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O consumismo é capitalista?

Cada nova fase da vida é um momento de muitas descobertas. As vidas de um novo universitário, de uma nova mãe, de alguém que acabou de alugar seu primeiro apartamento têm em comum um monte de novidades, um monte de dúvidas e um monte de propaganda de coisas que o mundo jura que você precisa. O consumismo quer aproveitar a oportunidade na janela da ignorância de quem está adentrando um mundo novo e não tem certeza do que realmente precisa - é a hora perfeita para convencer a comprar um produto.



No mundo do marketing digital, o mercado ficou ainda mais esperto para captar as pequenas mudanças e começar a disparar a propaganda antes que a janela se feche. Informe uma rede social sobre uma gravidez e bam! em todos os lugares aparecem roupas de bebê, berços, carregadores  e outros acessórios. Uma marca de fraldas começa a te mandar emails. Todo mundo quer o dinheiro da nova mãe empolgada que acha que precisa de tudo - "é melhor não usar do que precisar e não ter". 

Uma vez eu falei no Facebook sobre um produto quase completamente inútil, uma embalagem personalizada para ser usada apenas uma vez e depois descartada ou guardada como lembrança. Na minha mente minimalista, isso não faz sentido nenhum. Apareceram muitas pessoas para concordar e discordar de mim, mas somente uma para perguntar se eu era marxista. Só uma, porque quem me conhece sabe que muito pelo contrário, mas é uma associação comum, a de pensar que o consumismo é capitalista, e que quem nada contra essa corrente só pode ser marxista.

A associação do consumismo ao capitalismo é bastante lógica, porque somente o capitalismo fornece o ambiente favorável ao consumo - consciente ou não. Mas isso não quer dizer que a promoção do consumo consciente seja marxista, porque o consumo consciente pressupõe uma liberdade que somente o capitalismo proporciona. Se você não pode escolher o que vai consumir, seu consumo não é consciente.

A liberdade de escolha é o grande "pro" do ambiente capitalista. Nenhuma circunstância é capaz de retirar completamente o direito de escolha do indivíduo na sociedade capitalista, muito embora alguns queiram dizer o contrário. Apontam a propaganda, a ignorância e a falta de recursos como cerceadores da liberdade produzidos pelo capitalismo, mas nada disso tem força para obrigar as pessoas a consumir, nem mesmo tem força para impor a sua presença, de modo irredutível e permanente, às pessoas.

A propaganda tem por objetivo convencer uma pessoa a se tornar um consumidor. Dizer que a propaganda obriga a consumir é dar muito crédito ao marketing, ou pouco crédito às pessoas. Na pior das hipóteses, a propaganda em si pode ser evitada ou facilmente ignorada - nenhum recurso essencial à vida obriga a assistir um vídeo de trinta segundos para continuar. 

A ignorância é uma condição sempre temporária e muitas vezes autoimposta, mas é sempre melhor administrada onde há livre trânsito de informações, isto é, onde a informação não é controlada por uma agência coercitiva. A maioria das pessoas prefere a comodidade da ignorância do que a preocupação do consumo consciente. É mais fácil comprar tudo do que pesquisar o que comprar.

A falta de recursos, quando cerceadora de liberdade de consumo, é também um pouco de ignorância. Os produtos industrializados parecem ser mais baratos do que produtos in natura, mas quem já parou para pensar que o quilo do miojo pode custar R$ 12,50? Ou que um quilo de biscoito recheado pode custar R$ 15,00? 

Essas informações não estão sequer ocultas, quase sempre o preço do quilo está disponível junto ao preço da unidade (em tamanho menor, mas está lá), ou acessível por uma simples regra de três. São produtos mais caros, menos nutritivos e que saciam a fome por menos tempo - porque são digeridos muito rapidamente - do que frutas e cereais. 

Quando temos menos recursos, precisamos atacar a ignorância para fazer as melhores escolhas. Novamente, escolhas somente são possíveis em um ambiente de liberdade proporcionado pelo modelo econômico capitalista. 

Isso não impede que o Estado e a própria sociedade se organizem para ajudar aqueles que não têm, não sabem ou não conseguem discernir melhor, muito pelo contrário. Onde a liberdade é mais valorizada, haverá sempre espaço para cultivar a autonomia do outro.

O consumismo não é capitalista, o consumismo é um anseio humano. A vontade de possuir existe muito antes da capacidade de entender o dinheiro, o capital, a troca. Esse anseio humano somente pode ser controlado por uma força interna ou externa. A força externa é uma privação de liberdade - seja ela dominadora ou paternalista, toda privação de liberdade é opressora. A força interna é o consumo consciente, o exercício informado da liberdade de escolha do consumidor.

