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Ambiente Preparado

O "ambiente preparado" é uma expressão utilizada na educação infantil, especialmente na pedagogia científica de Maria Montessori. Significa um ambiente limpo, organizado, seguro e acessível. Na educação infantil, o objetivo é que este ambiente ajuda a criança a se desenvolver com autonomia e tranquilidade. Não é difícil perceber como o ambiente interfere no comportamento e na serenidade das crianças. Nos esforçamos para apresentar ambientes adequados aos pequenos, mas nos esquecemos o quanto o ambiente afeta às pessoas adultas.

Ficamos mergulhados na correria do dia a dia e minimizamos o quanto o ambiente afeta a produtividade, a ansiedade, e até mesmo a capacidade de relaxar. O ambiente acaba sendo negligenciado, junto com a alimentação, o sono, o ócio e todas as outras coisas que tornam as horas de produção realmente produtivas.

Cuidar do ambiente é cuidar da gente. "Ambiente preparado" é o que dá paz no coração para fazer todas as outras coisas, com a calma e a concentração necessárias. Não se trata apenas de limpar e organizar a bagunça.

As coisas que estão no ambiente precisam fazer sentido, e não apenas ocupar espaço. Aquilo que existe precisa ser funcional, isto é, atender ao objetivo. Se está sobrando, não é funcional. Se está quebrado, não é funcional. Se está improvisado, não é funcional.

Os objetos precisam estar acessíveis a quem vai usar. Quantas vezes você desistiu de fazer algo que queria fazer, só pelo trabalho que daria para pegar o material necessário, que você já tem, mas não está acessível? Acessibilidade parece um tema para pessoas com deficiência, mas às vezes as pessoas sem nenhuma deficiência se debilitam tornando as coisas mais difíceis para si.

O ambiente precisa conversar com o comportamento das pessoas. É mais fácil mudar o ambiente do que o comportamento. Se as roupas sujas acabam sempre se acumulando fora do cesto, talvez o cesto esteja no lugar errado.

Nem sempre temos total controle sobre o ambiente. Quem trabalha em escritório compartilhado ou mora com os pais, por exemplo, tem sérias limitações sobre mudanças no ambiente, mas sempre existe um espaço de individualidade - a sua mesa de trabalho, o seu quarto. Todo mundo tem o seu espaço para preparar, mesmo que seja só um cubículo. Que seja o melhor cubículo que ele pode ser.

Como escolher um candidato

Começa a corrida eleitoral. Os candidatos se apresentam. Debates. Entrevistas. As redes sociais comentam em profusão sobre esses candidatos, mas também abundam com a participação dos próprios candidatos - a internet cada vez mais relevante na corrida eleitoral.

As pessoas não comentam apenas sobre os candidatos, mas sobre os eleitores. O período eleitoral é maravilhoso para liberar aquela vontade que todo mundo tem de criticar as escolhas alheias. Fica tudo disfarçado na desculpa de que a crítica está sobre o candidato e não sobre o eleitor.

Apelos são abundantes - votem neste, não votem naquele - com uma diversidade de argumentos impressionante. O que mais me chama atenção é o tal do "gente como a gente", que é o argumento da identificação. Mulher vota em mulher. Crente vota em crente. Professor vota em professor.


O problema desse argumento é que ele leva a tal da representatividade a um nível absurdo, sem no entanto corresponder à sua própria pregação. Isso porque se alguém precisa ter as mesmas características - biológicas, físicas, sociais, econômicas, religiosas - que você para o representar, a única pessoa que pode ocupar esse papel é você mesmo.

Falamos tanto em empatia e parará, como é que, ao mesmo tempo, podemos deixar escapar a ideia de que alguém que não é como você poderia compreender e lutar pelas suas necessidades, como seu representante? Como a gente pode limitar a tal da identificação a uma característica física e insistir no discurso da empatia e do que vem de dentro? Como eu posso descartar um candidato porque ele é milionário e eu não? Ou porque é branco e eu sou preta? Ou porque é homem e eu sou mulher?

Tudo isso para votar em alguém que parece ser parecido com você, mas que vai acabar fazendo tudo como sempre, como todos os outros, como você jamais esperou. Afinal, a gente não chega a conhecer esses candidatos, não é? Se basta ser mulher para ganhar o meu voto, de que me interessa o plano de governo? Se eu vou votar em alguém que tenha a mesma profissão que eu, vou confiar na probabilidade de que ela pense como eu...

Representação política não pode ser uma representação de fachada. Precisa ser uma representação ideológica. Quem me representa é alguém que pense parecido comigo, especialmente no que diz respeito à política. Eu não preciso votar em alguém que goste das mesmas músicas que eu, mas precisa ser alguém que tenha a mesma visão de Estado que eu, alguém que atenda às minhas expectativas para o que eu espero de um deputado/senador/governador/presidente.

