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“Mostra-nos o Pai!”

Esta é uma série de textos escritos para o curso de Teologia Essencial do Invisible College. O curso consiste no estudo de um tema da teologia por mês com leitura de um livro, materiais complementares em texto, áudio e vídeo, um fórum de perguntas e respostas com um convidado, uma sessão de tutoria com um dos professores em um grupo pequeno e a entrega de um texto (resenha ou artigo). O texto a seguir foi escrito em Março de 2021 para o tema Teologia Bíblica do Novo Testamento.




A eternidade no coração do homem sugere a existência de algo maior do que a sucessão de tempos e atividades da vida comum, mas não explica e não concede uma compreensão acerca de Deus e seus caminhos. A busca humana pelo divino tem nos levado a diversos caminhos místicos e explicações esotéricas para os mistérios da vida, mas não ao conhecimento do Deus verdadeiro.

É o próprio Deus quem se revela, desde a criação do mundo, por meio das coisas criadas, exibindo seus atributos invisíveis, seu poder e natureza divinas, mas também falando, ensinando e se mostrando diretamente a alguns homens que o registraram naquilo que hoje chamamos de Escrituras Sagradas. A Teologia Bíblica lida com o processo da revelação de Deus registrada na Bíblia e busca compreender, especificamente, como Deus se revelou à humanidade nesse tempo.

É interessante notar que Deus não se revela como uma aparição, uma entidade cósmica, um intangível distante, mas por sua própria iniciativa estabelece com o homem um relacionamento. A revelação relacional de Deus nos mostra diferentes atributos em diferentes contextos. Isso não significa que Deus mudou.

A imutabilidade é um dos atributos de Deus. Ele é eterno, infinito e imutável, mas nem sempre é compreendido assim. A ideia de que o Deus do Antigo Testamento é diverso do Deus do Novo Testamento é tão antiga quanto a Igreja. Marcião de Sinope foi provavelmente um dos primeiros a sustentar essa ideia. Ele tinha dificuldades em conciliar os ensinamentos de Cristo com as ações divinas relatadas no Antigo Testamento. A conclusão de que se tratava de divindades diferentes foi a forma que encontrou para resolver as supostas incoerências da divindade bíblica.

Essa mesma ideia resiste até hoje, sendo um tema constante na apologética a imutabilidade divina e o mistério da trindade. No entanto, o problema da suposta incoerência não parece se resolver com a doutrina da trindade, posto que o Deus Pai de que fala o Filho ainda pode parecer muito diferente do Deus do Antigo Testamento.

Para resolver esse problema, será necessário abordar, primeiro, o próprio problema. Trata-se da expectativa de um Deus sem complexidade, unifacetado, que se manifesta e se revela sempre da mesma maneira. Ocorre que Deus não tem qualquer obrigação de atender as expectativas humanas sobre o Deus que elas querem ver, muito menos àquelas que diminuem e limitam a sua existência. O que muitos atribuem a uma suposta contradição bíblica ou divina não passa de um conhecimento limitado do Deus que se revelou.

A descrição de uma divindade amorosa no Novo Testamento em contraste com a divindade cruel do Antigo Testamento não resume o caráter divino apresentado nessas porções das Escrituras. Esse argumento reducionista não revela a essência divina, mas a superficialidade do conhecimento que se tem sobre Deus e a sua Palavra. Não são poucos os trechos em que a benignidade e o amor de Deus são evidenciados no Antigo Testamento. Tampouco o Novo Testamento omite a morte de Ananias e Safira como consequência fulminante da sua infidelidade perante a santidade do Altíssimo, sem contar tantos outros adoecidos e mortos pelo Juízo divino.

Por outro lado, essa expectativa revela também certa medida de indisposição para conhecer o caráter e os atributos de Deus, e talvez alguma soberba e vaidade que não permitem aceitar, compreender ou mesmo considerar que o Deus revelado possa ser maior que o conhecimento do homem mortal.

Nenhuma pessoa seria julgada falsa ou instável porque se mostra séria em um contexto e descontraída em outro, nem porque se relaciona de forma amistosa com algumas pessoas ao passo que é agressiva com outras. A comparação é pífia, mas se até os homens podem ter uma personalidade extensa e complexa, e podem escolher revelar ou ocultar características conforme o contexto e os relacionamentos em que se inserem, por que seria o Criador uma figura tão simplória e limitada?

A revelação divina através do seu relacionamento conosco nos dá a oportunidade de conhecer seus diferentes atributos nos mais diversos contextos e, ainda assim, enxergar a sua unidade, imutabilidade e infinitude. Antes de pensar em incoerências, é necessário visualizar o contexto e o relacionamento que Deus estabelece com as pessoas.

O Senhor dos Exércitos guerreia com e pelo seu povo. O amigo de Abraão, com seu relacionamento pessoal – o Deus de Abraão – se assenta à mesa com ele. Davi encontra em Deus o refúgio e o perdão. Ele é o pastor, o cuidador, o servo, mas também é poderoso e implacável contra o ímpio. No entanto, precisamos que venha o Filho para nos mostrar o Pai.

A palavra Pai não era uma forma comum de se dirigir a Deus na comunidade da velha aliança. Seu nome era inefável; Ele não deveria ser mencionado com qualquer grau de intimidade. O termo Pai quase nunca foi usado para falar sobre Deus ou para se dirigir a Ele em oração no Antigo Testamento. Mas no Novo Testamento, Jesus nos traz a um relacionamento íntimo com o Pai, rompendo a separação simbolizada pelo véu do templo. Jesus nos deu o incomparável privilégio de chamar a Deus de “Pai”.[1]


É Jesus Cristo quem nos ensina a orar ao “Pai nosso”, e a partir dos evangelhos encontramos a ideia de que somos adotados por meio da redenção em Cristo, com a prerrogativa de sermos chamados “filhos” de Deus, porque cremos no seu nome. Essa revelação não significa que a partir do Novo Testamento se torna Pai, mas que através do Filho podemos conhecer e desfrutar da paternidade divina.

A ideia de um Deus íntimo, paternal, não está excluída no Antigo Testamento, mas somente se desenvolve quando o Filho nos revela o Pai, e nos dá o privilégio de, por meio do Espírito Santo,

É certo que a nossa finitude não consegue compreender toda a extensão de um Deus infinito, mas podemos e devemos conhecer os atributos que Ele já nos revelou. A profundidade no conhecimento de Deus dissipa as supostas incoerências e nos faz perceber a graça que se estende aos seres humanos em toda a revelação bíblica, e até os dias de hoje. A revelação de Deus não é inconstante nem instável, mas progressiva e contextualizada. Hoje podemos dizer que é perfeitamente possível conhecer a Deus, porque o que nos era impossível Ele já fez: Deus se revelou.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HUTCHINSON, Robert J. Uma história politicamente incorreta da Bíblia. Rio de Janeiro: Agir, 2012.

KAISER, Walter C., Jr. O plano da promessa de Deus: teologia bíblica do Antigo e Novo Testamentos. Trad. Gordon Chown, A. G. Mendes. São Paulo: Vida Nova, 2011.

MACARTHUR, John. O resgate do pensamento bíblico: recuperando uma visão de mundo alicerçada nos princípios bíblicos e na mensagem cristã. São Paulo: Hagnos, 2018.

PIPER, John. Em busca de Deus: a plenitude da alegria cristã. 2. ed. São Paulo: Shedd, 2008.

SPROUL, R. C. Does Prayer Change Things? (Crucial Questions Series Book 3) Reformation Trust Publishing. Edição do Kindle.

VOS, Geerhardus. Teologia Bíblica. 2. ed. Trad. Alberto Almeida de Paula. São Paulo: Cultura Cristã, 2019.



[1] The word Father was not the basic form of address for God found in the old covenant community. His name was ineffable; He was not to be addressed with any degree of intimacy. The term Father was almost never used to speak of God or to address Him in prayer in the Old Testament. But in the New Testament, Jesus brought us into an intimate relationship with theFather, breaking down the partition symbolized by the veil in the temple. Jesus gave us the incomparable privilege of calling God “Father.” SPROUL, R. C. Does Prayer Change Things? (Crucial Questions Series Book 3) Reformation Trust Publishing. Edição do Kindle. (p. 20-21). Tradução livre.

As últimas leituras de 2018

O último ano foi muito produtivo em minhas leituras, ainda mais considerando que eu não consegui ler quase nada entre maio e setembro, e mesmo assim terminei com 21 livros lidos. Foram 7225 páginas no ano, mantendo uma média de cerca de 20 páginas por dia, apesar do hiato. Eu consigo todos esses dados porque uso o Skoob para registrar as minhas leituras. Adicionando os livros que estou lendo e os que pretendo ler à meta de leitura anual, consigo um relatório bem legal do meu desempenho no final de cada ano.




Ficção
Robin Hood
A gente conhece a história, mas não conhece as histórias... Há muito mais camadas sob o famoso "bom ladrão", que rouba dos ricos para dar aos pobres. O livro "oficial" de Alexandre Dumas conta toda a história do herói, desde a sua adolescência até a morte, com flashbacks para a sua origem extraordinária. São muitas as histórias descritas no livro - aventura, estratégia, romance, habilidades incríveis e todo o estilo de vida dos homens da floresta e seus amigos. A edição que eu li é da coleção de Clássicos da Zahar, com capa dura, ilustrações e notas interessantes - disponível para empréstimo.

O Pequeno Príncipe
Me desafiei a uma releitura da clássica história que conheci quando criança, e odiei. Agora eu odeio menos, mas para ser sincera, ainda acho que é uma história meio boba com um monte de "filosofia" do tipo "aquilo que as pessoas querem ouvir". Desculpa, sociedade.

Coração de Tinta
O que aconteceria se tudo o que você lesse se materializasse no nosso mundo? Depende do que você lê... Esse é o primeiro livro de uma trilogia, em que um vilão sequestra o leitor com a língua encantada para que ele traga à existência algumas outras catástrofes fictícias. Enquanto isso, a sua família procura por ele por pequenos vilarejos italianos. Não é uma história para pensar, é para se envolver. Eu gostei muito desse livro e quero ler os próximos.

