanto, quando falamos de um conteúdo sensível, a família tem o direito de saber antes a que tipo de imagens serão expostas as crianças, de escolher, na medida do possível, quando as crianças serão expostas a determinados temas.

A vida acontece o tempo todo, isso é certo, e muitas vezes a gente precisa encontrar explicações apropriadas para tópicos que não pensava ter que entrar tão cedo, mas a visita a uma exposição de arte que explora temas polêmicos e provocativos não é um evento acidental e inevitável.

Escola ensina, família educa. Se vamos manter esse discurso, precisamos ser coerentes com ele o tempo todo. Se os pais quiserem levar os filhos à exposição e ter conversas construtivas a partir dessas provocações, é um direito deles. Também é um direito dos pais preferir que os filhos não vejam essas imagens. A decisão - informada, consciente, deliberada - sempre é dos pais.

Quem é liberal nessa bagunça toda?

Parecia a situação mais irônica - a esquerda defendendo a instituição mais capitalista que existe e os liberais defendendo a censura. Estranho, pra dizer o mínimo... Mas o fato é que nossas definições de esquerda e direita já estão bem bagunçadas e é muito fácil confundir anarquistas, comunistas, com gente que é apenas hippie e se define como esquerda porque enxerga ali o pessoal do "paz e amor", assim como é muito fácil colocar conservadores e liberais no mesmo saco.

Para os conservadores, o problema maior era o conteúdo da exposição - inadmissível. Acho até que eles gostariam de poder censurar tudo de antemão. Criar uma comissão para filtrar o tipo de arte que enaltece o espírito ou algo assim...

Já para os liberais o grande problema é que a exposição foi realizada com dinheiro público - e embora o cancelamento da exposição não faça retornar aos cofres publicos o dinheiro, manda a mensagem sobre como eu quero que o meu dinheiro seja gasto.

Pra não deixar de falar, no estatismo autoritário não estaríamos tendo essa conversa porque os artistas já teriam sido fuzilados muito antes de pensar nessa exposição.

O liberal, nessa bagunça toda, é a pessoa que não liga pra quem é o artista, qual é o seu conteúdo, e que pode até prestigiar a obra, se for de seu interesse. Ele só não concorda que o dinheiro público deva ser investido nesse setor. A arte deve ser financiada por quem se identifica com ela. Simples assim.

Resumindo...


  • O artista tem o direito de fazer o que quiser e chamar de arte, assim como o público tem o direito de achar o que quiser da arte. As pessoas que acharam a arte de mau gosto têm todo o direito de boicotar a exposição, os patrocinadores, os apoiadores, enfim, quem elas quiserem. O boicote é e sempre será um meio legítimo de protesto, a maior arma do consumidor para se fazer ouvido.
  • Fazer arte com dinheiro público é questionável, para não dizer errado, porque muito embora a gente não queira só comida, mas também diversão e arte, é preciso, antes, ter a comida, para depois mandar dinheiro público para a diversão e arte.
  • Atribuir sexualidade à criança - homossexualidade ou heterossexualidade - é tão errado quanto estimular o namoro infantil, vestir a criança com roupas sensuais, enfim, todas essas coisas estimulam a pedofilia, e considerar isso arte é, no mínimo, mau gosto - essa é a minha liberdade de expressão em exercício.
  • Todo liberal tem direito à sua opinião, inclusive à sua opinião sobre os outros e sobre o que eles fazem. Todo liberal tem o direito a não querer financiar, direta ou indiretamente, aquilo que ofende à sua moral, aos seus princípios ou qualquer coisa que ele não gostar, não quiser, não desejar... Não é um liberal aquele que acha que o artista não tem o direito de fazer a arte que quiser.

A melhor parte

Precisamos falar, de novo, - sempre - sobre pecado. Precisamos falar sobre pecado de novo e de novo, porque se não estamos falando sobre isso, se deixamos esse assunto de lado, então não estamos lidando com ele. É muito mais cômodo não tocar no assunto. Assumir que eu faço coisas abomináveis, que eu as produzo naturalmente, rotineiramente, é assumir que eu sou abominável. Isso não pega bem.