É assim que funciona a democracia representativa - com ideias, e não com personagens.

"Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz"

Às vezes nos perdemos em labirintos de diferenças, rotulando o que é santo/profano, verdadeiro/herético sem prestar tanta atenção ao conteúdo. Deixamos passar oportunidades de reflexão e desperdiçamos a graça comum ao desprezar o conteúdo pela fonte que, às vezes, julgamos inadequada.

Já vi trechos da oração, atribuída a São Francisco de Assis, em músicas que são cantadas em nossas igrejas - onde há frieza, que haja amor; onde há ódio, o perdão... - mas ultimamente tem me chamado a atenção a primeira frase - Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz.

Não entrando em discussões sobre a terminologia, especialmente sobre o uso do pronome no plural... estou reproduzindo a frase como é mais conhecida.

A proposta é simples e humilde - não suplica por uma situação mais confortável, uma solução milagrosa, mas se coloca à disposição para ser o instrumento. Significa mais do que desejar a paz, se dispor a trazer a paz para o ambiente de conflito.

Você já pensou o quão diferente pode ser o seu local de trabalho, a sua casa, os ambientes em que você convive com outras pessoas, se você for o instrumento da paz de Deus naquele lugar? É uma postura diferente de não promover o conflito, ou mesmo de se isolar de situações e pessoas que geram conflito. O conflito aparece, ele nos cerca. Será que teremos a coragem de ser o instrumento da paz, e não de qualquer paz, mas a paz de Deus?

Quando cantamos "onde há frieza, que haja amor; onde há ódio, o perdão", estamos pedindo pela transformação do outro ou estamos nos oferecendo para ser e viver o amor e o perdão neste mundo de ódio e indiferença?

Séries (quase) desconhecidas que valem cada minuto

Quem gosta de séries sabe que existem muitos tipos de série e muitos motivos diferentes para ver o próximo episódio. Tem aquela que todo mundo está vendo e comentado, aquela que você sabe que é trash, mas por algum motivo desconhecido não para de assistir, aquela que já foi boa e você se apegou, e aquela que é quase o seu tesouro particular.

Algumas séries são focadas em um público específico e, embora façam muito sucesso nesse nicho, são praticamente desconhecidas do público em geral. Há sempre o receio de que a emissora cancele o progarma antes de chegar ao seu devido fim, mas na maioria das vezes vale a pena. Cinco dessas séries pouco comentadas estão na minha grade.

Queen Sugar

Três irmãos negros no sul dos Estados Unidos herdam uma fazenda de cana de açúcar e acabam decidindo manter a propriedade na família. Apesar de irmãos, os três têm históricos bem diferentes - uma jornalista ativista dos direitos sociais que é amante de um polical branco, uma empresária socialite cujo marido famoso está passando por um escândalo sexual, um ex-presidiário que teve um filho com uma viciada em drogas e ainda não sabe o que vai fazer da vida.

A série é cheia de estrelinhas no elenco, boa parte deles esteve no premiado filme Selma. A produtora executiva é uma tal de Oprah, mas talvez o principal fator de qualidade da série seja o fato de estar em uma emissora privada. Com isso, a série consegue tocar em temas delicados e falar sobre alguns tabus sem que os roteiristas sejam barrados pelos chefões - como geralmente acontece nas grandes emissoras americanas. 

The Americans

Dois espiões da KGB são enviados para os Estados Unidos para conduzir operações durante a guerra fria, disfarçados como um casal americano no subúrbio. Nós os encontramos anos mais tarde, bem estabelecidos e com dois filhos que não fazem ideia de quem os seus pais realmente são. Nesse momento, a situação da Rússia começa a se complicar, e os nossos personagens centrais têm dificuldades em manter o disfarce duante da família e dos amigos, especialmente após um agente do FBI mudar-se para a casa ao lado.

Apesar de ser uma série americana, ela não busca a narrativa clichê do russo malvado e americano bonzinho. A história se desenvolve em uma área cinzenta em que todos têm um trabalho a fazer, e têm motivos para isso - pessoais e profissionais. Uma trama bem desenvolvida, com começo, meio e fim em cinco temporadas. Sem correria, nem enrolação, foi o tempo exato para deixar saudades, tendo cumprido a sua missão.

Timeless

Uma máquina do tempo. Um cientista, um soldado e uma professora de história. Eles têm a missão de voltar ao passado para mantê-lo intacto enquanto os vilões tentam alterar os acontecimentos para dominar o presente. Em cada episódio, visitamos um momento crítico ou corriqueiro da história dos Estados Unidos e do mundo.