O Mundo de Sofia
Corrigindo uma falta da minha adolescência, finalmente li sobre a aventura de Sofia com o mundo da filosofia. A leitura introduz muito bem alguns dos principais nomes da filosfia antiga e moderna, intercalando com um mistério vivido por Sofia. Achei o final um pouco decepcionante, meio preguiçoso, mas a historinha serve bem para instigar a curiosidade e ajudar a levar adiante uma leitura que, para adolescentes, pode ser bem grande.

Não-ficção
Guia Politicamente Incorreto dos Presidentes da República
A minha edição vai até o governo Temer e, veja bem, não é exatamente um livro de história. Há muitas curiosidades, anedotas e a intenção de expor as figuras políticas em seus piores momentos, sem poupar ninguém. É claro que os momentos históricos acompanham, mas o que eu achei mais interessante sobre cada um foi a vida pregressa à presidência de cada um. Sobre o assunto presidenciais, recomendo mais ainda o podcast (que virou livro) Presidente da Semana, de Rodrigo Vizeu. Mas se você já ouviu/leu e gostou do Vizeu, vai curtir também essa leitura.

Uma Fé Pública
Essa foi a minha indicação no Clube do Livro, que trata do engajamento político dos cristãos na sociedade. A abordagem do autor começa explorando onde e como os cristãos têm falhado no seu ativismo social e termina mostrando como uma fé engajada pode fazer uma diferença relevante e colaborativa. Um trabalho muito bem feito a partir de palestras e artigos do autor revolvendo o assunto. Todos os textos foram bem editados para o formato de livro, em uma estrutura que faz sentido e facilita a compreensão.

Terceiro Setor e as Parcerias com a Administração Pública
Livro ruim, mal escrito e com um posicionamento que eu considero inadequado. É uma dissertação de mestrado que não foi preparada para se transformar em livro. Muita escrita acadêmica, muito texto desnecessário e, quanto à conclusão... não posso afirmar que o autor estava certo há quinze anos, mas hoje a sua conclusão pode ser vista como equivocada e preconceituosa. Melhor não perder tempo...

O Grande Livro do Bebê
Escrito por uma pediatra e lido por uma gestante. Algumas informações são realmente importantes, outras são desatualizadas e chegam a ser um desserviço - e o livro não é antigo, tá? A maior parte do conteúdo do livro pode ser assunto de uma boa consulta pediátrica, com um tratamento mais individualizado e contextualizado. Além disso, traz algumas listas de coisas que você "vai precisar" que não correspondem à realidade universal. Tem boas ilustrações de primeiros socorros, mas isso você também encontra na internet.

Inteligência Humilhada
A última leitura do ano também veio do Clube do Livro. Provavelmente a leitura mais densa e desafiadora do ano... Jonas Madureira fala sobre fé e razão a partir de uma fé pensante e uma razão orante. Equilibrado entre os extremos, ele coloca o leitor de joelhos sobre aquilo que não conhece, o que pensa que conhece e o que deveria conhecer. Preciso reler.

Teologia Bíblica: comparando as obras de Walter Kaiser e Geerhardus Vos

Esta é uma série de textos escritos para o curso de Teologia Essencial do Invisible College. O curso consiste no estudo de um tema da teologia por mês com leitura de um livro, materiais complementares em texto, áudio e vídeo, um fórum de perguntas e respostas com um convidado, uma sessão de tutoria com um dos professores em um grupo pequeno e a entrega de um texto (resenha ou artigo). O texto a seguir foi escrito em Fevereiro de 2021 para o tema Teologia Bíblica do Antigo Testamento.




Nos meses de Fevereiro e Março de 2021, o curso Teologia Essencial do Invisible College aborda a Teologia Bíblica, utilizando como livro-texto principal o clássico de Geerhardus Vos para a disciplina e, como leitura alternativa, a proposta de Walter C. Kaiser Jr. Estas obras serão analisadas comparativamente, em sua abordagem, metodologia e conteúdo. Cabe a ressalva de que o conteúdo analisado se refere às porções que tratam do Antigo Testamento, estudadas durante o mês de Fevereiro.

As obras introduzem a Teologia Bíblica enquanto disciplina teológica, definindo o seu estudo e esclarecendo a abordagem adotada pelo autor. Geerhardus Vos traz a definição: “Teologia bíblica é aquele ramo da teologia exegética que lida com o processo da autorrevelação de Deus registrada na Bíblia” (p. 16).

Nessa introdução, Vos discorre de forma bastante acadêmica os princípios, metodologias, usos e até críticas sobre a disciplina, reservando um capítulo inteiro (Capítulo 2) para explicitar a sua abordagem teológica. Kaiser, por sua vez, dedica-se em sua introdução a definir e explicar a “proposta epangélica[1] de teologia bíblica”, diferenciando-a das demais. Nesse esforço, acaba fazendo uma exposição mais ampla das diferentes abordagens teológicas a respeito da revelação bíblica, trazendo suas principais premissas e as críticas mais comuns.

A filiação teológica de cada um dos autores terá grande impacto não apenas no conteúdo da sua teologia bíblica, mas especialmente no método e na forma como ela é apresentada.

De tradição aliancista, Geerhardus Vos não se dá ao trabalho de explicar o que é o aliancismo, nem mesmo utiliza essa palavra para descrever a sua teologia. Ele não se interessa em destacar ou defender a sua posição frente a outras correntes teológicas. As inúmeras e ferrenhas críticas a outras publicações estarão localizadas e contextualizadas em seu texto, ao longo do estudo da revelação.

O epangelicalismo defendido por Kaiser Jr. não tem tanta visibilidade nos seminários teológicos. O próprio autor reconhece que as principais propostas de “unidade de perspectiva” bíblica são a aliancista e a dispensacionalista. Por isso mesmo, ele procura definir, criticar e diferenciar as principais correntes para, em seguida, apresentar a sua proposta “epangélica”, que não se baseia no(s) pacto(s) ou nas dispensações da graça, mas na promessa.

É importante destacar que, para defender a sua visão teológica, Kaiser acaba incluindo na visão aliancista algumas ideias minoritárias que são especialmente criticadas entre os aliancistas tradicionais, como a inclusão de diversas alianças “hipotéticas ou implícitas”. Essas diferenças são melhor abordadas quando ele trata das diferentes formas de relacionar Israel e a igreja.

Para melhor compreensão do conteúdo abordado a seguir, podemos definir rapidamente as correntes teológicas apresentadas até aqui.

A teologia da aliança (ou do pacto) encontra na aliança a unidade do plano de redenção. Ela distingue o pacto das obras (no Éden) do pacto da graça, narrado em Gênesis 3, que unifica toda a história do povo de Deus a partir desta aliança.

A teologia das dispensações faz franca separação entre Israel e a Igreja, sendo povos distintos, com os quais Deus se relaciona de modo peculiar e em tempos diversos. Neste sentido, não há unidade na teologia bíblica, mas uma cisão clara e proposital entre o Velho e o Novo Testamento.

A teologia da promessa, o epangelicalismo apresentado por Kaiser, tem na promessa de Deus, e não no pacto, o condão de unidade bíblica. Essa promessa feita à humanidade foi enriquecida e ampliada no decorrer da revelação.

Geerhardus classifica a revelação em pré-redentora e redentora. Esta é dividida didaticamente em períodos identificados pela pessoa que recebeu a revelação. Assim, o Antigo Testamento é dividido em duas grandes partes: o período mosaico e o período profético da revelação. Kaiser, por sua vez, abordará o Antigo Testamento livro por livro, agrupando-os em capítulos que localizam a promessa no conjunto bíblico apresentado.

Quanto ao conteúdo, Vos parece desenvolver um pensamento mais consistente, com a colaboração de sua abordagem histórico-linear. Ele não se preocupa em abordar todas os livros ou mesmo todas as narrativas bíblicas, mas em explorar o desenvolvimento progressivo da revelação sob a ótica da aliança. O autor aborda com profundidade o conteúdo da revelação através dos atos sucessivos em que ela se desdobra. Além disso, as pessoas que recebem essa revelação especial e as formas pelas quais Deus se revela são estudadas.

Importante destacar que o autor não demonstra amplo conhecimento apenas sobre a sua linha teológica, mas conhece muito bem as ideias que não se conformam com o seu ponto de vista. Frequentemente ele inicia os assuntos apresentando extensivamente as mais diversas teorias, chegando a confundir o leitor que se surpreende ao se deparar, em seguida, com as suas críticas sobre o que ele acaba de descrever com fidelidade. Quase sempre, o texto apresenta essa sequência: explanação de ideias equivocadas, crítica sobre essas ideias e apresentação da compreensão correta sobre o tema.

A escolha de Kaiser em apresentar o seu conteúdo a partir dos livros da Bíblia pode tornar a leitura mais reticente. Ainda que haja um ponto de convergência a ser apontado (a promessa), o “plano da promessa” não parece se desenvolver com o ritmo que Vos confere à sua obra. Conforme já destacado, os livros da Bíblia são apresentados de modo a explorar a sua posição em relação à promessa. Nessa perspectiva, o autor explora os principais assuntos de cada livro, com seu contexto, identificando-os com o tema atribuído à seleção que compõe o capítulo. De modo geral, Kaiser aborda um conjunto de temas mais extenso, procurando sempre associá-los à promessa, mas tem dificuldades em conduzir o leitor em sua linha de raciocínio. Não há qualquer dúvida, no entanto, quanto à sua erudição e capacidade de abordar cada um dos temas comentados.

Geerhardus Vos e Walter Kaiser Jr são teólogos de grande nome e muita sabedoria, que procuram responder à pergunta: “Qual o tema central da Bíblia?” Ainda que suas respostas sejam diferentes, ambos cumprem a missão de atrair o estudante para o estudo da teologia bíblica. Geerhardus Vos consegue trazer uma leitura mais agradável, mesmo tratando de temas mais difíceis, mas a leitura de Kaiser também é útil para conhecer e comparar outras perspectivas sobre a teologia bíblica.

Referências Bibliográficas

KAISER, Walter C., Jr. O plano da promessa de Deus: teologia bíblica do Antigo e Novo Testamentos. Trad. Gordon Chown, A. G. Mendes. São Paulo: Vida Nova, 2011.
VOS, Geerhardus. Teologia Bíblica. 2. ed. Trad. Alberto Almeida de Paula. São Paulo: Cultura Cristã, 2019.