Estado laico, igreja apolítica

Estado e Igreja estão em um relacionamento complicado há séculos. Há quem confunda as duas coisas como uma só; para outros, devem ser completamente heterogêneos. Muita gente diz que esses assuntos a gente não deve nem discutir. Misturar política e religião... dá certo?


Não sei se essa é a pergunta certa, até porque é difícil separar as duas coisas, ao menos quando falamos do cristianismo. Não me refiro ao fato de que alguns políticos usam igrejas como palanque - ou pior, curral eleitoral, muito menos encorajando a teocracia. O cristianismo é intrinsecamente político, não por se envolver em eleições ou ocupar cargos de governo, mas porque está comprometido com a transformação da cidade, a polis. É impossível se importar com a cidade sem fazer política.

Infelizmente, a política tomou dimensões nefastas, dando novo significado à palavra. Quando falamos em política, normalmente não estamos mais falando da vida das pessoas, mas de um processo eleitoral, da arte de se obter o que se quer pelo cultivo de relacionamentos lucrativos, da corrupção e das pessoas que a praticam. Política virou coisa suja, quando na verdade é coisa nossa. Talvez seja desnecessário, mas eu quero esclarecer que não é nessa política que a igreja precisa se envolver.

O distanciamento da política e das ações do Estado é uma barreira que conversa muito bem com a separação entre igreja e Estado. O Estado deve ser laico. A igreja deve ser apolítica. Deus me livre falar de coisa suja num lugar tão santo. Mas qual é o papel de cada um? Hoje, talvez, seja fácil dizer, porque já separamos muito bem: Igreja é para adorar a Deus, para cultivar a espiritualidade, para tratar os anseios da alma; Estado é para servir a população, tratar os doentes, alimentar os famintos, garantir a justiça.

Se a descrição do Estado lhe parece familiar, é bem provável que você a tenha visto na Bíblia, e por isso eu digo que o cristianismo é totalmente político. Muitas políticas públicas deram início no domínio eclesiástico, como ações de compaixão e graça da igreja: educação pública, cuidados de saúde para todos, assistência social, direitos humanos... 

Então, o que aconteceu?

Em algum momento o Estado começou a participar dos serviços oferecidos pela Igreja - momentos diferentes a depender do serviço - até assumir a função total ou majoritariamente. Quando começamos a pagar para que o Estado assumisse essas funções, terceirizamos uma importante porção da missão da Igreja, cruzamos os nossos braços e deixamos o Estado fazer "o seu papel", que na verdade é o nosso. A Igreja se recolheu a uma insignificância que não era sua, e chamou isso de neutralidade política, como se fosse algo bom, útil e necessário.

Enquanto isso, o Estado, torna as pessoas cada vez mais dependentes de si, convencendo-as de que ele é o único que pode dar a todos o que necessitam, e que a sua onipresença regulatória e mantenedora é extremamente necessária para garantir que ficaremos bem. O Estado deixa, portanto, de ser laico, para se tornar um deus, apresentando o mesmo comportamento que se vê em muitas religiões, inclusive em igrejas que se declaram cristãs.

Mas o cristianismo não é sobre aprisionamento e dependência da religião ou da igreja. Também não é sobre anarquismo e corrupção da ordem e da autoridade estabelecida. O cristianismo é sobre liberdade, seja qual for a prisão - a miséria, a corrupção, a mentira, a vaidade, a tirania, o conservadorismo, o legalismo, a ignorância, a doença - a proposta do cristianismo é de libertação.

Ambiente Preparado

O "ambiente preparado" é uma expressão utilizada na educação infantil, especialmente na pedagogia científica de Maria Montessori. Significa um ambiente limpo, organizado, seguro e acessível. Na educação infantil, o objetivo é que este ambiente ajuda a criança a se desenvolver com autonomia e tranquilidade. Não é difícil perceber como o ambiente interfere no comportamento e na serenidade das crianças. Nos esforçamos para apresentar ambientes adequados aos pequenos, mas nos esquecemos o quanto o ambiente afeta às pessoas adultas.

Ficamos mergulhados na correria do dia a dia e minimizamos o quanto o ambiente afeta a produtividade, a ansiedade, e até mesmo a capacidade de relaxar. O ambiente acaba sendo negligenciado, junto com a alimentação, o sono, o ócio e todas as outras coisas que tornam as horas de produção realmente produtivas.

Cuidar do ambiente é cuidar da gente. "Ambiente preparado" é o que dá paz no coração para fazer todas as outras coisas, com a calma e a concentração necessárias. Não se trata apenas de limpar e organizar a bagunça.

As coisas que estão no ambiente precisam fazer sentido, e não apenas ocupar espaço. Aquilo que existe precisa ser funcional, isto é, atender ao objetivo. Se está sobrando, não é funcional. Se está quebrado, não é funcional. Se está improvisado, não é funcional.