A química entre os personagens, a tensão com as consequências de tudo o que eles fazem no passado, a interação com personagens reais em momentos importantes ou aleatórios e toda a ficção científica da máquina do tempo são motivos para assistir essa série que, infelizmente, terminou mais cedo do que deveria.

The Last Ship

Um navio tripulado com cientistas e militares fica isolado do mundo enquanto uma praga assoladora transforma o mundo conhecido em um cenário apocalíptico. Logo descobrimos que os cientistas estavam tentando, justamente, desenvolver uma vacina/cura para a tal doença antes que virasse uma epidemia. Outras pessoas, no entanto, estão interessadas no caos e fazem de tudo para atrapalhar a missão. 

Nessa altura do campeonato, a ameaça biológica não é o único problema no mundo. A morte repentina de milhões de pessoas abala as estruturas da sociedade. A tripulação do navio precisa encontrar um jeito de salvar a humanidade. Encontrar a cura. Parar o vírus. Salvar o mundo.

Travelers

Mais uma sobre viagem no tempo, só que dessa vez são as pessoas do futuro que vêm aos dias atuais para evitar uma tragédia. Uma vibe bem "exterminador do futuro", só que com uma viagem bem diferente. Os viajantes não descem de máquinas com roupas prateadas e robôs ajudantes. Em vez disso, apenas a consciência é transportada para um corpo cujo dono está prestes a morrer.

Calma, eles não matam pessoas para voltar ao nosso tempo. Eles investigam possíveis candidatos com base no registro de óbitos da data em que precisam retornar, aprendem sobre a sua vida em todos os registros possíveis - especialmente as redes sociais - e então assumem o comando, evitando a morte iminente e usando o corpo para a sua missão.

Já conhecia alguma dessas séries? Tem alguma série para indicar? Use os comentários para deixar a sua sugestão.

O que eu não li no segundo trimestre

Eu publiquei um post falando sobre as minhas leituras do primeiro trimestre, que foram muitas. Comecei o ano com um ritmo de leitura muito bom e aproveitei o momento, até engravidar. O primeiro trimestre da gestação é tudo aquilo que as pessoas dizem: um cansaço infinito, e a impossibilidade absoluta de ler mais de uma página sem cair no sono imediatamente. Todas as minhas energias foram para o útero, e desde então não consegui finalizar nenhuma leitura. No segundo trimestre, estou conseguindo retomar o hábito diário, sem grandes pretensões. Não espero alcançar o ritmo do começo do ano, mas talvez conseguir ler um livro por mês, quem sabe?


Antologia poética (Vinicius de Moraes)

Esse foi o único livro de ficção que eu finalizei. Foi quase um mês nesse livro, por causa da sua própria característica literária. Quando era adolescente, eu achava poesia uma leitura muito rapidinha. De fato, costuma ser um texto mais curto, mas a densidade era algo que eu ainda não tinha muita noção. Para ler poesia a gente precisa de tempo, mais do que para decifrar as letras, mas absorver as palavras e captar os sentidos. Poesia é tão difícil de ler, quanto de escrever. Você concorda?

As cinco linguagens do amor (dos adolescentes) (Gary Chapman)

Gary Chapman é um autor cristão conhecido sobre os seus livros que falam sobre as cinco linguagens do amor. Inicialmente para casais, ele escreveu outros materiais aplicando os mesmos princípios a outros tipos de relacionamentos. Esse livro, especificamente, mostra como o amor é percebido pelos adolescentes, e como nós podemos demonstrar amor na linguagem deles. As cinco linguagens são as mesmas, mas a forma de expressar e entender é diferente. Da mesma maneira que a gente pode falar português, mas não entender o jeito que os adolescentes falam - esse gap de linguagem existe também na linguagem do afeto. Eu li esse livro porque estou trabalhando com adolescentes e pré-adolescentes na minha igreja. Gostei tanto que já emprestei para uma mãe de adolescente.

Introdução à cosmovisão cristã (Michael W. Goheen e Craig G. Bartholomew)

Esta foi a leitura do último encontro do Clube do Livro. É um livro de teologia, bem acadêmico, e em muitas partes difícil de ler. Fazia algum tempo que eu não lia algo tão "escolar", até a linguagem é diferente. No entanto, é uma leitura de que não me arrependo. Valeu o esforço e as horas investidas, não só pela compreensão ampliada do conceito de cosmovisão, mas também para entender melhor a cosmovisão cristã, com a qual me identifico, e poder responder com mais clareza às pessoas porque eu não me identifico com outros movimentos sociais, políticos, filosóficos... Espero escrever algo sobre isso ainda esse ano...