[1] O termo “epangélico” tem origem na palavra grega epangelia, isto é, promessa.

Deixa eu mamar?

Eu costumo dizer que o desmame aconteceu com a gente. Parece estranho falar isso. "Não amamentou que chega?". Consigo imaginar as mães que não conseguiram amamentar revirando os olhos enquanto eu "reclamo de barriga cheia". Mas eu tenho uma história interrompida - que não se compara com nenhuma outra, ela é só minha.

Amamentei Maria Elisa por 2 anos, 3 meses e 23 dias. Ontem estava guardando as roupas dela e encontrei uma camiseta com os escritos "Mamo, não nego, paro quando quiser". Doeu um pouquinho. Ela não parou porque quis. Nem porque eu quis.


Uns vinte dias antes de acontecer, eu falei com a Ludy (amiga pediatra da Maria): "Será que vou estar amamentando no próximo agosto dourado? Nem sinal de desmame por aqui..." Eu sabia que poderia acontecer, mas foi tão repentino. Não deu tempo da gente se preparar, se despedir. 

O leite acabou.

Eu sabia que poderia acontecer. Lactogestação - a gestante que amamenta - corre esse tipo de risco. Eu achei que as coisas poderiam seguir naturalmente, ou que um dia ela diria, "ihhh, acabou", e não pediria mais. A verdade é que foi uma grande frustração. Estava mais para "como assim, cadê meu leite?!", e foi assim que rapidinho as coisas ficaram insuportáveis.

Não estou usando essa palavra de forma leviana. Eu suportei muita coisa. Choro, dor, sono, insegurança, cansaço, medo, doença, drenagem... eu ia dizer que todo mundo sabe qual é o seu limite, mas a verdade é que a gente não sabe muito bem, até chegar ali, na beira. 

Eu amei amamentar, e achei que estaria pronta quando chegasse a hora, mas a despedida foi na terapia. Eu não amei o desmame, fico até aliviada em dizer. Não foi como eu sonhei, projetei, imaginei. A Semana Mundial do Aleitamento Materno me lembrou disso. As redes sociais estão cheias de tetas, e eu sinto uma saudaaaade de amamentar.

Ela sente saudade também. De vez em quando, ela encosta só pra fazer carinho. Já chegou até a dizer "Deixa eu mamar?". Um pedido tímido e meio sem graça. Uma vez eu deixei, mas parece que ela já tinha esquecido como é (ou o meu peito vazio que não é o mesmo?). Foi esquisito. Ela também achou. Não durou vinte segundos.

Paciência.

Hermenêutica e o Desafio da Educação Cristã (Série Essencial Invisible College)

Esta é uma série de textos escritos para o curso de Teologia Essencial do Invisible College. O curso consiste no estudo de um tema da teologia por mês com leitura de um livro, materiais complementares em texto, áudio e vídeo, um fórum de perguntas e respostas com um convidado, uma sessão de tutoria com um dos professores em um grupo pequeno e a entrega de um texto (resenha ou artigo). O texto a seguir foi escrito em Janeiro de 2021 para o tema Hermenêutica Bíblica.




A Bíblia é a Palavra de Deus, a revelação divina para a humanidade. É confortador saber que o Espírito Santo é o intérprete fundamental, comunicando por meio do texto bíblico a mensagem de salvação em linguagem acessível a literatos e iletrados. No entanto, a falta de conhecimento pode fazer perecer aqueles que tentam abordar o texto bíblico de forma equivocada, ainda que com “as melhores intenções”.

A dificuldade de leitura e compreensão de texto na população é um dos obstáculos que se impõem entre o evangélico brasileiro e as Escrituras Sagradas. Nos últimos séculos, muito se avançou no letramento dos leigos – uma tarefa encabeçada pela Igreja e adotada pela sociedade e pelo Estado na civilização ocidental. No entanto, o texto bíblico traz peculiaridades que devem ser observadas para a sua melhor interpretação. A lacuna da hermenêutica bíblica precisa ser preenchida pela Educação Cristã.

Acesso às Escrituras

O acesso às Escrituras Sagradas tem movido a Igreja nos últimos séculos a diversos avanços sociais, linguísticos e tecnológicos. O objetivo de levar a Palavra de Deus a todo povo, língua e nação, crendo, ainda, no sacerdócio universal de todo cristão, tem sido facilitado pela sistematização de idiomas escritos, a criação da imprensa, a abertura de escolas e alfabetização em massa da população.

No entanto, como reflete ENKVIST, “Pensar que a leitura é apenas uma habilidade é um erro. O importante não é a leitura em si, mas a compreensão da leitura que se baseia na compreensão do mundo.” Quão disponível está o texto bíblico, se ele pode ser lido, mas não compreendido? Aquele que lê e não interpreta, realmente leu?

O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) de 2018 relata que 13% da população brasileira com Ensino Médio completo corresponde a analfabetos funcionais, e apenas 34% das pessoas que chegaram ao nível universitário podem ser consideradas letradas proficientes, isto é, “pessoas cujas habilidades não mais impõem restrições para compreender e interpretar textos em situações usuais”.

Uma pesquisa Datafolha publicada em 13 de janeiro de 2020 distribui a escolaridade da população evangélica brasileira em 35% com Nível Fundamental, 49% em Nível Médio e 15% no Nível Superior. Os dados confirmam o que a evidência empírica tem sinalizado: o evangélico brasileiro tem dificuldades para ler e interpretar as Escrituras, e isso se reflete na sua vida devocional, no evangelismo e no serviço cristão.

Entendes o que lês?

O estudo da Palavra de Deus é atividade coletiva e individual, que não encontra limites etários, sociais ou acadêmicos. São diversas as passagens bíblicas em que o ensino é ordenado: em casa, aos filhos; nas ruas; nos templos; no discipulado.

Nesta jornada, o educador cristão, seja na função de pregador ou mestre, professor de escola bíblica ou de seminário, discipulador ou líder de pequeno grupo, precisa estar consciente da relevância da sua tarefa e esmerar-se ao estudar e interpretar as Escrituras para o seu público-alvo.

A disciplina do estudo nos transforma pela renovação da nossa mente. O zelo do professor em aprofundar-se no conhecimento do objeto de estudo bíblico é uma manifestação do zelo pelas Escrituras, a fim de transmitir a Palavra de Deus tal como Ele a revelou.

O trabalho educativo crucial para a Igreja contemporânea está no desenvolvimento das aptidões para o estudo individual e dirigido. Uma geração de adultos que mal lê, mal interpreta e tem pouco espaço para desenvolver o pensamento no âmbito eclesiástico terá grandes dificuldades em instituir uma rotina de devoção e estudo bíblico individual, e maiores ainda ao assumir posições de liderança e instrução, seja em casa, no discipulado individual, ou em ministério eclesiástico.

O incentivo à leitura bíblica não pode ignorar o fato de que muitos cristãos não entendem, ou entendem mal, aquilo que leem. Para este exercício de devoção individual, não basta ter acesso a alguém que lhe explique as Escrituras. É importante que os cristãos desenvolvam as ferramentas adequadas para fazer o seu próprio exercício hermenêutico com a autonomia e desenvoltura que se espera de cristãos maduros.

Além de ensinar a partir de uma interpretação adequada das Escrituras, o educador cristão deve ter o cuidado de transmitir aos alunos os princípios que lhes permitirão acessar o texto bíblico, promovendo a autonomia para o estudo bíblico e para o exercício do ministério cristão por cada crente.

Hermenêutica para não leitores

O estudo da Hermenêutica é útil para todos os cristãos, mas nem todos terão repertório intelectual para entender a necessidade do estudo, ou mesmo para absorver o seu conteúdo no campo filosófico, dedicando tempo ao estudo da hermenêutica enquanto doutrina abstrata.

Disso não se depreende que alguns, por sua juventude ou imaturidade intelectual, devam ou possam ser privados do estudo da hermenêutica, mas que este será incutido na forma de princípios, na prática do estudo bíblico, introduzindo hábitos de leitura que remetem às boas práticas da hermenêutica bíblica.

Os princípios de interpretação bíblica são especialmente úteis aos que leem a Palavra de Deus, mas também são válidos para os que, por qualquer impedimento, apenas ouvem a leitura de terceiros, pois a comunicação oral não prescinde de interpretação. Essa situação exige especial cuidado do leitor em manter a fidelidade do texto.

É comum que as primeiras porções da Bíblia apresentadas ao leitor ou ouvinte sejam narrativas. Muitas crianças são familiarizadas com “a história de Adão e Eva”, “Noé e sua arca”, “Davi e Golias”, enquanto outros que iniciam a vida com Cristo mais tarde tendem a começar o estudo da Bíblia pelos evangelhos.

Para muitos jovens que congregam em família, as narrativas contadas por seus pais, professores de escola bíblica, em músicas e filmes infantis serão a única versão da história bíblica que conhecerão por pelo menos uma década. O educador cristão precisa ter o cuidado para apresentar uma porção suficiente da história bíblica, sem acrescentar adornos ou retirar detalhes que descaracterizem a narrativa.

É crucial que o leitor ou ouvinte entenda que Deus é o protagonista da Bíblia e de todas as suas histórias. Esse princípio deve ser observado mesmo em resumos e histórias curtas, não apenas observando se Deus está presente na narrativa, mas dando destaque à intervenção divina como ponto central da história.

O uso de material extraído e adaptado das Escrituras pode ser um recurso didático interessante, mas somente quando amparado pelo amplo conhecimento do educador a respeito do texto original e da tradição cristã associada à interpretação de cada texto. O conhecimento do texto bíblico na fonte é imprescindível para evitar que se perpetuem mitos e alegorias inseridos pela tradição oral, sem respaldo bíblico.

O ensino da Hermenêutica

O estudo bíblico cada vez mais se consolida como necessidade e interesse de todos os cristãos, mas o estudo da hermenêutica ainda soa como uma exigência técnica a ser estudada nos seminários e institutos bíblicos, uma matéria complicada para os mais simples. Neste sentido, é dever do educador cristão aculturar os seus educandos para a necessidade e a própria possibilidade do estudo da hermenêutica.