Os objetos precisam estar acessíveis a quem vai usar. Quantas vezes você desistiu de fazer algo que queria fazer, só pelo trabalho que daria para pegar o material necessário, que você já tem, mas não está acessível? Acessibilidade parece um tema para pessoas com deficiência, mas às vezes as pessoas sem nenhuma deficiência se debilitam tornando as coisas mais difíceis para si.

O ambiente precisa conversar com o comportamento das pessoas. É mais fácil mudar o ambiente do que o comportamento. Se as roupas sujas acabam sempre se acumulando fora do cesto, talvez o cesto esteja no lugar errado.

Nem sempre temos total controle sobre o ambiente. Quem trabalha em escritório compartilhado ou mora com os pais, por exemplo, tem sérias limitações sobre mudanças no ambiente, mas sempre existe um espaço de individualidade - a sua mesa de trabalho, o seu quarto. Todo mundo tem o seu espaço para preparar, mesmo que seja só um cubículo. Que seja o melhor cubículo que ele pode ser.

Como escolher um candidato

Começa a corrida eleitoral. Os candidatos se apresentam. Debates. Entrevistas. As redes sociais comentam em profusão sobre esses candidatos, mas também abundam com a participação dos próprios candidatos - a internet cada vez mais relevante na corrida eleitoral.

As pessoas não comentam apenas sobre os candidatos, mas sobre os eleitores. O período eleitoral é maravilhoso para liberar aquela vontade que todo mundo tem de criticar as escolhas alheias. Fica tudo disfarçado na desculpa de que a crítica está sobre o candidato e não sobre o eleitor.

Apelos são abundantes - votem neste, não votem naquele - com uma diversidade de argumentos impressionante. O que mais me chama atenção é o tal do "gente como a gente", que é o argumento da identificação. Mulher vota em mulher. Crente vota em crente. Professor vota em professor.


O problema desse argumento é que ele leva a tal da representatividade a um nível absurdo, sem no entanto corresponder à sua própria pregação. Isso porque se alguém precisa ter as mesmas características - biológicas, físicas, sociais, econômicas, religiosas - que você para o representar, a única pessoa que pode ocupar esse papel é você mesmo.

Falamos tanto em empatia e parará, como é que, ao mesmo tempo, podemos deixar escapar a ideia de que alguém que não é como você poderia compreender e lutar pelas suas necessidades, como seu representante? Como a gente pode limitar a tal da identificação a uma característica física e insistir no discurso da empatia e do que vem de dentro? Como eu posso descartar um candidato porque ele é milionário e eu não? Ou porque é branco e eu sou preta? Ou porque é homem e eu sou mulher?

Tudo isso para votar em alguém que parece ser parecido com você, mas que vai acabar fazendo tudo como sempre, como todos os outros, como você jamais esperou. Afinal, a gente não chega a conhecer esses candidatos, não é? Se basta ser mulher para ganhar o meu voto, de que me interessa o plano de governo? Se eu vou votar em alguém que tenha a mesma profissão que eu, vou confiar na probabilidade de que ela pense como eu...

Representação política não pode ser uma representação de fachada. Precisa ser uma representação ideológica. Quem me representa é alguém que pense parecido comigo, especialmente no que diz respeito à política. Eu não preciso votar em alguém que goste das mesmas músicas que eu, mas precisa ser alguém que tenha a mesma visão de Estado que eu, alguém que atenda às minhas expectativas para o que eu espero de um deputado/senador/governador/presidente.

É assim que funciona a democracia representativa - com ideias, e não com personagens.

"Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz"

Às vezes nos perdemos em labirintos de diferenças, rotulando o que é santo/profano, verdadeiro/herético sem prestar tanta atenção ao conteúdo. Deixamos passar oportunidades de reflexão e desperdiçamos a graça comum ao desprezar o conteúdo pela fonte que, às vezes, julgamos inadequada.

Já vi trechos da oração, atribuída a São Francisco de Assis, em músicas que são cantadas em nossas igrejas - onde há frieza, que haja amor; onde há ódio, o perdão... - mas ultimamente tem me chamado a atenção a primeira frase - Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz.

Não entrando em discussões sobre a terminologia, especialmente sobre o uso do pronome no plural... estou reproduzindo a frase como é mais conhecida.

A proposta é simples e humilde - não suplica por uma situação mais confortável, uma solução milagrosa, mas se coloca à disposição para ser o instrumento. Significa mais do que desejar a paz, se dispor a trazer a paz para o ambiente de conflito.