Ninguém gosta de falar sobre câncer, mas não há como tratar sem tocar no assunto. Como o pecado, eu posso fingir que ele não existe e cumprir deliciosamente a minha lista de coisas para fazer antes de morrer - até que ele mesmo venha me lembrar de sua existência fatal e dolorosa.

O pecado é como uma droga. A gente sabe quem é ruim, a gente sabe que é bom. Alguns de nós conseguem focar na parte ruim, outros se deixam seduzir pelo lado bom. Todo mundo sabe que a melhor forma de resistir ao doce chamado da droga é não experimentar - se eu não souber o quanto é bom, eu consigo focar no quanto é mau. 

Mas não há como não experimentar o pecado. Não conseguimos não pecar porque é o nosso ser - somos pecadores - que nos leva ao pecado. Não é o ato que nos transforma, assim como não é a produção da primeira fruta que determina que árvore será aquela. Ela já era o que é desde a semente.

E o pecado é bom. O pecado nos coloca em vantagem diante de outras pessoas. O pecado nos dá prazer. O pecado cria atalhos confortáveis e evita conflitos. O pecado nos proporciona aquilo que nós achamos que merecemos. Às vezes, o pecado até parece justiça. É muito mais fácil pecar do que resistir. Essa parte da nossa vida em que não precisamos pensar na pessoa horrível que somos é boa porque é confortável.

Mas não é a melhor parte. Não é melhor porque para viver em paz com o pecado precisamos conviver com o medo, a raiva, a culpa. É uma pequena dose de veneno todos os dias para continuar vivendo a ilusão desse barato - que está tudo bem, está tudo certo.

O pior de tudo é que o pecado nos afasta de Deus. Não porque ele nos rejeita, mas porque é impossível ficar perto dele e do pecado. É incompatível. Quando tentamos chegar perto do Santo Deus, o pecado grita alto, revelando a culpa e a vergonha que escondemos debaixo de camadas e camadas de orgulho e boas ações. Somente o próprio Deus pode nos livrar do pecado, mas para isso precisamos falar sobre ele. 

Se não lutamos contra o nosso próprio pecado, não podemos ter comunhão com Deus. O sinal da comunhão na Igreja - a Ceia do Senhor, quando nos lembramos do sacrifício de Jesus para nos livrar do pecado - é precedido por um momento de contrição - a oportunidade para o arrependimento e a confissão, não pública, mas diante de Deus. É admitir que errei, e tenho errado, mas prentendo me esforçar mais para resistir à pessoa horrível que sou. É clamar para que Deus me ajude a ser mais parecido com Ele - santo, sem culpa, sem vergonha, sem dor.

Muitos se afastam da comunhão porque reconhecem o seu pecado, mas, de forma triste, não escolhem a melhor parte. A melhor parte não é ter consciência de quem eu sou e viver assim porque é natural - a melhor parte é receber o perdão e ser perdoado. A melhor parte é viver sem culpa, sem vergonha. É se perceber a cada dia sendo transformado - mais perto, mais amigo, mais parecido com Jesus.



Você não precisa se abster da comunhão por causa do pecado - se te contaram isso, então você só recebeu a mensagem errada. A comunhão não é para aqueles que não pecam, mas para aqueles que foram perdoados, e o perdão se estende a todos.

Você é linda, sim

Ultimamente tenho visto vários textos e publicações revoltados com os elogios. Parece que agora a gente tem que tomar cuidado com os elogios - linda entrou pra lista de palavras que o mundo politicamente correto não usa mais. Sim, a beleza foi problematizada. Alguns dias atrás vi um pequeno texto de um cara se desculpando por todas as vezes em que exaltou a beleza feminina, como se isso diminuísse a mulher de algum modo.

Algumas mulheres dizem que preferem ser fortes, inteligentes, independentes, mas ninguém disse que você precisava escolher. Tratamos a beleza como a superfície de uma pessoa vazia. Imagine só, uma pessoa inteligente pode ser corajosa, empática, feliz, sensível... mas uma pessoa linda não será nada mais do que isso. Pois é, aparentemente, a beleza, ao ser notada, exclui quaisquer outras características que uma mulher possui, é o que dizem os críticos.