Será que o bebê vai deixar a mamãe ler mais ainda esse ano? 

Não julgarás as mães

Mãe é sagrado, isso a gente já sabe. A mãe dos outros a gente não xinga, nem fala mal. No entanto, uma regra não escrita está muito mais enraizada, pelo menos na nossa cultura, que é a de não se meter na maternidade alheia. Se olhar feio pra criança dos outros - por mais malcriada que lhe pareça - a pessoa já passa por deselegante, e pode inspirar um textão pela imensa falta de solidariedade e compreensão.



Como regra, nenhuma mãe no Brasil está interessada em ouvir opinião ou conselho de ninguém. Entende-se, de modo geral, que uma mãe está sempre certa, mesmo que ela esteja errada. Na verdade, errado é quem está se metendo. Você vai ver quando você tiver os seus.

Dizer para uma mãe que ela está agindo erradamente com seu filho é acordar uma fera, mesmo que ela esteja, sei lá, fumando crack durante a gestação, ou colocando pinga na mamadeira. Bater na criança é mais seguro do que desafiar uma mãe em sua maternidade.

Mas será que alguém não julga? Todo mundo julga, ainda que seja educado demais para dizer alguma coisa. Coitado de quem tem o dever legal de se meter. O Conselho Tutelar, a equipe pedagógica da escola, e até a polícia são vítimas do mais enraivecido "você está querendo me ensinar como criar o meu filho?".

Talvez seja necessário, pelo bem das crianças, abrir um pouco a cabeça. Ouvir um pouco mais, mesmo não concordando, mas parando pra refletir. Por que estão me dizendo isso? Se filho não vem com manual, mamãe também não sabe tudo. Nenhuma mãe está sempre certa. Nem sempre a criança sobrevive. E dificilmente é a mãe quem paga as terapias da criança que sobreviveu.

O que é vida? e outras perguntas difíceis

Há muito tempo, eu já escrevi sobre o aborto, e tinha para mim esse tema como esgotado. Para resumir a minha opinião, eu sou favorável à descriminalização do aborto, apesar de ser contrária à sua prática. É a mesma posição que eu tenho com relação a diversos temas polêmicos: eu não considero que as minhas preferências devem pautar a agenda pública, ou mesmo obrigar os outros a seguir a minha regra de comportamento. Como cristã, eu prefiro pregar o evangelho a colocar na cadeia aqueles que não concordam comigo.

Como eu disse, achava que o tema estivesse esgotado para mim. Agora, alguns anos mais velha e na condição de mãe, descobri que tenho algumas respostas que antes não tinha. Os debates mais recentes também levantaram algumas questões das quais ninguém falava antes, e que eu gostaria de responder. Vamos a elas...


Existe vida antes da 12ª semana de gestação?

Poderíamos matar essa pergunta com a lógica: todo aborto pressupõe uma vida, porque é a morte do que não nasceu. Para morrer, é necessário estar vivo. Se não há vida antes da 12ª semana, então não há aborto, e o problema se resolve muito facilmente. Mas se há aborto, então há vida.

O primeiro trimestre gestacional - que na verdade vai até a 14ª semana (curiosidade: as duas primeiras semanas constituem potencial gestação - da maturação do óvulo até a fecundação, mas são contadas como "gravidez") - é um sofrimento. Vai além de todos os hormônios enlouquecidos e das mudanças no corpo, dores, enjoos, cansaço infinito. A mãe que carrega um bebê minúsculo pensa, vinte e quatro horas por dia, será que meu bebê está vivo?

O bebê de até 12 semanas não "chuta", não soluça, não manifesta sinais claros de vida exceto aqueles detectáveis por aparelhos especiais. Coincidentemente, o período do primeiro trimestre é o de maior risco de aborto espontâneo. É tenso, não porque haverá vida, mas porque há vida. Os pais que ouvem pela primeira vez um coraçãozinho batendo sabem o motivo da emoção: vida.

Vamos partir desse pressuposto.

Por que ninguém fala sobre o aborto paterno?

Essa é uma pergunta muito difícil, porque o aborto paterno é uma violência contra uma família. Aborto paterno é aquele em que o genitor coage, obriga ou até mesmo provoca sobre a mãe. É o sinal óbvio de um relacionamento abusivo, opressor, que não valoriza a vida de ninguém e não considera consequências. Ninguém fala sobre o aborto paterno porque essas histórias de sofrimento se passam em segredo, ou são silenciadas para sempre.