Não obstante, o ensino da hermenêutica pode ser inserido no estudo bíblico, tendo o cuidado de apresentar a interpretação adequada do texto bíblico e de reproduzir o trabalho exegético no texto em conjunto com o estudante, apresentando a interpretação bíblica na prática.

A hermenêutica bíblica não é tema restrito aos especialistas, mas uma importante ferramenta para a vida devocional, discipular e ministerial do cristão, independente do seu nível de maturidade ou letramento, cabendo à Educação Cristã ensinar a interpretação bíblica, traduzindo os conceitos hermenêuticos conforme a capacidade e necessidade dos educandos.

Referências Bibliográficas

50% DOS BRASILEIROS SÃO CATÓLICOS, 31%, EVANGÉLICOS E 10% NÃO TÊM RELIGIÃO, DIZ DATAFOLHA. G1, 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/ noticia/2020/01/13/50percent-dos-brasileiros-sao-catolicos-31percent-evangelicos-e-10percent-nao-tem-religiao-diz-datafolha.ghtml Acesso em 27.01.2021.

AÇÃO EDUCATIVA; INSTITUTO PAULO MONTENEGRO. Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf): estudo especial sobre alfabetismo e mundo do trabalho. São Paulo: Ação Educativa; IPM, 2018. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1ez-6jrlrRRUm9JJ3MkwxEUffltjCTEI6/view Acesso em: 27.01.2021.

ENKVIST, Inger. Educação: guia para perplexos. Campinas (SP): Kirion, 2019.

FEE, Gordon D; STUART, Douglas. Entendes o que lês? : um guia para entender a Bíblia com auxílio da exegese e da hermenêutica. 3. ed. São Paulo: Vida Nova, 2011.

FOSTER, Richard. Celebração da disciplina: o caminho do crescimento espiritual. 2. ed. São Paulo: Vida, 2007.

GEORGE, Timothy. Teologia dos reformadores. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2017.

GORMAN, Michael J. Introdução à exegese bíblica. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.

KAISER, Walter C; SILVA, Moisés. Introdução à hermenêutica bíblica. 3. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2014.

LYTHCOTT-HAIMS, Julie. Como criar um adulto. Rio de Janeiro: Bicicleta Amarela, 2016.

MONTESSORI, Maria. A descoberta da criança: pedagogia científica. Campinas (SP): Kirion, 2017.

TOUGH, Paul. Como as crianças aprendem. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.

TOUGH, Paul. Como ajudar as crianças a aprenderem. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.

WON, Paulo. E Deus falou na língua dos homens: uma introdução à Bíblia. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020.

Devocional do Advento 2020: A Árvore de Jesus

Opa! faz tempo que ninguém escreve aqui, né? Tenho me dedicado a escrever em outros cantos, mas estou querendo usar mais esse espaço, onde não preciso "lidar com o algoritmo", nem me contentar com "limite de caracteres". Falando em experiência de escrita, esse post é para contar que nesse último mês eu escrevi um ebook. Sim, um "livro inteiro" (ainda que pequenininho, né?). Como isso aconteceu?

Eu queria um devocional para o período do advento, mas nas minhas pesquisas nada parecia totalmente adequado... em vez de fazer uma colcha de retalhos com vários materiais, eu resolvi fazer o meu (aquelas...). E já que vamos ter esse trabalho todo, por que não compartilhar?

Sim, eu sou uma pessoa empolgada! De repente, um projetinho familiar de fim de ano se transformou em um ebook muito bonitinho. Quer saber mais sobre ele? 




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O que é o Advento?

Advento é o período litúrgico que precede ao Natal. Tradicionalmente, inicia-se no quarto domingo antes do Natal, com uma programação eclesiástica diferenciada voltada para o nascimento do Cristo. A palavra advento significa, literalmente, "chegada". Por exemplo, "No hemisfério sul, as aves migratórias enchem os céus com o advento da primavera". Então, no período litúrgico do advento, estamos falando sobre a chegada de Cristo.

Muitas pessoas usam um Calendário do Advento como contagem regressiva para o Natal. Essa prática começou na igreja, mas já se estendeu culturalmente. Assim como o Natal não é mais, necessariamente, um feriado cristão, o calendário do advento muitas vezes significa apenas a expectativa pela chegada do Papai Noel. Muitas pessoas fazem um calendário com 24 lembrancinhas que remetem a um presente maior no Natal, por exemplo.

Devocional do Advento

Sei de algumas pessoas que têm deixado de celebrar o Natal por enxergar essa celebração completamente esvaziada da celebração de Jesus. Sabemos que não é nem a data correta, que muitos símbolos utilizados remetem a outras festas, mas não é esse o ponto. O Natal é uma das poucas festas que todas as pessoas conseguem relacionar a Jesus, ainda que não seja mais o personagem principal. Quero aproveitar essa oportunidade para falar sobre o nascimento de Jesus, por isso escrevi esse livro.

O Devocional do Advento traz 25 pequenos textos para serem lidos diariamente a partir do dia 1º de dezembro. Os textos foram escritos para o público infantil, para serem lidos em família. Todas as histórias trazem a base bíblica, para que você possa buscar na fonte, se quiser. Cada um deles apresenta um personagem da família de Jesus, ou alguém relacionado à sua história. A intenção é que, com a proximidade do Natal, o tema cristão seja colocado em evidência.

Árvore de Jesus

A árvore de Jesus é uma referência à árvore genealógica. Além disso, cada história acompanha um desenho (ornamento) para colorir ou servir de inspiração para outro projeto (quer fazer de feltro? crochê? figurinhas recortadas de revista? vai fundo...), que podem ser usadas para enfeitar uma árvore de Natal tradicional, de feltro, um galho minimalista, um mural...

Extras

Além das histórias, inseri sugestões de atividades para o dia. Quase todas são relacionadas ao tema, e podem ser usadas como aquecimento (para você lembrar delas quando estiver contando a história) ou como reforço (para lembrar da história durante a atividade).

Também inseri cinco hinos natalinos. São canções tradicionais conhecidas no mundo todo. No material, a letra utilizada é a que cantamos na minha igreja. Você pode utilizar outra se ficar mais à vontade. São apenas cinco porque as crianças precisam de repetição para aprender. Elas até gostam disso. Como a maioria das pessoas (diferente de mim) não canta músicas de Natal o ano inteiro, esse é o momento para aprender algumas.

Você não precisa fazer tudo

História, hino, atividade, artesanato... isso tudo pode parecer muita coisa. Não sei como é a sua rotina. Talvez seja legal tentar fazer o máximo possível. Pode ser que em algum dia (ou em todos) só dê pra contar a história. O objetivo desse material não é te ocupar com um monte de atividades e eventos natalinos, mas trazer para a família a centralidade de Cristo sobre o Natal.


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Caso queira imprimir, abra o arquivo no Adobe Acrobat Reader e selecione o modo de impressão "Livreto" e "frente e verso". 

Você vai usar apenas 7 folhas para impressão, são 4 páginas do ebook em cada folha. Após a impressão, é só grampear. Os ornamentos foram posicionados de modo que você pode recortar da folha sem prejudicar o conteúdo no verso.


E aí, já baixou? Me conta o que você achou do material e não esquece de me marcar nas redes sociais  (@annieescreve) durante a sua celebração do advento. Vou amar ver como vocês vão usar esse livro!

Relato de Amamentação

 Ela veio direto para os meus braços e, sem nem pensar, eu logo tirei a teta pra fora. Os primeiros dias na maternidade foram tranquilos. Me perguntavam se ela mamou, se fez xixi, se eu estava sem dor. Sim, sim, sim.Selfie tirada pelo pai na sala de parto, após o nascimento de Maria Elisa, com toda a equipe. Maria Elisa está nos braços da mãe, com a cabeça próxima ao seio desnudo.

Tudo parecia perfeito. Recebemos a visita da consultora de amamentação. Avaliou a pega, a língua, a mamada, orientou algumas posições. O bebê estava mamando. Foi ótimo. Me senti confiante.

Mas a cada mamada ela ficava mais incomodada. Chorava, se irritava, e eu me escondia para amamentar para evitar os palpites, os olhares aflitos, as sugestões miraculosas. Maria emagrecia.

Fui ao Banco de Leite, que ajuda muita gente. Avaliaram a pega, a língua, a posição, a mamada... Era leite pra todo lado. Saímos banhadas e sem respostas. Por que ela chora tanto?

Eu respondia que ela estava aprendendo a mamar, mas eu sabia que não tinha nada normal no nosso processo. Ela estava emagrecendo, mas eu insistia em esperar a consulta com a pediatra.

Cheguei na clínica com medo da balança, tão angustiada que esqueci a bolsa de fraldas em casa. A pediatra nos atendeu com preocupação, mas principalmente com afeto e confiança. Eu tenho certeza que de qualquer outro consultório eu teria saído com uma receita de leite artificial. Ela me disse que era possível complementar com meu próprio leite e sugeriu outra visita da consultora em aleitamento.

Naquela tarde, a consultora me ligou e à noite estava na minha casa. Constatou que o fluxo muito intenso e o peito cheio, grande, pesado estavam dificultando o trabalho do bebê. Me ensinou técnicas de manejo para resolver o problema, mas não era o suficiente para aquele momento. Entramos em um regime de engorda-bebê.

Compramos uma máquina extratora de leite materno e usamos todas as técnicas que aprendemos com a consultora. No primeiro dia, bico artificial de silicone, para sair do estado crítico. Depois, fizemos translactação - amamentação com sonda complementando com o leite extraído nos intervalos das mamadas. O pai ajudava alimentando com o copo ou com o dedo através da sonda, e assim eu conseguia dormir.

Deu certo.

Criança engordando, amamentação funcionando, deixei de ordenhar com a máquina pra não estimular ainda mais a produção. Todos os dias fazia ordenhas de alívio que diminuíam um carocinho no seio esquerdo até quase sumir, mas não conseguia eliminar tudo.

Até que ele parou de diminuir e passou a aumentar. Falei com a consultora, que me orientou com massagens, compressas e mil cuidados para não virar uma mastite. Mas depois de aumentar, começou a doer, e quando passou a doer o tempo todo, fui no Pronto Atendimento.

Por cinco dias, eu não tinha mais acesso ao GO de plantão. Cheguei já com um pequeno abcesso, que a médica concluiu que era leite, porque do peito saía leite. Voltei pra casa pra fazer o que já estava fazendo e voltar se tivesse febre.