Você já pensou o quão diferente pode ser o seu local de trabalho, a sua casa, os ambientes em que você convive com outras pessoas, se você for o instrumento da paz de Deus naquele lugar? É uma postura diferente de não promover o conflito, ou mesmo de se isolar de situações e pessoas que geram conflito. O conflito aparece, ele nos cerca. Será que teremos a coragem de ser o instrumento da paz, e não de qualquer paz, mas a paz de Deus?

Quando cantamos "onde há frieza, que haja amor; onde há ódio, o perdão", estamos pedindo pela transformação do outro ou estamos nos oferecendo para ser e viver o amor e o perdão neste mundo de ódio e indiferença?

Séries (quase) desconhecidas que valem cada minuto

Quem gosta de séries sabe que existem muitos tipos de série e muitos motivos diferentes para ver o próximo episódio. Tem aquela que todo mundo está vendo e comentado, aquela que você sabe que é trash, mas por algum motivo desconhecido não para de assistir, aquela que já foi boa e você se apegou, e aquela que é quase o seu tesouro particular.

Algumas séries são focadas em um público específico e, embora façam muito sucesso nesse nicho, são praticamente desconhecidas do público em geral. Há sempre o receio de que a emissora cancele o progarma antes de chegar ao seu devido fim, mas na maioria das vezes vale a pena. Cinco dessas séries pouco comentadas estão na minha grade.

Queen Sugar

Três irmãos negros no sul dos Estados Unidos herdam uma fazenda de cana de açúcar e acabam decidindo manter a propriedade na família. Apesar de irmãos, os três têm históricos bem diferentes - uma jornalista ativista dos direitos sociais que é amante de um polical branco, uma empresária socialite cujo marido famoso está passando por um escândalo sexual, um ex-presidiário que teve um filho com uma viciada em drogas e ainda não sabe o que vai fazer da vida.

A série é cheia de estrelinhas no elenco, boa parte deles esteve no premiado filme Selma. A produtora executiva é uma tal de Oprah, mas talvez o principal fator de qualidade da série seja o fato de estar em uma emissora privada. Com isso, a série consegue tocar em temas delicados e falar sobre alguns tabus sem que os roteiristas sejam barrados pelos chefões - como geralmente acontece nas grandes emissoras americanas. 

The Americans

Dois espiões da KGB são enviados para os Estados Unidos para conduzir operações durante a guerra fria, disfarçados como um casal americano no subúrbio. Nós os encontramos anos mais tarde, bem estabelecidos e com dois filhos que não fazem ideia de quem os seus pais realmente são. Nesse momento, a situação da Rússia começa a se complicar, e os nossos personagens centrais têm dificuldades em manter o disfarce duante da família e dos amigos, especialmente após um agente do FBI mudar-se para a casa ao lado.

Apesar de ser uma série americana, ela não busca a narrativa clichê do russo malvado e americano bonzinho. A história se desenvolve em uma área cinzenta em que todos têm um trabalho a fazer, e têm motivos para isso - pessoais e profissionais. Uma trama bem desenvolvida, com começo, meio e fim em cinco temporadas. Sem correria, nem enrolação, foi o tempo exato para deixar saudades, tendo cumprido a sua missão.

Timeless

Uma máquina do tempo. Um cientista, um soldado e uma professora de história. Eles têm a missão de voltar ao passado para mantê-lo intacto enquanto os vilões tentam alterar os acontecimentos para dominar o presente. Em cada episódio, visitamos um momento crítico ou corriqueiro da história dos Estados Unidos e do mundo.

A química entre os personagens, a tensão com as consequências de tudo o que eles fazem no passado, a interação com personagens reais em momentos importantes ou aleatórios e toda a ficção científica da máquina do tempo são motivos para assistir essa série que, infelizmente, terminou mais cedo do que deveria.

The Last Ship

Um navio tripulado com cientistas e militares fica isolado do mundo enquanto uma praga assoladora transforma o mundo conhecido em um cenário apocalíptico. Logo descobrimos que os cientistas estavam tentando, justamente, desenvolver uma vacina/cura para a tal doença antes que virasse uma epidemia. Outras pessoas, no entanto, estão interessadas no caos e fazem de tudo para atrapalhar a missão. 

Nessa altura do campeonato, a ameaça biológica não é o único problema no mundo. A morte repentina de milhões de pessoas abala as estruturas da sociedade. A tripulação do navio precisa encontrar um jeito de salvar a humanidade. Encontrar a cura. Parar o vírus. Salvar o mundo.

Travelers

Mais uma sobre viagem no tempo, só que dessa vez são as pessoas do futuro que vêm aos dias atuais para evitar uma tragédia. Uma vibe bem "exterminador do futuro", só que com uma viagem bem diferente. Os viajantes não descem de máquinas com roupas prateadas e robôs ajudantes. Em vez disso, apenas a consciência é transportada para um corpo cujo dono está prestes a morrer.