Não confundir com abandono. Fingir que alguém não existe mais é diferente de matar. O abandono pode levar à morte, mas a morte não é consequência necessária do abandono. Muita gente foi abandonada pelo pai. Muita gente não sabe nem quem é o pai, sem  falar que muita gente não sabe que é pai... A figura paterna é essencial para a formação da criança, mas muita gente está melhor hoje porque a sua figura paterna não foi o pai. Não quero, com isso, dizer que abandono é legal. Não estou dizendo que abortar não pode, mas abandonar pode. Estou dizendo que abandono não é aborto. Precisamos discutir os dois assuntos, sem misturar as coisas.

Aborto é assunto de mulher?

Como advogada de família, eu ouço muito a frase "eu não fiz esse filho sozinha". Exceto quando se fala em aborto. Aí o corpo é da mulher e, aparentemente, o filho é só dela também. "No uterus, no opinion" é uma frase de efeito bacana para mascarar o autoritarismo antidemocrático. Eu, com meu útero bem habitado, digo que precisamos parar de pedir mais participação masculina na vida doméstica e familiar enquanto ainda tratamos de "assunto de mulher" e "assunto de homem". Ora, por favor.

A Bíblia prescreve o aborto para casos de infidelidade conjugal?

Essa eu vi no Twitter, inclusive veio com a referência, o que já facilita a vida. Em Números 5 há a descrição de um "ritual" para casos em que há suspeita de infidelidade conjugal. Resumindo, o marido que sente a testa coçar leva a mulher ao sacerdote, que fará com que essa mulher beba uma certa água. Se ela for inocente, nada acontece. Se ela tiver sido infiel, a água fará com que ela fique inchada e a tornará estéril. Poderíamos dizer que é um "ritual de esterilização", mas não de aborto. O texto não descreve, prescreve ou recomenda o aborto.

Quanto à moralidade da esterilização da mulher adúltera, não podemos fazer interpretação anacrônica. Se esse tipo de procedimento não é mais seguido pelos judeus, quanto mais pelos cristãos. Primeiro, porque segundo o Cristo, o adultério precede a relação sexual (Mateus 5:28). Segundo, porque a o estilo de vida instituído pelo Cristo afirma a igualdade entre homens e mulheres, valoriza toda a vida e todas as vidas, redime e restabelece a ordem da Criação. Os pecadores - "todos e todas" - não estão sujeitos ao escrutínio do sacerdote, mas respondem diante do próprio Deus. Mas se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar e nos purificar completamente.

O aborto deveria ser fornecido pelo SUS?

O SUS fornece, de graça, camisinha, pílula anticoncepcional, DIU, laqueadura, vasectomia, além dos procedimentos de aborto legal. Vi alguns depoimentos de bebê McGyver que foi concebido quase que milagrosamente, apesar da combinação de diversos métodos contraceptivos que, presume-se, foram praticados com perfeição. Qual seria a ideia? Viabilizar o aborto apenas para quem se preveniu, mas foi vítima da estatística? Deveria estar disponível para o aborto voluntário? Deveria a triagem perguntar/constranger sobre as devidas precauções para evitar a gravidez? Será que o SUS comportaria a demanda - considerando que o sistema já está saturado com a demanda atual? Fica a reflexão.

A falta de acesso gratuito ao aborto é igual à criminalização do aborto?

Um dos grandes argumentos pela descriminalização do aborto é o de que o aborto já acontece. É verdade, não há lei que impeça ou que atrapalhe a convicção de alguém que tem certeza de que está, de alguma forma, fazendo a coisa certa - mesmo que seja certo só para ela. Mas isso também significa que ninguém deixa de fazer aborto porque tem que pagar, mesmo que seja em uma clínica clandestina e sem segurança, certo? O serviço já existe. A regulamentação certamente traria mais segurança. Esse é o objetivo da descriminalização, certo?

O aborto é um direito?

Já falei bastante aqui no blog sobre a vulgarização do "direito". Todo mundo fala que é preciso aprender a diferenciar "quero" e "preciso". A gente também precisa distinguir desejo, necessidade e direito, porque o excesso de direitos faz com que todo direito se torne irrelevante.
O "direito ao aborto" tem por fundamento o direito ao próprio corpo. O direito ao corpo e à integridade física é um direito importantíssimo, que tem relação com o direito à vida e o direito à liberdade. No entanto, me parece uma extrapolação considerar que uma vida - outra que não é a sua - seja considerada o seu próprio corpo.

Em todos os casos de aborto legal há um julgamento moral muito sério: qual vida eu devo preservar? Existe um risco muito grande à vida e à saúde - física e mental - das vidas que estão envolvidas, mãe e bebê. Já o aborto voluntário, quase sempre, trata da disposição de um sobre a vida do outro. É um desrespeito, não um direito.

Eu não vou impor sobre ninguém as minhas convicções, nem mesmo exigindo que seja crime aquilo que eu considero errado. Mas vou continuar dizendo que é errado, porque este é o meu direito.