Dois dias depois, tive febre. Fui atendida por outra médica que parecia nunca ter visto uma mastite, mas pelo menos soube identificar a primeira que viu. Receitou os antibióticos, fez consulta de sangue e, em consulta com outro médico que nunca me viu, concluiu que não seria necessário drenar. Marquei consulta com o meu GO para a semana seguinte.

Dois dias depois, tirei o seio para amamentar e tive a impressão de que estava prestes a explodir. Latejava e tentar amamentar era inútil porque o bebê não aceitava.

Fui para o hospital pedir ajuda, chorando e tremendo, e senti a pior dor da minha vida no procedimento de drenagem. Muito pior do que parir sem anestesia. Foi a penúltima dor - ainda teve uma Benzetacil - seguida de vários dias de opióides. Meu médico me receitou mais antibióticos. Seguimos com a amamentação, com curativo e tudo.



75 dias pós parto, acordo de madrugada com muito frio. 39° de febre e nenhuma causa aparente, inclusive os peitos estavam bem. Dengue não era. Fui pro hospital e voltei sem respostas. À noite, durante a ordenha manual, secreção no mesmo seio da primeira mastite. Retornamos com o protocolo de antibióticos, e foi tudo mais tranquilo dessa vez.

Tive dengue, desidratei e transformei soro em leite. Nunca deixei de amamentar, nunca deixei de ter leite. Concluímos seis meses de aleitamento materno exclusivo com um sentimento de vitória.



Forte como uma mãe! Foi por essa força, por não desistir, insistir e até amamentar que prosseguimos com a amamentação até hoje. Valeu a pena toda essa força. Tenho muito orgulho da minha história, de ter passado por todos esses perrengues sem desistir, e hoje faço o possível para encorajar outras mães à amamentação.

Há 19 meses amamento a Maria Elisa e estamos muito satisfeitas com a nossa relação. Ela sabe que "a teta é da mamãe", e atualmente só quer mamar na cama, quase sempre para dormir. Se já pensei em desmame? Oh! Várias vezes... mas o pensamento passa e a vontade de continuar amamentando permanece. Eu amo os nossos momentos de tetê e não acho que essa história vai terminar tão cedo...

Em 2020 a gente ouve podcasts

Quando tudo nessa internet era mato, os produtores de conteúdo escreviam em blogs como esse. A blogosfera ainda existe, mas a gente sabe que isso aqui já foi muito mais frequentado e badalado. Vieram os youtubers e os influencers digitais nas redes sociais - e muitas vezes todas essas personalidades eram diferentes interfaces da mesma pessoa, tanto é que o termo "blogueiro" continua sendo utilizado, até pra quem nunca teve um blogspot. 


Agora todo mundo ouve podcast. Não que essa mídia tenha surgido agora. Assim como o Youtube e outras mídias, tudo sempre esteve lá. A diferença é que agora o público está lá também. Consequentemente, muita gente está migrando para os podcasts e muita coisa legal tem surgido em áudio.

Eu ouço podcasts no carro ou quando me ocupo com tarefas domésticas, aquelas que a gente faz em piloto automático. Durante as férias, fizemos muitos quilômetros de carro e muitos deles foram ao som de podcasts. O legal do podcast em viagem é que rende muito assunto pra conversa no carro.

Nerds de política que somos, estamos maratonando o Presidente da Semana, um programa que apresenta uma pequena biografia de cada um dos presidentes do Brasil, com foco, é claro, no tempo de mandato. O último episódio foi lançado dia 30 de outubro de 2018, sobre o presidente eleito.

Ouço muitos podcasts de teologia, como o Baixo Clero, os programas da Glocal e do BTCast, um dos maiores podcasts do Brasil. Algumas igrejas disponibilizam o sermão de domingo em formato de podcast. Eu gosto da Igreja Red e A Casa da Rocha.

É claro que na minha lista também tem podcast sobre parentalidade. Tricô de Pais e Paizinho Virgula são os que eu mais tenho ouvido. Child of the Redwoods (em inglês) é de uma mãe homeschooler montessoriana, o primeiro que resolvi assistir e que me fez gostar desse tipo de mídia.

Sobre os mais variados assuntos, recentemente passei a ouvir e gostar do Mamilos, que por sinal é muito famoso, o podcast da Ana Soares, Moda pé no chão, que eu já maratonei; o podcast da TAG, um clube de leitura, e dois podcasts de notícias: Café da manhã e Durma com essa, porque é difícil acompanhar o que está acontecendo no mundo com um bebê em casa.

Confesso que a lista é curta porque essa mídia ainda é novidade pra mim, mas eu estou gostando muito mais dessa moda do que dos youtubers. Não tenho paciência pra ficar assistindo vídeo, mas ouvir podcast é diferente. Eu não gosto de ficar presa à tela, nem de pensar que estou perdendo alguma coisa porque não estou assistindo, só ouvindo o vídeo. O podcaster só me dá o que eu pedi: o áudio.

Você gosta de podcasts? O que você tem ouvido?

Os ultrajovens merecem respeito

No  final dos anso 90 havia um programa infantil em que as crianças hackeavam a transmissão da TV para exibição do programa pirata do seu clubinho, o Comitê Revolucionário Ultra Jovem. O bordão do CRUJ era Eu sou ultrajovem e mereço respeito. Mais de vinte anos se passaram e os ultrajovens ainda não conseguiram o respeito da população.


Do alto do nosso cérebro adulto, supostamente plenamente desenvolvido e equilibrado, interpretamos as ações e reações das crianças como desafios à nossa existência e sacrificamos a existência e a dignidade delas o tempo todo, muitas vezes sem motivo algum. 

Não damos privacidade a uma criança em troca de fralda. Não perguntamos o que ela quer comer, ou quanto ela quer comer porque não nos importamos se ela quer comer, mas tão somente em cumprir o nosso papel de alimentar. Qualquer expressão de personalidade da criança é má-educação.

Em 1990, pela primeira vez a lei brasileira afirmou que as crianças são pessoas com direitos como todas as outras pessoas, e outros ainda em razão da sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. Uma pessoa em desenvolvimento não é meia-pessoa ou quase-pessoa. É uma pessoa.

A nossa convivência com as crianças será mais pacífica quando os adultos tiverem maturidade suficiente para entender que crianças são crianças e crianças são pessoas. Os ultrajovens merecem respeito.

CRUJ, CRUJ, CRUJ, tchau.

Livros lidos Janeiro 2020

Cumprindo a meta ousada de ler um livro por semana, começamos o ano muito bem. Foram cinco livros (talvez seis, se eu terminar uma leitura hoje) com temas bem diferentes.


A economia da justiça (Richard Posner) 

Comecei a ler ano passado depois de muito tempo sem nenhuma leitura técnica. Sabe a primeira vez que você conversa com um adulto sobre assuntos de adulto depois da licença maternidade? Demorei bastante pra pegar o ritmo da conversa, mas ao mesmo tempo me senti aliviada em colocar o cérebro pra funcionar.
O livro apresenta a teoria da justiça segundo a análise econômica do Direito, usando o critério da eficiência para justificar as decisões. Apresenta uma análise histórica sobre como esse critério foi utilizado desde as sociedades primitivas, e depois traz alguns casos jurisprudenciais mais recentes.
Talvez eu esteja fazendo uma leitura muito superficial do tema, mas durante a leitura do livro eu me peguei usando, automaticamente, o critério da eficiência algumas vezes, e nem sempre cheguei num resultado que eu \consideraria moralmente justo, porque o critério da eficiência desumaniza um bocado as relações em jogo. Pode ser muito útil em centenas de casos, mas existem muitos outros em que não dá pra discutir em termos de riqueza, os valores são muito mais elevados do que simplesmente dinheiro.
O livro é da coleção Biblioteca Jurídica WMF. Brochura simples, com folha branca e fonte serifada. É daqueles que não ficam abertos onde você deixou. Não tive problemas com a tradução nem com a revisão. Exceto pela qualidade do material gráfico, foi tudo muito bem produzido.

Viagem ao centro da terra (Julio Verne) 

Estou aumentando o meu repertório de leitura na ficção científica. Sempre gosto de ter algum livro de ficção para uma leitura mais leve, mas não foi bem esse o caso. Apesar de trazer uma história muito interessante, o estilo do livro não é tão narrativo. Se você se distrair, vai esquecer que é ficção.
O livro é a narrativa do sobrinho e assistente de um cientista alemão que descobre uma pista sobre uma passagem que leva ao centro da terra e resolve testar essa teoria indo pessoalmente em uma expedição.
A história narrada em primeira pessoa não poupa de detalhes científicos que, apesar de fictícios, são realistas e muito verossímeis, assim como algumas publicações de "artigos científicos". A ideia de um submundo pré-histórico (ou antidiluviano, na linguagem utilizada na época em que o livro foi escrito) parece tão interessante que eu estou pensando em adotar como o meu terrabolismo.
O livro é da coleção de Clássicos da Zahar. Edição ilustrada com capa dura, miolo em papel offwhite e fonte serifada. A ilustração de capa é linda, em laranja e azul bem contrastante. Um trabalho primoroso da Zahar, agora incorporada à Companhia das Letras, que continuará produzindo a coleção. 

Líderes que permanecem (Dave Kraft) 

A última leitura do ano do Clube do John, o nosso clube do livro, que eu não consegui nem começar a tempo do encontro (foi mal, galera), mas li nas férias.
Um livro curto e objetivo sobre a experiência de um pastor veterano que trabalha exclusivamente com mentoria de líderes cristãos.
O assunto é interessante, mas não tem muita novidade a ser dita sobre o tema. É uma boa leitura para relembrar algumas questões que vão se perdendo no dia a dia e despertar algumas mudanças, aquele reajuste que periodicamente precisamos fazer para voltar ao trilho da melhor conduta. O que me chamou a atenção na leitura é que o autor apresenta um monte de dados e estatísticas sem fonte nenhuma (ou, segundo o twitter, fonte: vozes na minha cabeça), aquele discurso bem tiozão que fala uma estatística aleatória que ouviu na rua para confirmar o seu discurso. Desnecessário.
Brochura simples da editora Vida Nova, com miolo em folha branca e fonte serifada em tamanho grande. Capítulos curtos e linguagem simples, narrativa em primeira pessoa.