Calma, eles não matam pessoas para voltar ao nosso tempo. Eles investigam possíveis candidatos com base no registro de óbitos da data em que precisam retornar, aprendem sobre a sua vida em todos os registros possíveis - especialmente as redes sociais - e então assumem o comando, evitando a morte iminente e usando o corpo para a sua missão.

Já conhecia alguma dessas séries? Tem alguma série para indicar? Use os comentários para deixar a sua sugestão.

O que eu não li no segundo trimestre

Eu publiquei um post falando sobre as minhas leituras do primeiro trimestre, que foram muitas. Comecei o ano com um ritmo de leitura muito bom e aproveitei o momento, até engravidar. O primeiro trimestre da gestação é tudo aquilo que as pessoas dizem: um cansaço infinito, e a impossibilidade absoluta de ler mais de uma página sem cair no sono imediatamente. Todas as minhas energias foram para o útero, e desde então não consegui finalizar nenhuma leitura. No segundo trimestre, estou conseguindo retomar o hábito diário, sem grandes pretensões. Não espero alcançar o ritmo do começo do ano, mas talvez conseguir ler um livro por mês, quem sabe?


Antologia poética (Vinicius de Moraes)

Esse foi o único livro de ficção que eu finalizei. Foi quase um mês nesse livro, por causa da sua própria característica literária. Quando era adolescente, eu achava poesia uma leitura muito rapidinha. De fato, costuma ser um texto mais curto, mas a densidade era algo que eu ainda não tinha muita noção. Para ler poesia a gente precisa de tempo, mais do que para decifrar as letras, mas absorver as palavras e captar os sentidos. Poesia é tão difícil de ler, quanto de escrever. Você concorda?

As cinco linguagens do amor (dos adolescentes) (Gary Chapman)

Gary Chapman é um autor cristão conhecido sobre os seus livros que falam sobre as cinco linguagens do amor. Inicialmente para casais, ele escreveu outros materiais aplicando os mesmos princípios a outros tipos de relacionamentos. Esse livro, especificamente, mostra como o amor é percebido pelos adolescentes, e como nós podemos demonstrar amor na linguagem deles. As cinco linguagens são as mesmas, mas a forma de expressar e entender é diferente. Da mesma maneira que a gente pode falar português, mas não entender o jeito que os adolescentes falam - esse gap de linguagem existe também na linguagem do afeto. Eu li esse livro porque estou trabalhando com adolescentes e pré-adolescentes na minha igreja. Gostei tanto que já emprestei para uma mãe de adolescente.

Introdução à cosmovisão cristã (Michael W. Goheen e Craig G. Bartholomew)

Esta foi a leitura do último encontro do Clube do Livro. É um livro de teologia, bem acadêmico, e em muitas partes difícil de ler. Fazia algum tempo que eu não lia algo tão "escolar", até a linguagem é diferente. No entanto, é uma leitura de que não me arrependo. Valeu o esforço e as horas investidas, não só pela compreensão ampliada do conceito de cosmovisão, mas também para entender melhor a cosmovisão cristã, com a qual me identifico, e poder responder com mais clareza às pessoas porque eu não me identifico com outros movimentos sociais, políticos, filosóficos... Espero escrever algo sobre isso ainda esse ano...

Será que o bebê vai deixar a mamãe ler mais ainda esse ano? 

Não julgarás as mães

Mãe é sagrado, isso a gente já sabe. A mãe dos outros a gente não xinga, nem fala mal. No entanto, uma regra não escrita está muito mais enraizada, pelo menos na nossa cultura, que é a de não se meter na maternidade alheia. Se olhar feio pra criança dos outros - por mais malcriada que lhe pareça - a pessoa já passa por deselegante, e pode inspirar um textão pela imensa falta de solidariedade e compreensão.



Como regra, nenhuma mãe no Brasil está interessada em ouvir opinião ou conselho de ninguém. Entende-se, de modo geral, que uma mãe está sempre certa, mesmo que ela esteja errada. Na verdade, errado é quem está se metendo. Você vai ver quando você tiver os seus.

Dizer para uma mãe que ela está agindo erradamente com seu filho é acordar uma fera, mesmo que ela esteja, sei lá, fumando crack durante a gestação, ou colocando pinga na mamadeira. Bater na criança é mais seguro do que desafiar uma mãe em sua maternidade.

Mas será que alguém não julga? Todo mundo julga, ainda que seja educado demais para dizer alguma coisa. Coitado de quem tem o dever legal de se meter. O Conselho Tutelar, a equipe pedagógica da escola, e até a polícia são vítimas do mais enraivecido "você está querendo me ensinar como criar o meu filho?".