O cabelo de cada um

Nos últimos tempos tem sido muito legal observar nos espaços públicos como as pessoas estão cada vez mais saindo com seu cabelo natural. Percebemos uma diversidade que há muito tempo não se encontrava. 

Você provavelmente tem alguma foto da turma do colégio/faculdade, todo mundo com o mesmo corte de cabelo, mesmo modelo de óculos escuros, mesmo estilo de roupa. Eu sei, isso se chama "moda", mas essa moda de "cada um vai como gosta" é muito mais legal. Eu acho que o mundo fica mais interessante quando as pessoas não parecem cópias umas das outras.

O problema é que passamos tanto tempo aprendendo como cuidar do cabelo para que ele se conforme ao padrão da época, que fica difícil lembrar como cuidar do cabelo para que ele seja simplesmente a sua melhor versão. Além de tudo, dificultamos o trabalho dos portais de moda. Era muito fácil dar a dica infalível quando todo mundo tinha o mesmo cabelo - ou melhor, quando só um tipo de cabelo era interessante.

Diziam que a medida ideal de creme para pentear era do tamanho de uma moeda de um real, eu li isso em uma revista quando era adolescente. Naquela época eu usava aproximadamente um terço do pote a cada vez que eu lavava o cabelo. A revista estava errada porque quem escreveu aquilo obviamente não tinha cabelos cacheados. Eu estava errada porque eu tinha expectativas erradas sobre o meu cabelo, e tomava medidas exageradas para fazer com que ele atendesse às minhas expectativas nada realistas.

O "movimento de aceitação do cabelo" é muito bem-vindo, mas ainda não chegamos "lá". Ainda existem muitas expectativas irreais sobre como um cabelo deve ser, e poucas são as inspirações para mostrar tudo aquilo que o seu cabelo pode ser. Não é difícil perceber isso, é só pesquisar sobre penteados para cabelos cacheados, você vai encontrar mil versões de três penteados - solto, coque, meio preso.

Antes de brigar com o seu cabelo porque ele não atende às suas expectativas, é preciso conhecê-lo melhor. Que cabelo é esse? Como ele se comporta? Do que ele precisa, do que ele gosta? Nesse momento, considere: você gosta mesmo dos cachos e está pronta para aceitá-los, com volume e tudo mais? Ou você gosta do seu cabelo de outro jeito e está disposta a fazer o que for necessário para isso? Ninguém instaurou uma ditadura dos cachos - o cabelo é seu. 

Você escolhe se ele é liso, cacheado, ou se quer raspar a cabeça, mas cada cabelo tem seu próprio cuidado, tem sua própria beleza, tem suas características essenciais. Não dá pra pensar em cachos sem volume - pode ser pouco volume, mas sempre tem volume, o volume é consequência do cacho. Não dá pra pensar em... deixa pra lá, não conheço outros cabelos... mas você entendeu o raciocínio. Você precisa conhecer o que você tem. Seu cabelo agradece.

Fogo amigo

Você tem um companheiro, alguém com quem você compartilha a vida. Muita gente passa muito bem pela vida em carreira solo, mas há quem escolha compartilhar. É uma escolha. Foi a minha escolha e é a de muitos.

O nome "companheiro" não foi escolhido a esmo. É alguém que acompanha, que caminha junto, na mesma direção, pelo mesmo caminho. Seu parceiro de jornada. O caminho já não é fácil, e sempre há alguém para atrapalhar, além de que, trabalhar em dupla é complicado. Mas vocês têm um ao outro, para apoiar, amparar, ajudar a crescer. É por isso que andamos juntos.

A gente enfrenta muita coisa: ajustes no relacionamento, dificuldades financeiras, problemas familiares, situações profissionais, doenças físicas e psicológicas, inseguranças, incertezas, palpites, pitacos, ciúmes, inveja... e no meio de tudo isso a última coisa que alguém precisa é de fogo amigo. Sabe o que é? Quando você é atacado pelo seu próprio time.

Quando a gente recebe ataques de fora, dá pra contar um com o outro, chamar reforços, encontrar consolo e renovar as forças. Mas se o ataque vem de dentro, pra onde é que se corre? É covardia. Mas a gente faz isso, às vezes até inconscientemente. Expondo os defeitos do outro na frente da família, dos amigos, ou nas redes sociais. Às vezes é "de brincadeira", mas também machuca. Repreendendo sem respeito, muitas vezes diante de outras pessoas.

Tá certo que a gente precisa acertar os ponteiros, que às vezes o parceiro vacila (e a gente também), que tem comportamento que se repete e incomoda demais, mas pra nenhum desses problemas a humilhação pública é a resposta. 