As cinco linguagens do amor das crianças (Gary Chapman e Ross Campbell). 

Eu gosto muito do livro As cinco linguagens do amor, do Gary Chapman, que acabou se tornando uma "franquia literária", convidando "especialistas" para aplicar e traduzir as cinco linguagens do amor em contextos diversos do relacionamento romântico. Eu já tinha lido a versão para adolescentes e ultimamente tenho lido (e comprado) muitos livros no tema da infância. Tanto que dei um tempo com os três livros acima, mas já estava pronta para retomar ao assunto.
O livro fala sobre os relacionamentos entre pais e filhos e como demonstrar amor de modo que o seu filho se sinta amado. Chama a atenção para o fato de que a comunicação do amor precisa atender ao modo como o outro entende o amor, e não apenas ao modo como você acha que as pessoas devem ser amadas. As cinco linguagens do amor são apresentadas em capítulos separados, com exemplos práticos, de forma bem didática. Os capítulos finais aplicam o tema das linguagens do amor a situações específicas: disciplina, aprendizado, ira, maternidade/paternidade solo.
O que eu mais gostei desse livro é que traz muitos exemplos, muitas sugestões e ideias de como demonstrar amor. Você não precisa ficar refletindo "e agora, como vou aplicar isso na minha vida?" porque já tem um monte de ideias, não só as que o livro trouxe, mas outras derivadas dos exemplos do livro. O capítulo sobre a disciplina foi péssimo, e não digo isso somente por causa do meu ponto de vista sobre o assunto. Parece que os autores não concordam sobre o tema da disciplina, porque ficou bem contraditório. Algumas condutas são criticadas, e depois estimuladas, ou passam panos quentes sobre questões "disciplinares" que definitivamente não comunicam amor, mas que são utilizadas e muitas vezes incentivadas nas famílias conservadoras. Nesse intuito de não desagradar ninguém, o capítulo inteiro ficou uma porcaria sem sentido.
A edição em brochura simples da Mundo Cristão tem miolo em papel polen soft e fonte serifada. Com exceção dos trechos em que claramente não há consenso entre os autores do livro, a edição está bem feita e bem escrita. Pouco se nota sobre o que foi escrito por um ou por outro.

O rei das fraudes (John Grisham). 

John Grisham é praticamente a "literatura de banca" em versão jurídica. Não é bom, mas eu curto como entretenimento. No fim das férias, eu só queria isso.
O livro conta a história de um advogado meio loser que recebe de presente um caso de ação coletiva, dando uma guinada na carreira dele. O personagem passa a lidar com vários casos parecidos, ganha muito dinheiro, fica muito famoso, mas depois acaba sendo processado pelos próprios clientes e vai à falência.
Passei o livro todo torcendo pelo infeliz do Clay Carter, que parece estar tomando todas as melhores decisões na primeira metade, mas depois só faz besteira atrás de besteira. Você está vendo a decadência da pessoa ali na frente e já sabe como a história termina, mas mesmo assim torce pelo infeliz. O pano de fundo das ações coletivas é uma discussão jurídica séria e importante, mas acaba se perdendo em uma tradução ruim, a começar pelo título. "Fraude", na nossa tradição jurídica, está ligada ao estelionato, que não é nem de longe o que o personagem faz. Passei um tempo considerável confusa sobre o título até a ação coletiva entrar na jogada. Quem não está familiarizado com o termo tort talvez nunca entenda a referência.
As brochuras da Rocco são sempre ruins, especialmente essa de quase 400 páginas. A capa está soltando, bem típico dos livros dessa editora. O miolo é em folha branca simples e fonte serifada. Eu gosto da arte da capa e queria que eles continuassem a editar os livros do autor nesse padrão, mas parece que já voltaram ao padrão antigo (que é nenhum). A tradução me incomodou demais. É ruim mesmo. Quase todos os termos jurídicos estão mal traduzidos, e mesmo algumas expressões foram traduzidas literalmente, de modo que não fazem sentido nenhum em português. Ruim que chega a doer. Me lembrou as traduções que a gente fazia na adolescência, talvez até pior. Um péssimo trabalho. Parabéns aos envolvidos.

A pergunta que deveria calar

Todos conhecem as perguntas que aparecem toda vez que a sociedade acha que a sua vida não está seguindo o script. E as namoradinhas? Já terminou a faculdade? Quando é que vão casar? Já passou no concurso? E quando vão encomendar o bebê? Não vão querer mais um? Ainda não compraram uma casa? Quando vão trocar de carro?

"O Brasil quer saber"... muito embora não seja da conta de ninguém. Às vezes é uma pergunta inofensiva, às vezes só uma forma de puxar assunto, mas não existem formas menos invasivas de se jogar conversa fora? Quer dizer, podemos falar de tanta coisa - política, futebol, novela, música, comida, produtos de limpeza, cores de esmalte, até do clima... porque falar logo da intimidade do outro?


Dentre todas as perguntas, existe uma que é a mais cruel. Uma pergunta que nunca deveria ser feita, por ninguém. É a pior de todas, porque realmente não é da conta de ninguém... mais do que isso, é íntima demais pra que as pessoas achem que podem fazer disso um assunto para a conversa. Ninguém pergunta se você já fez sexo hoje, então porque perguntam por que você não tem filhos?

Todos os casais que não têm filhos têm uma razão para isso. Ainda que a razão seja tão simples quanto "ainda não pensamos nisso", "não queremos" ou "mas o casamento foi semana passada...". Existem outros motivos, alguns mais complexos, outros mais sensíveis... qualquer que seja o motivo, não há um cenário sequer em que a pergunta melhora as coisas de qualquer modo.

O casal não quer ter filhos. 
Talvez seja novidade para você, mas não há nenhuma lei que obrigue as pessoas a terem filhos. De fato, se existe algo totalmente ineficaz para convencer um casal a ter filhos, é a insistência das pessoas que não vão ajudar a fazer, criar, pagar as contas e acudir os choros da madrugada. Não é apenas um desperdício de energia, mas uma forma rápida de fazer com que o casal se afaste de você. Se você não é íntimo o bastante para conhecer e respeitar o desejo do casal, não tem intimidade suficiente para fazer essa pergunta.

O casal não quer ter filhos agora.
E não há nada que ninguém possa fazer a respeito. Ninguém sente vontade de engravidar porque os outros acham que agora é um bom momento. Não é assim que funciona. Ninguém manda no tempo dos outros, mesmo porque, ninguém conhece a vida de um casal tão bem assim pra achar que sabe quando é o melhor momento. Por outro lado, se a sua intenção for afastar um casal de amigos meio chato, essa pode ser uma boa tática. Com certeza eles passarão a te evitar se você ficar perguntando quando vêm os bebês.

O casal está tentando ter filhos.
Ninguém tem a obrigação de contar que está tentando engravidar. Mesmo porque ninguém mais precisa dessa informação. Essa tarefa é para ser cumprida na intimidade, e ninguém deve interferir. Parece até ridículo falar isso, mas muita gente - até mesmo, e principalmente, a família - começa a pedir contas quando sabe que o casal está tentando. A pressão já é grande quando ninguém sabe, e para quem pergunta, o risco de se colocar em uma situação realmente embaraçosa é muito grande.

O casal não está conseguindo ter filhos.
E você está lá, tocando na ferida, remexendo naquele pedacinho tão sensível da vida das pessoas que elas ainda nem conseguiram confidenciar. Mesmo que não seja nada demais, ainda que seja só por falta de sorte, ninguém quer falar sobre essa frustração quando perguntam "E aí, quando vem o bebê?".

O casal não pode ter filhos.
Pensa numa situação chata. É a saia justa em que ninguém quer se meter. "Vão ter filhos logo?" "Não, a gente não pode". Pra que passar vergonha à toa, perguntando sobre coisas que não te dizem respeito? É melhor ficar quieto.

Escravizados? o que é verdade sobre a reforma trabalhista

As reformas em tramitação estão causando alvoroço na população. Como sempre, o desconhecido gera terror. A ignorância e o medo criam o clima ideal para que se estabeleçam todo tipo de boatos, meias-verdades e distorções para fazer com que as coisas pareçam ser piores do que realmente são. 

Dentre os grandes críticos da reforma trabalhista, observei três tipos de pessoas: as que não sabem do que estão falando porque não conhecem a lei - nem a nova, nem a velha; as que não sabem do que estão falando porque nunca trabalharam ou empregaram alguém sob o regime celetista; as que estão de má-fé querendo ver o circo pegar fogo.

Trago uma notícia boa, uma melhor e uma ruim. A boa é que a situação não é tão ruim como você imagina. A melhor é que esse post foi escrito para esclarecer o que é verdade e o que é mentira sobre tudo o que estão divulgando acerca da reforma trabalhista. A ruim é que, estatisticamente, é muito provável que você tenha sido manipulado... mas eu espero que você esteja pronto para ser livre, porque eu trago verdades.



Vamos começar colocando aqui os links informativos que você pode usar para confrontar todo tipo de boato. Nada melhor do que conhecer as fontes, não é mesmo? Clique aqui para acessar o texto integral do projeto de lei de reforma trabalhista. Clique aqui para acessar o texto integral da CLT em vigor, (para comparar com as alterações do projeto de lei). É mais importante conhecer a lei atual do que o projeto. Muita coisa tem sido divulgada como "mudança", mas já está na lei. Clica já, antes mesmo de continuar lendo esse post, porque você vai poder comparar e constatar que eu não estou enganando você.

O trabalhador vai negociar com o patrão (arts. 59, 59-A, 75-C, 396, § 2º, 484-A)

Expectativa: o trabalhador vai "negociar" com a faca no pescoço. Ou ele aceita as condições impostas, ou perde o emprego.

Realidade: isso não é nenhuma novidade. O texto da lei (art. 59) será alterado de "mediante acordo escrito entre empregador e empregado, ou mediante contrato coletivo de trabalho" para "por acordo individual, convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho". Na prática, nada mudou. Outros trechos que mencionam acordo individual são os que tratam da pausa para amamentação (já pensou só poder amamentar nos horários estipulados em convenção coletiva? não faz sentido, né?), a possibilidade de alteração entre o regime presencial e o home office e a demissão em mútuo acordo.