Talvez seja necessário, pelo bem das crianças, abrir um pouco a cabeça. Ouvir um pouco mais, mesmo não concordando, mas parando pra refletir. Por que estão me dizendo isso? Se filho não vem com manual, mamãe também não sabe tudo. Nenhuma mãe está sempre certa. Nem sempre a criança sobrevive. E dificilmente é a mãe quem paga as terapias da criança que sobreviveu.

O que é vida? e outras perguntas difíceis

Há muito tempo, eu já escrevi sobre o aborto, e tinha para mim esse tema como esgotado. Para resumir a minha opinião, eu sou favorável à descriminalização do aborto, apesar de ser contrária à sua prática. É a mesma posição que eu tenho com relação a diversos temas polêmicos: eu não considero que as minhas preferências devem pautar a agenda pública, ou mesmo obrigar os outros a seguir a minha regra de comportamento. Como cristã, eu prefiro pregar o evangelho a colocar na cadeia aqueles que não concordam comigo.

Como eu disse, achava que o tema estivesse esgotado para mim. Agora, alguns anos mais velha e na condição de mãe, descobri que tenho algumas respostas que antes não tinha. Os debates mais recentes também levantaram algumas questões das quais ninguém falava antes, e que eu gostaria de responder. Vamos a elas...


Existe vida antes da 12ª semana de gestação?

Poderíamos matar essa pergunta com a lógica: todo aborto pressupõe uma vida, porque é a morte do que não nasceu. Para morrer, é necessário estar vivo. Se não há vida antes da 12ª semana, então não há aborto, e o problema se resolve muito facilmente. Mas se há aborto, então há vida.

O primeiro trimestre gestacional - que na verdade vai até a 14ª semana (curiosidade: as duas primeiras semanas constituem potencial gestação - da maturação do óvulo até a fecundação, mas são contadas como "gravidez") - é um sofrimento. Vai além de todos os hormônios enlouquecidos e das mudanças no corpo, dores, enjoos, cansaço infinito. A mãe que carrega um bebê minúsculo pensa, vinte e quatro horas por dia, será que meu bebê está vivo?

O bebê de até 12 semanas não "chuta", não soluça, não manifesta sinais claros de vida exceto aqueles detectáveis por aparelhos especiais. Coincidentemente, o período do primeiro trimestre é o de maior risco de aborto espontâneo. É tenso, não porque haverá vida, mas porque há vida. Os pais que ouvem pela primeira vez um coraçãozinho batendo sabem o motivo da emoção: vida.

Vamos partir desse pressuposto.

Por que ninguém fala sobre o aborto paterno?

Essa é uma pergunta muito difícil, porque o aborto paterno é uma violência contra uma família. Aborto paterno é aquele em que o genitor coage, obriga ou até mesmo provoca sobre a mãe. É o sinal óbvio de um relacionamento abusivo, opressor, que não valoriza a vida de ninguém e não considera consequências. Ninguém fala sobre o aborto paterno porque essas histórias de sofrimento se passam em segredo, ou são silenciadas para sempre.

Não confundir com abandono. Fingir que alguém não existe mais é diferente de matar. O abandono pode levar à morte, mas a morte não é consequência necessária do abandono. Muita gente foi abandonada pelo pai. Muita gente não sabe nem quem é o pai, sem  falar que muita gente não sabe que é pai... A figura paterna é essencial para a formação da criança, mas muita gente está melhor hoje porque a sua figura paterna não foi o pai. Não quero, com isso, dizer que abandono é legal. Não estou dizendo que abortar não pode, mas abandonar pode. Estou dizendo que abandono não é aborto. Precisamos discutir os dois assuntos, sem misturar as coisas.

Aborto é assunto de mulher?

Como advogada de família, eu ouço muito a frase "eu não fiz esse filho sozinha". Exceto quando se fala em aborto. Aí o corpo é da mulher e, aparentemente, o filho é só dela também. "No uterus, no opinion" é uma frase de efeito bacana para mascarar o autoritarismo antidemocrático. Eu, com meu útero bem habitado, digo que precisamos parar de pedir mais participação masculina na vida doméstica e familiar enquanto ainda tratamos de "assunto de mulher" e "assunto de homem". Ora, por favor.

A Bíblia prescreve o aborto para casos de infidelidade conjugal?

Essa eu vi no Twitter, inclusive veio com a referência, o que já facilita a vida. Em Números 5 há a descrição de um "ritual" para casos em que há suspeita de infidelidade conjugal. Resumindo, o marido que sente a testa coçar leva a mulher ao sacerdote, que fará com que essa mulher beba uma certa água. Se ela for inocente, nada acontece. Se ela tiver sido infiel, a água fará com que ela fique inchada e a tornará estéril. Poderíamos dizer que é um "ritual de esterilização", mas não de aborto. O texto não descreve, prescreve ou recomenda o aborto.