Eu sinceramente não vejo porque ter que escolher, mesmo porque essa ideia de que mulheres lindas não podem ser cheias de conteúdo não passa de uma elaboração do mito da loira burra - preconceito disfarçado de problematização.



Vou chamar de linda, sim, sabendo que lindeza é algo que está nos olhos da gente. Cada um enxerga a beleza de um jeito diferente, e tudo bem com isso. O importante, mesmo, é enxergar a beleza que existe dentro da gente. E se não conseguir enxergar, de alguma forma tentar ser uma pessoa linda. A gente finge que é, até finalmente ser.

Como a música de Caetano e até o dicionário diz, gente linda não é apenas agradável à vista. Isso seria, no máximo, bonito. Para ser lindo, precisa ser admirável, marcante, digno de ser lembrado. Então, se você for realmente uma pessoa linda, eu não vou me desculpar em dizer. Vou continuar dizendo, como um dos melhores elogios que se pode fazer a alguém: você é linda, sim.

Comédias para ler

Não é fácil encontrar uma boa história de comédia, porque a maioria deles usa a comédia como recurso para contar outro tipo de história, e não como fim em si mesmo. A procura por um livro que simplesmente faça rir pode levar à frustração dos livros de piada da seção de humor.

Ser engraçado de propósito é muito difícil. É um talento. Ser engraçado sem ser bobo, infantil ou pornográfico é um desafio - a gente vê como é complicado encontrar um filme de comédia que realmente faça rir sem precisar tirar as crianças da sala.


É até difícil encontrar uma imagem de alguém lendo comédias. Procure por fotos de pessoas lendo e vai encontrar gente muito séria, compenetrada, concentrada em uma história profunda. Certamente eles não estão lendo esses livros aqui.

O Fantasma de Canterville é um livro delicioso, para ser devorado rapidamente e render boas gargalhadas. É um livro curto, um clássico que dá pra ler em uma sentada - até porque é meio difícil de parar de ler. Oscar Wilde brinca com americanos e britânicos usando do sarcasmo para tirar sarro dos tradicionais e daqueles que não respeitam as suas tradições.

Entre os autores contemporâneos, não posso falar de comédia sem mencionar o meu amigo Felipe Fagundes, ele escreve no Não Sei Lidar e recentemente começou a publicar algumas histórias e ganhar alguns prêmios (não sou só eu quem acha que ele é muito bom). No Wattpad, onde você pode ler de graça, tem dois livros completos: Não Somos Um e Não Sei Lidar com Gênios, além de alguns contos. Agora ele está publicando o Não Sei Lidar com Malas. Os livros também podem ser adquiridos na Amazon no formato digital.

Para unir o peculiar humor britânico e a ficção científica (não é curioso o uso dessas duas palavras conjugadas?), sempre teremos Douglas Adams. Gostar da sutileza elefantil do humor britânico é um requisito para apreciar os livros.

Se você prefere um humor brasileiro, um livro bem curtinho de Jorge Amado: A morte e a morte de Quincas Berro d'Água - que virou filme há alguns anos. Incidente em Antares, do Érico Veríssimo, também é engraçadíssimo, mas para chegar nas gargalhadas é preciso passar por toda a primeira parte que é interessante, mas não é muito cômica. As crônicas do outro Veríssimo não precisam ser mencionadas, né?

Muita gente indica as comédias de Sophie Kinsella e Carina Rissi, mas eu não posso indicar a Carina porque nunca li, e a Sophie porque só li Becky Bloom... e não gostei. Não que ela não seja engraçada, quer dizer, deve ser... mas o estilo de vida da Becky me deixa nervosa. Eu não consigo achar graça porque fico preocupada hahahah #amãedosamigotudo

Todos os livros que eu citei estão disponíveis na minha biblioteca. E você, tem alguma comédia pra mim?