Negociado prevalecerá sobre o legislado (art. 611-A)

Expectativa: a legislação se tornará decorativa. Nenhum direito está garantido, tudo pode ser negociado.

Realidade: mais uma vez, o desconhecimento da lei pegou a muitos de surpresa. A CLT pode ser flexibilizada em acordos coletivos? Sim. Há muito tempo, desde 1967 as jornadas de trabalho podem ser flexibilizadas mediante acordo coletivo. Quem é celetista sabe: são aquelas negociações periódicas do sindicato. No Direito do Trabalho, o acordo coletivo é válido, inclusive, para anular disposições contrárias no acordo individual. Regimes de trabalho 12x36 e 24x48, por exemplo, não são nenhuma novidade. 

A reforma também pretende relacionar, no art. 611-A, quais são as matérias em que o acordo coletivo pode dispor em prevalência à lei. Eu não vou citar aqui quais são esses pontos, mas vocês podem observar direto na fonte. Vale apenas um destaque: nem acordo, nem lei, nem decisão de juiz nenhum pode invalidar a Constituição. Isso significa que todos os direitos constitucionais dos trabalhadores estão preservados. (Quer saber quais são? Confere lá: art. 7º.)

Contribuição sindical (art. 545)

Expectativa: a contribuição sindical deixará de ser obrigatória.

Realidade: a contribuição sindical deixará de ser obrigatória. Sim, é verdade. Hoje em dia o empregador é obrigado a descontar da folha a contribuição sindical anual, mesmo que o trabalhador não tenha se filiado ao sindicato. Pela reforma, todas as contribuições ao sindicato dependem da autorização do empregado para que sejam descontadas.

Trabalho intermitente (art. 443, § 3º, 452-A)

Expectativa: o trabalhador ficará à disposição do empregado sem receber por isso. É a precarização do trabalho. É a oficialização do bico.

Realidade: o trabalhador que recebia como autônomo e não podia caracterizar o vínculo de trabalho agora pode ser considerado empregado e ter a carteira assinada em regime de trabalho intermitente. O trabalhador intermitente não foi inventado pela reforma trabalhista, foi acolhido pelo projeto de lei. Você conhece alguém que trabalha por hora, ou pela diária, dependendo do dia em que tem serviço? Faxineiro, garçom, segurança, motorista, figurante... existe um mercado gigante de pessoas que vivem com o celular na mão, esperando quem vai chamar pro próximo trabalho. Essas pessoas não têm nenhum direito trabalhista. 

Mas e aí... o empregado fica à disposição do empregador sem receber, é isso mesmo? Sim, só recebe pelos dias trabalhados. Mas ele está livre para trabalhar para outra empresa nos dias em que estiver disponível. A recusa da oferta do empregador não implica em desfazimento do vínculo de emprego. Passará a ter direito a férias, décimo-terceiro salário, repouso semanal remunerado, adicionais legais (insalubridade, periculosidade...), enfim, todos aqueles direitos constitucionais que disseram que estavam ameaçados.

Vai ficar mais caro? Talvez. Eu imagino que a reação do mercado vai reduzir o preço da hora para acomodar esses adicionais. Afinal de contas, a demanda não vai deixar de existir e o simples fato de não assinar a carteira não desconstitui o vínculo: os fatos prevalecem sobre o papel, e a multa pelo empregado não registrado não é barata. No fim, acredito que a remuneração continuará a mesma, só que com contrato assinado. Do meu ponto de vista, não é o ideal. Mas também não é precarização.

Você vale o quanto ganha (arts. 223-A a 223-F)

Expectativa: os danos morais ocorridos no ambiente de trabalho serão indenizados conforme tabela. Para o mesmo dano, a indenização poderá ser maior para quem ganha mais.

Realidade: a CLT atualmente não traz nenhuma previsão sobre indenização a danos morais, isso é novidade da reforma. Atualmente, usamos o Direito Civil para disciplinar esse assunto. Para arbitrar o valor da indenização, são utilizados diversos critérios.

A regra civil diz que "a indenização mede-se pela extensão do dano", mas a jurisprudência utiliza, há muitos anos, um critério absurdo chamado "enriquecimento sem causa". Segundo esse critério, uma pessoa não pode se tornar mais rica quando recebe uma indenização, ou seja, qualquer indenização recebida deve ser proporcional à sua renda. Na prática, o Judiciário considera que gente pobre sofre menos, ou que o seu sofrimento tem menor valor, ou que o pobre sente menos o sofrimento, porque né... tá acostumado.

A utilização da renda da vítima para arbitramento de valor indenizatório É UM ABSURDO e eu já esperneio contra ela há muito tempo, bradando contra esse critério ridículo em todas as causas indenizatórias em que já atuei.

A reforma transforma essa realidade das ações indenizatórias em lei, transformando o salário em critério para estabelecer o valor da indenização do empregado. Eu só acho engraçado que em todo esse tempo eu não tinha nada além da minha indignação e do bom senso para embasar o meu espernear. Parece que agora o assunto chamou a atenção de outras pessoas. (Mas não muitas. Não encontrei esse trecho da reforma nos panfletados motivos para os protestos da sexta-feira.)

Não existe enriquecimento sem causa no arbitramento de indenizações justas. A causa do enriquecimento é, justamente, o dano moral sofrido, que gerou o direito à indenização. Oras.

Resumindo: é um absurdo, sim, mas não é nenhuma novidade. A vinculação à renda da vítima é, infelizmente, regra geral para indenizações.

Jornada de trabalho de até 48 horas semanais (???)

Expectativa: a jornada de trabalho semanal passará de quarenta e quatro para quarenta e oito horas.

Realidade: ninguém sabe de onde tiraram isso. O art. 611-A, I da reforma diz que os acordos coletivos têm prevalência à lei quando dispuserem sobre a jornada de trabalho, observados os limites constitucionais. O limite constitucional é de quarenta e quatro horas semanais (art. 7º, XIII). Isso não mudou, nem vai mudar.

Dia de trabalho de até 12 horas (arts. 58, 58-A, 59, 59-A)

Expectativa: os empregados passarão a trabalhar doze horas por dia, mais horas extras. Isso não é contrato de trabalho, é escravidão.

Realidade: o texto do art. 58 caput não foi alterado na reforma. Ele continua dizendo que "A duração normal do trabalho, para os empregados em qualquer atividade privada, não excederá de 8 (oito) horas diárias, desde que não seja fixado expressamente outro limite". Sim, esse é o texto que sempre existiu na CLT. Como já dissemos, a jornada de trabalho é um dos temas que podem ser flexibilizados em acordo coletivo, mas isso não é novidade da reforma. Isso é o que sempre existiu. Desde 1943 esse texto nunca foi alterado - e olha que já tivemos três Constituições diferentes nesse intervalo.

O art. 59-A fala do conhecido regime 12x36, que foi estabelecido em diversas convenções coletivas em setores que trabalham com plantão, como segurança e saúde. Não é e não será obrigatório trabalhar doze horas por dia, nem será a regra caso a reforma seja aprovada.

Raciocine comigo: o trabalhador tem jornada de oito horas diárias em loja de material de construção que abre de segunda a sábado - no sábado até meio-dia. A cada dois dias, são dezesseis horas de trabalho, que caracterizam a jornada integral. Se ele trabalhasse doze horas por dia, obrigatoriamente estaria de folga no dia seguinte (o próprio artigo afirma que são trinta e seis horas initerruptas e obrigatórias de descanso). A cada dois dias, são doze horas de trabalho, que caracterizam jornada integral. Todas as pessoas que eu conheço que trabalham em regime 12x36 gostam desse arranjo, mas não é em todo negócio que essa jornada de trabalho faz sentido.

Fim da hora extra (art. 59-A)

Expectativa: como a jornada diária de trabalho poderá ser extendida, não haverá mais pagamento de horas extras.

Realidade: já vimos que a premissa da jornada de trabalho enorme está equivocada, mas também vale ressaltar que a reforma altera as horas extraordinárias, mas para aumentar o valor adicional de vinte para cinquenta por cento sobre o valor da hora trabalhada. Sim, com a reforma cada hora extra de trabalho valerá 1,5 hora normal.

Trabalho temporário de até 240 dias (???)

Expectativa: o empregador poderá fazer contratos de experiência de até 8 meses, ficando livre para demitir e contratar outra pessoa sem ter que pagar as verbas rescisórias.

Realidade: os limites dos contratos de trabalho de prazo determinado não foram alterados pela reforma. O "trabalho temporário" pode ter até dois anos de duração, mas só é válido se a característica do serviço justificar esse prazo. O contrato de experiência tem limite de 90 dias e isso não mudou.

Férias divididas em três fases (art. 134)

Expectativa: as férias poderão ser divididas em três períodos.

Realidade: atualmente, as férias devem ser tiradas em um período só, na proporção de um mês de férias para cada doze meses de trabalho. A lei autoriza que as férias sejam divididas em dois períodos, que não podem ter menos que dez dias corridos. Com a alteração da reforma, será possível dividir as férias em até três períodos, mas não em três períodos de dez dias. A reforma impõe que um desses períodos tenha pela menos catorze dias corridos, e nenhum período de férias pode ser inferior a cinco dias corridos. Também não é possível iniciar férias em dia não útil ou dois dias antes de feriado. 

Na prática, não alterou muito a vida das pessoas. Seria mais impactante se as férias pudessem ser usufruídas em três períodos de dez dias. O legislador pressupõe que o trabalhador precisa ter pelo menos um período maior de descanso - daí esses catorze dias obrigatórios. No entanto, essa presunção generalista não considera que, para muita gente, é mais revigorante ter pequenos períodos de folga bem espaçados do que um grande período de folga depois de muito tempo.

Intervalo de almoço de trinta minutos (art. 71)

Expectativa: não haverá mais intervalo para almoço de uma hora, o empregado terá apenas 30 minutos para alimentação.

Realidade: o texto do art. 71 não foi alterado. O intervalo para o almoço continua sendo obrigatório para as jornadas de trabalho superiores a seis horas contínuas. Esse intervalo tem duração de uma hora a duas horas, salvo convenção coletiva. Sim, isso é o que diz a lei hoje. Para reduzir o limite de uma hora, é necessário que a empresa atenda a uma série de regulamentações concernentes ao refeitório, e nesse regime é proibido fazer horas extras.