Quanto à moralidade da esterilização da mulher adúltera, não podemos fazer interpretação anacrônica. Se esse tipo de procedimento não é mais seguido pelos judeus, quanto mais pelos cristãos. Primeiro, porque segundo o Cristo, o adultério precede a relação sexual (Mateus 5:28). Segundo, porque a o estilo de vida instituído pelo Cristo afirma a igualdade entre homens e mulheres, valoriza toda a vida e todas as vidas, redime e restabelece a ordem da Criação. Os pecadores - "todos e todas" - não estão sujeitos ao escrutínio do sacerdote, mas respondem diante do próprio Deus. Mas se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar e nos purificar completamente.

O aborto deveria ser fornecido pelo SUS?

O SUS fornece, de graça, camisinha, pílula anticoncepcional, DIU, laqueadura, vasectomia, além dos procedimentos de aborto legal. Vi alguns depoimentos de bebê McGyver que foi concebido quase que milagrosamente, apesar da combinação de diversos métodos contraceptivos que, presume-se, foram praticados com perfeição. Qual seria a ideia? Viabilizar o aborto apenas para quem se preveniu, mas foi vítima da estatística? Deveria estar disponível para o aborto voluntário? Deveria a triagem perguntar/constranger sobre as devidas precauções para evitar a gravidez? Será que o SUS comportaria a demanda - considerando que o sistema já está saturado com a demanda atual? Fica a reflexão.

A falta de acesso gratuito ao aborto é igual à criminalização do aborto?

Um dos grandes argumentos pela descriminalização do aborto é o de que o aborto já acontece. É verdade, não há lei que impeça ou que atrapalhe a convicção de alguém que tem certeza de que está, de alguma forma, fazendo a coisa certa - mesmo que seja certo só para ela. Mas isso também significa que ninguém deixa de fazer aborto porque tem que pagar, mesmo que seja em uma clínica clandestina e sem segurança, certo? O serviço já existe. A regulamentação certamente traria mais segurança. Esse é o objetivo da descriminalização, certo?

O aborto é um direito?

Já falei bastante aqui no blog sobre a vulgarização do "direito". Todo mundo fala que é preciso aprender a diferenciar "quero" e "preciso". A gente também precisa distinguir desejo, necessidade e direito, porque o excesso de direitos faz com que todo direito se torne irrelevante.
O "direito ao aborto" tem por fundamento o direito ao próprio corpo. O direito ao corpo e à integridade física é um direito importantíssimo, que tem relação com o direito à vida e o direito à liberdade. No entanto, me parece uma extrapolação considerar que uma vida - outra que não é a sua - seja considerada o seu próprio corpo.

Em todos os casos de aborto legal há um julgamento moral muito sério: qual vida eu devo preservar? Existe um risco muito grande à vida e à saúde - física e mental - das vidas que estão envolvidas, mãe e bebê. Já o aborto voluntário, quase sempre, trata da disposição de um sobre a vida do outro. É um desrespeito, não um direito.

Eu não vou impor sobre ninguém as minhas convicções, nem mesmo exigindo que seja crime aquilo que eu considero errado. Mas vou continuar dizendo que é errado, porque este é o meu direito.

O cabelo de cada um

Nos últimos tempos tem sido muito legal observar nos espaços públicos como as pessoas estão cada vez mais saindo com seu cabelo natural. Percebemos uma diversidade que há muito tempo não se encontrava. 

Você provavelmente tem alguma foto da turma do colégio/faculdade, todo mundo com o mesmo corte de cabelo, mesmo modelo de óculos escuros, mesmo estilo de roupa. Eu sei, isso se chama "moda", mas essa moda de "cada um vai como gosta" é muito mais legal. Eu acho que o mundo fica mais interessante quando as pessoas não parecem cópias umas das outras.

O problema é que passamos tanto tempo aprendendo como cuidar do cabelo para que ele se conforme ao padrão da época, que fica difícil lembrar como cuidar do cabelo para que ele seja simplesmente a sua melhor versão. Além de tudo, dificultamos o trabalho dos portais de moda. Era muito fácil dar a dica infalível quando todo mundo tinha o mesmo cabelo - ou melhor, quando só um tipo de cabelo era interessante.

Diziam que a medida ideal de creme para pentear era do tamanho de uma moeda de um real, eu li isso em uma revista quando era adolescente. Naquela época eu usava aproximadamente um terço do pote a cada vez que eu lavava o cabelo. A revista estava errada porque quem escreveu aquilo obviamente não tinha cabelos cacheados. Eu estava errada porque eu tinha expectativas erradas sobre o meu cabelo, e tomava medidas exageradas para fazer com que ele atendesse às minhas expectativas nada realistas.