A gente tem falado muito sobre mudar a maneira de tratar as crianças (graças a Deus!), e esquece que o parceiro também é gente; que se a criança precisa de respeito, também precisa dele o adulto que está ali; que a criança cresce e vai embora e o parceiro, é com ele que a gente deveria ficar a vida toda. Será que ele fica?

Já nasce sabendo?

A criança não sabe falar ou andar, mas aperta os botões do controle remoto e desliza o dedo pelo celular com propriedade. Os adultos parecem impressionados e exclamam, "Eu não sei como ela aprendeu a fazer isso, parece que já nasceu sabendo". Mas ninguém nasceu sabendo. As crianças aprendem a lidar com a tecnologia assim como aprendem todas as coisas: observando e imitando.

É importante lembrar disso. Estamos sendo vigiados o tempo todo, nosso comportamento, ações, atitudes, palavras, tudo isso é absorvido pelas crianças à nossa volta. Enquanto elas tentam entender como o mundo funciona, são guiadas pelos adultos em sua vida. Isso não é informação nova, mas é bom lembrar.

Quer dizer que as crianças são um sinal importante da vida que estamos levando: a criança aprendeu primeiro a abrir um livro ou acender a tela do celular? como são as brincadeiras? quando ela brinca de ser mãe, o que é ser mãe para ela? A criança não nasce sabendo, mas ela começa a aprender muito antes do que se imagina...

Rotina doméstica: o que funciona?

Há um tempo atrás circulou uma história nas redes sociais sobre os maridos que não fazem nada em casa porque a mulher não pediu ajuda. A gente já falou por aqui que a falta de comunicação é um problema fundamental e que nada é óbvio. Então sim, existe uma parcela de responsabilidade, mesmo que seja só aquele um por cento, da pessoa que sempre faz tudo sozinha e não se comunica, não verbaliza o quanto está cansada sobrecarregada etc. 

Mas a história abordou um ponto interessante e importante que é um problema muito comum: o domínio das tarefas domésticas pelas mulheres. E não estou falando simplesmente  que as mulheres fazem mais coisas, mas principalmente do fato de que só ela sabe o que precisa ser feito e só ela sabe como fazer.


Existem muitas checklists disponíveis na internet e muitas formas de gerenciar os afazeres domésticos, mas ainda há uma centralização muito grande dessas atividades sobre a mulher. No início do casamento, até alguns anos atrás, as tarefas de limpeza da casa ficavam no meu aplicativo de organização pessoal. Eram minhas tarefas porque elas estavam na minha lista de coisas pra fazer, que só eu tinha acesso.

Hoje nós temos um sistema diferente. Primeiro, porque ele é impresso e fica na parede da lavanderia, disponível e acessível a todos os habitantes da casa porque todos podem e devem participar das rotinas que não são minhas, nem de nenhuma outra pessoa. São rotinas da casa, os responsáveis por crumpri-las são as pessoas que moram nela. Segundo, porque é uma lista que não deixa de descrever o óbvio. Ninguém pode dizer que não sabia o que era pra fazer, ou que não sabia como fazer.

É importante atentar para o fato de que querer envolver todo mundo nas tarefas significa abrir mão do controle. Não dá pra exigir que todo mundo faça tudo exatamente como você faria. É um trabalho em equipe. As crianças não vão executar tão bem as tarefas que você faz todos os dias há décadas, e isso se aplica a qualquer adulto que não passou por isso na infância. A curva do aprendizado exige um bocado de paciência, e é essa falta de paciência que, muitas vezes, deixa a pessoa trabalhando sozinha. Ninguém aprende a fazer com perfeição sem errar.

Um grupo de mulheres se junta para criticar um pai trocando fralda exatamente da mesma forma que um grupo de homens quando uma mulher manobra o carro.

Eu já falei algumas vezes que não faço faxinas. Aqui cada um tem sua rotina e a casa também tem uma rotina daquilo que precisa ser feito diariamente, semanalmente, a cada três dias, quinze dias e assim por diante.

Por muito tempo, as tarefas semanais eram divididas ao longo da semana para não acumular todo o serviço da casa para um dia só - eu não gosto da ideia de perder um dia inteiro fazendo limpeza. Talvez a sua rotina não permita isso. Funcionou para mim, e até hoje grande parte ainda é dessa forma, mas a nossa rotina mudou. A vida é dinâmica e essas mudanças operacionais precisam acontecer para acomodar as outras mudanças. Não dói.

O que tem funcionado por aqui é uma profissional que vem quase semanalmente para fazer principalmente essas tarefas que não são diárias, enquanto a manutenção da ordem no dia a dia é feita pelas pessoas que moram na casa, conforme a disponibilidade de cada um.