O art. 611-A, que fala sobre as questões que podem ser discutidas em acordo coletivo, elenca os intervalos para repouso e alimentação entre os temas. Não é novidade, a lei já diz "salvo convenção coletiva", até aqui tudo normal. O que parece ter intrigado o pessoal é que o artigo fala que deve ser respeitado o limite mínimo de trinta minutos. Esse limite mínimo de trinta minutos não anula o limite legal de uma hora, nem as circunstâncias especiais a que deve se submeter a empresa se quiser diminuir o limite legal em acordo coletivo. 

Acontece que, mesmo em acordo coletivo, atendidos os requisitos para diminuir o intervalo de almoço, este intervalo convencional - menor do que o intervalo menor - está sujeito ao limite de trinta minutos. Nunca pode ser menos do que trinta minutos. Nem em acordo coletivo. Nunca. O que um pouco de interpretação de texto não faz, não é mesmo?

Gestantes em trabalho insalubre (art. 394-A)

Expectativa: as gestantes terão que trabalhar em lugares insalubres, como lixões, esgotos e enfermarias de tuberculosos, bastando para isso um atestado concedido pelo médico da empresa.

Realidade: a insalubridade é algo bem mais sensível do que a maioria das pessoas imagina. Fatores como exposição ao frio e ao calor, níveis de ruído e umidade podem gerar a chamada insalubridade, além da exposição a agentes biológicos, químicos e radiações.

A NR-15 do Ministério do Trabalho regulamenta a insalubridade, já que a CLT fala apenas em "agentes nocivos à saúde", sem explicar quais são esses agentes, nem quais são os níveis de exposição tolerados. Por outro lado, a CLT já deixa explícito que insalubridade não é tudo igual: existe grau mínimo, médio e máximo, e para cada um deles corresponde um adicional diferente.

O trabalho em cozinha profissional é considerado insalubre pela Justiça do Trabalho, por causa da exposição ao calor. Quem trabalha em açougues e frigoríficos também está em ambiente insalubre. O mesmo vale para quem trabalha em aeroportos ou hospitais.

A redação atual da lei dá duas opções à gestante que trabalha em local insalubre: encerrar o contrato de trabalho sem precisar os compromissos demissionais ou ser transferida para trabalhar em ambiente salubre na mesma empresa. Além dessas duas possibilidades, o que muita gente faz é entrar em atestado médico ou começar a licença-maternidade mais cedo.

O texto da reforma trabalhista determina o afastamento obrigatório da gestante que trabalhe em atividades insalubres de grau máximo. Se o grau de insalubridade for médio ou mínimo, ela pode ser afastada mediante atestado emitido pelo médico de confiança da mulher. Quando estiver amamentando, ela pode usar do mesmo mecanismo para se afastar de atividades insalubres em qualquer grau, conforme recomendação médica.

O afastamento das atividades insalubres deve procurar realocar a gestante em para exercer atividade em local salubre. Se não for possível, a gestação será considerada de risco para os fins securitários, e a gestante passará a receber o salário-maternidade durante todo o período do afastamento.

O projeto de lei não deixou claro se esse período contará para os 120 dias de licença-maternidade. As cabeças mais venenosas poderiam pensar que o artigo está afastando o direito à licença-maternidade, obrigando a mulher a dele usufruir enquanto gestante. Racionalmente falando, no entanto, é pouco provável que essa interpretação prospere, por três motivos: 
  1. 1. a Justiça do Trabalho tem, tradicionalmente, interpretado a legislação trabalhista do modo que mais favorece ao trabalhador; 
  2. 2. o Judiciário como um todo está cada vez mais sensível à mulher e suas causas, até mesmo pela crescente presença de mulheres togadas; 
  3. 3. a gestação humana dura, em média, 280 dias - não faz sentido afastar a mulher do local insalubre para depois retornar porque acabou o período de licença. A lógica manda considerar como extensão à licença-maternidade, e não como antecipação.

Demissões (art. 477)

Expectativa: o empregador vai poder demitir todo mundo da empresa para contratar outras pessoas pagando mais barato, sem nenhuma multa

Realidade: a reforma traz várias alterações sobre as demissões, mas nenhuma que isenta o empregador de pagar as devidas verbas rescisórias.

Segundo a lei atual, não se pode demitir um empregado sem a assistência do sindicato. O empregado não pode pedir demissão sem a assistência do sindicato. Parece que não estamos falando de duas pessoas adultas, né?

A nova redação do art. 477 torna a vida de todo mundo mais fácil - não só a do empregador. Na verdade, o empregador é a única pessoa que vai ter todo o trabalho de anotar a demissão, comunicar os órgãos competentes e prestar atenção nos prazos e valores devidos para pagar as verbas rescisórias.

A reforma também legisla sobre o PDV - plano de demissão voluntária - que não é nenhum monstro. Quem conhece o regime celetista, quem trabalha nesse regime, sabe muito bem do que se trata. Não é um instrumento de coerção, mas um acordo, em geral muito bem remunerado, que geralmente pretende diminuir a quantidade de empregados - redução das despesas fixas da empresa.

O mais interessante é a inclusão da demissão em comum acordo. Todo mundo já viu aquela situação em que a pessoa quer sair do emprego, mas não quer pedir demissão, aí fica esperando ser demitida pra poder receber as verbas rescisórias. Com a reforma, não será necessária fazer essa dança toda, nem fazer corpo mole arriscando levar uma justa causa. O empregador e o empregado podem chegar a um acordo sobre a demissão, caso em que serão devidas todas as verbas rescisórias, mas as indenizatórias de aviso prévio e FGTS serão reduzidas pela metade. É possível utilizar até 80% do FGTS após essa demissão, que não dá direito ao seguro-desemprego.

Há uma lógica em não conceder o seguro-desemprego para quem pede demissão: o seguro existe para quem foi pego desprevenido. Presume-se que a pessoa que pede demissão já está preparada para encarar as consequências - seja porque tem um novo emprego em vista, ou já fez o seu pé-de-meia para passar por esse momento, ou mesmo porque não pretende retornar tão logo ao mercado de trabalho. Não faz sentido utilizar o dinheiro da previdência pública para sustentar quem apenas não quer trabalhar.

Vestimentas em local de trabalho (art. 456-A)

Expectativa: o patrão tem direito a dizer como você deve se vestir. É claro que isso vai abrir as portas para o assédio moral e sexual.

Realidade: o artigo legisla sobre uma situação que todos conhecem: cabe ao patrão dizer qual é o padrão de vestimenta no local de trabalho. Já trabalhei em escritório que proibía calças jeans, até mesmo para os estagiários. Certa vez, uma estagiária foi trabalhar de camiseta sem mangas e todos recebemos um email orientativo, explicando que "este não é um escritório de arquitetura" e todos nós deveríamos nos vestir de acordo. Os homens usavam terno e gravata até mesmo no verão. Paciência. Eram as regras da casa. Hoje, no meu escritório, eu me visto como eu quero. É um sinal de respeito aos colegas, ao chefe, aos clientes, enfim, ao próximo, usar as vestimentas adequadas.

A extrapolação que alguns fizeram, dizendo que o uniforme exigido pode até mesmo ser ridículo, não é apenas má-fé, é história mal contada para atrair gente imatura à causa. É óbvio que não pode expor o empregado ao ridículo, nem mesmo com o uniforme. É óbvio que não pode obrigar a secretária a usar minissaia sem calcinha, nem mesmo se for uniforme. E se o óbvio não bastasse, na reforma também será lei: artigos 223-B e 223-C.

Fim do transporte de empregados

Expectativa: as empresas não precisam pagar pelas horas de deslocamento. Quem mora mais longe é o mais prejudicado.

Realidade: desde já, as horas de deslocamento não contam como jornada de trabalho. Alguém já chegou na empresa batendo o ponto retrógrado para a hora em que saiu de casa? O que a CLT permite, hoje, é que seja contada a jornada de trabalho nas horas de deslocamento para empresas que ficam em locais de difícil acesso, e isso apenas para aqueles que usam o transporte fornecido pela empresa. Quem vai de carro, bate o ponto quando chegar lá.

A tendência da reforma é contar como jornada de trabalho apenas o período efetivamente trabalhado, e isso pode fazer com que menos pessoas se interessem a trabalhar nesses locais de difícil acesso. Ao contrário do que muita gente pensa, o trabalhador celetista não é idiota, ele não está completamente alienado do que acontece sobre sua vida, nem é inconsciente sobre suas escolhas. As empresas de mais difícil acesso terão mais dificuldade para contratar e precisarão aumentar os incentivos para fazer com que o trabalhador se disponha a fechar o contrato.

E se a empresa não estiver em local de difícil acesso? Eu vou precisar ser um pouco grosseira aqui, pois a realidade pode chocar as almas mais sensíveis: a empresa não tem culpa se você mora longe. Antigamente, só havia duas opções: mudar sua residência para um lugar mais perto da empresa ou procurar emprego perto da sua casa. A reforma veio oficializar algo que já é realidade para muitos, criando o que pode ser uma terceira opção: o home office, que a lei chama de teletrabalho.
Esse texto não foi escrito para defender o texto atual do projeto da reforma trabalhista, que contém erros e acertos. As alterações na matéria processual trabalhista são, na média, bem ruins. No entanto, eu espero que tenha ficado claro que, de modo algum, a aprovação do texto atual significará o fim dos direitos trabalhistas, a volta da escravidão ou o apocalipse. Diante de qualquer propaganda que anuncie uma catástrofe iminente, contra a reforma trabalhista ou qualquer outra coisa, precisamos resistir ao impulso de compartilhar imediatamente e conferir as fontes.

Se contaram pra você que o trabalhador é burro, incapaz de compreender a legislação, incapaz de defender os seus direitos em uma negociação, então mentiram pra você. Quando acreditamos nesse discurso, passamos a nos comportar como nos disseram. Precisamos parar de viver essa mentira e assumir o controle das nossas vidas. Você é capaz de entender o que está acontecendo. Informe-se. Vá às fontes. Questione tudo. Argumente. Negocie. Bata o pé. E, no fim de tudo, se necessário for, desce a porrada, mermão.