O "movimento de aceitação do cabelo" é muito bem-vindo, mas ainda não chegamos "lá". Ainda existem muitas expectativas irreais sobre como um cabelo deve ser, e poucas são as inspirações para mostrar tudo aquilo que o seu cabelo pode ser. Não é difícil perceber isso, é só pesquisar sobre penteados para cabelos cacheados, você vai encontrar mil versões de três penteados - solto, coque, meio preso.

Antes de brigar com o seu cabelo porque ele não atende às suas expectativas, é preciso conhecê-lo melhor. Que cabelo é esse? Como ele se comporta? Do que ele precisa, do que ele gosta? Nesse momento, considere: você gosta mesmo dos cachos e está pronta para aceitá-los, com volume e tudo mais? Ou você gosta do seu cabelo de outro jeito e está disposta a fazer o que for necessário para isso? Ninguém instaurou uma ditadura dos cachos - o cabelo é seu. 

Você escolhe se ele é liso, cacheado, ou se quer raspar a cabeça, mas cada cabelo tem seu próprio cuidado, tem sua própria beleza, tem suas características essenciais. Não dá pra pensar em cachos sem volume - pode ser pouco volume, mas sempre tem volume, o volume é consequência do cacho. Não dá pra pensar em... deixa pra lá, não conheço outros cabelos... mas você entendeu o raciocínio. Você precisa conhecer o que você tem. Seu cabelo agradece.

Fogo amigo

Você tem um companheiro, alguém com quem você compartilha a vida. Muita gente passa muito bem pela vida em carreira solo, mas há quem escolha compartilhar. É uma escolha. Foi a minha escolha e é a de muitos.

O nome "companheiro" não foi escolhido a esmo. É alguém que acompanha, que caminha junto, na mesma direção, pelo mesmo caminho. Seu parceiro de jornada. O caminho já não é fácil, e sempre há alguém para atrapalhar, além de que, trabalhar em dupla é complicado. Mas vocês têm um ao outro, para apoiar, amparar, ajudar a crescer. É por isso que andamos juntos.

A gente enfrenta muita coisa: ajustes no relacionamento, dificuldades financeiras, problemas familiares, situações profissionais, doenças físicas e psicológicas, inseguranças, incertezas, palpites, pitacos, ciúmes, inveja... e no meio de tudo isso a última coisa que alguém precisa é de fogo amigo. Sabe o que é? Quando você é atacado pelo seu próprio time.

Quando a gente recebe ataques de fora, dá pra contar um com o outro, chamar reforços, encontrar consolo e renovar as forças. Mas se o ataque vem de dentro, pra onde é que se corre? É covardia. Mas a gente faz isso, às vezes até inconscientemente. Expondo os defeitos do outro na frente da família, dos amigos, ou nas redes sociais. Às vezes é "de brincadeira", mas também machuca. Repreendendo sem respeito, muitas vezes diante de outras pessoas.

Tá certo que a gente precisa acertar os ponteiros, que às vezes o parceiro vacila (e a gente também), que tem comportamento que se repete e incomoda demais, mas pra nenhum desses problemas a humilhação pública é a resposta. 

A gente tem falado muito sobre mudar a maneira de tratar as crianças (graças a Deus!), e esquece que o parceiro também é gente; que se a criança precisa de respeito, também precisa dele o adulto que está ali; que a criança cresce e vai embora e o parceiro, é com ele que a gente deveria ficar a vida toda. Será que ele fica?

Já nasce sabendo?

A criança não sabe falar ou andar, mas aperta os botões do controle remoto e desliza o dedo pelo celular com propriedade. Os adultos parecem impressionados e exclamam, "Eu não sei como ela aprendeu a fazer isso, parece que já nasceu sabendo". Mas ninguém nasceu sabendo. As crianças aprendem a lidar com a tecnologia assim como aprendem todas as coisas: observando e imitando.

É importante lembrar disso. Estamos sendo vigiados o tempo todo, nosso comportamento, ações, atitudes, palavras, tudo isso é absorvido pelas crianças à nossa volta. Enquanto elas tentam entender como o mundo funciona, são guiadas pelos adultos em sua vida. Isso não é informação nova, mas é bom lembrar.

Quer dizer que as crianças são um sinal importante da vida que estamos levando: a criança aprendeu primeiro a abrir um livro ou acender a tela do celular? como são as brincadeiras? quando ela brinca de ser mãe, o que é ser mãe para ela? A criança não nasce sabendo, mas ela começa a aprender muito antes do que se imagina...