A gente tem que descobrir o que funciona pra gente e viver sem culpa pelo modo como a nossa vida funciona. É quase inevitável que alguma das pessoas fique com a maior parte das tarefas, ou com as tarefas mais chatas. A gente não faz sempre o que gosta, e dividir as tarefas domésticas meio-a-meio é uma conta complicada de se fazer. Qual seria o critério da divisão?

O que a gente pode fazer é ajustar o sistema até chegar no nosso ideal, que dificilmente vai se encaixar no padrão de qualquer outra pessoa. Você não tem que se sentir mal porque o que funciona pra você não é o que os outros consideram justo. Só você está na sua pele.

O fator fundamental é que a rotina da casa não é minha ou do marido ou da diarista... é a rotina da casa, e todas as pessoas envolvidas têm responsabilidade. É uma mudança na forma de ver as coisas que muda o comportamento de todo mundo. 

Isto é uma intervenção

Todo mundo tem uma mania esquisita, né? A pessoa que se veste todo dia de azul, aquela que só usa camisas polo, a pessoa que só dorme depois de lavar a louça, a pessoa que deixa acumular até adquirir pequenos colegas de apartamento. Tem gente que é obcecada com uma cor, uma série, um estilo musical, gente que faz coleção de tampinha de garrafa, DVD, sapatos. Aquele cara que em todas as conversas dá um jeito de falar sobre o seu assunto preferido, aquele que não pode ouvir de um assunto que já desconversa.


A maioria dessas manias é bem comum, tão comum que a gente nem percebe que é meio esquisito aquela pessoa estar sempre com a cor azul em alguma peça de roupa... mas de vez em quando as nossas manias e obsessões passam dos limites, quando a gente percebe que aquele colega que gosta de cerveja nunca foi visto sem uma cerveja na mão. Quando ninguém aguenta mais o amigo que não para de falar da ex, está na hora de uma intervenção.

O Brasil estava com uma mania de conservadorismo que a gente achou até engraçadinha. Os tiozinhos vestindo a camisa da seleção e indo às ruas protestar. Aquele monte de gente ocupando as principais avenidas do país para dizer que é contra a corrupção. Gente que nasceu nos anos noventa pedindo a volta dos militares. Estranhamente fofo.

Alguns políticos se aproveitaram da situação e ganharam notoriedade. Essa onda de conservadorismo não cresceu à toa, mas não foram esses políticos os seus criadores... eles apenas surfaram a onda. A onda é criada por um vento que incomoda a água que, de outra forma, estaria calma. Quanto mais forte o vento, maior a onda. O vento, no caso, foi o fracasso, agora evidente, da gestão que se dizia "de esquerda", e que, implementando muitas medidas estatistas, veio a criar uma marolinha crescente, que está quebrando só agora. É o Brasil a beira do caos.

Não adianta querer se enganar e dizer que o que estamos vivendo agora é fruto de dois anos, e não de dez. Não quero dizer que o governo atual fez tudo certo ou nada errado, o que eu estou dizendo é que é errado afirmar que a nossa situação atual foi causada, exclusivamente, por este governo, ou pelo anterior, assim como é errado assumir que o Brasil não passaria por esta situação se o governo anterior não tivesse caído.

As políticas que guiaram o governo dos últimos doze anos não são inéditas, e seus efeitos não são desconhecidos. O crescimento do controle estatal é capaz de gerar uma aparência de bem-estar muito realista, mas quando passam os efeitos da realidade virtual, o efeito colateral aparece: o mundo de repente fica esquisito, como se estivesse girando de cabeça pra baixo, e demora um pouco para voltar ao normal. É sempre assim. Outro efeito interessante é que a gente tende a culpar a realidade real porque é nela que a esquisitice toda acontece. Durante a realidade virtual esava tudo bem... e aí dá saudade.

Um caso mais esquisito é o das pessoas que acabam gostando desse jeito esquisito de viver. Elas já se convenceram de que "esse mal é para o bem", mas perderam a perspectiva do bem vindouro. Ficam obcecadas com o gosto amargo, e começam a achar que isso é que é o bom, é isso que faz bem. Quanto pior, melhor. Começam a desejar coisas absurdas, uma doença, um câncer, um tiro na cabeça. Aquilo que faz mal, há de fazer bem.

É por isso que o Brasil precisa de uma intervenção. Não é uma intervenção militar, comunista, conservadora ou anarquista. É uma intervenção sanitária. Precisamos lembrar como é ser normal... na verdade, talvez seja importante aprender o que é ser normal, e chamar as coisas pelo que elas são. Está na hora de recuperar a sanidade.