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Guia AnnieEscreve #5

Já faz 84 anos desde o último #GuiaAnnieEscreve. Mesmo devagar, enquanto eu estava dando conta de algumas prioridades muita coisa interessante aconteceu por aqui. Será que você perdeu alguma coisa?



Muita coisa foi escrita aqui desde o último guia. O site chegou a ficar fora do ar por quase um mês, e sabe o que fez os textos voltarem com tudo? Todo mundo que mandou mensagem porque tentou acessar e não conseguiu. Eu não escrevo porque tem gente lendo, eu escrevo porque preciso, mas saber que vocês estão aí do outro lado dá muita vontade de fazer tudo cada vez melhor. Obrigada!!

E sobre o que eu escrevi? Aqui no Annie Escreve se fala sobre todo tipo de assunto. Não é um blog sobre política, livros, organização, relacionamentos, vida cristã, séries, moda, beleza... É o meu blog. Assim como os meus amigos podem conversar comigo sobre esses e quinhentos outros assuntos, vocês podem ler a minha opinião sobre qualquer coisa aqui.

Falamos sobre tolerância e empatia, e sobre comunicação no casamento. Falamos sobre atividades extravagantes para gastar o tempo e o dinheiro que a gente não tem, falamos sobre a rotina de cada um e os motivos porque muitas mulheres estão sozinhas no trabalho doméstico.

Dei dicas de séries sobre política e de como descartar alguns itens que se acumulam pela casa porque a gente não consegue jogar no lixo. Indiquei alguns livros para ler e dar risada e falei sobre a problematização da beleza.

Escrevi sobre o dilema em que a melhor parte é também a mais difícil, a glamourização do sofrimento, a polêmica da exposição que foi cancelada e, talvez a treta mais importante do ano: um texto informativo, explicativo e bastante extenso sobre a reforma trabalhista, colocando de forma bem clara o que é verdade e o que é mito, o que vai ajudar a sua vida e o que vai atrapalhar. Se você ainda está meio confuso com esse tema, leia já! A reforma já começa a valer em novembro.

Eu li Multiplique (Francis Chan) depois de Casais e Dinheiro (Victoria Felton-Collins e Suzanne Blair Brown), Dívida Boa Dívida Ruim (Jon Hanson) e Mais Tempo Mais Dinheiro (Gustavo Cerbasi e Christian Barbosa). Depois de ler muita coisa sobre o mesmo tema em sequência a mente começa a saturar. Eu estava precisando mudar de assunto, e esse livro sobre discipulado foi perfeito para o momento.

Depois disso, li Marketing de Conteúdo (Rafael Rez) e Você é o que você compartilha (Gil Giardelli). Recomendo muito a leitura do primeiro para quem quer colocar a sua cara na internet, o segundo livro já não é tão interessante como na época em que foi lançado. Terminei a leitura de Cristianismo puro e simples (C. S. Lewis) e agora estou lendo A Lógica do Cisne Negro (Nassim Nicholas Taleb), um livro com muitas críticas negativas e positivas, o que torna as coisas bastante interessantes.

Também li Contos Plausíveis (Carlos Drummond de Andrade) e Cien Años de Soledad (Gabriel García Marquez) muito, muito lentamente. Depois disso, li rapidinho A lenda do cavaleiro sem cabeça para poder dizer para vocês: não leiam! É chato, os personagens são chatos e o cavaleiro aparece por dois segundos na história toda (por que esse título, né?). Voltei para o Drummond: Lição de Coisas, o último Drummond não lido na minha biblioteca. Estou aceitando doações (na edição branquinha da Companhia das Letras, por favor, pra não bagunçar a estante).

Aqui no apartamento doze terminamos de assistir House of Cards e Better Call Saul e embora estejamos duas temporadas atrasados com Orange is the New Black, a falta de vontade de continuar assistindo (desculpa) nos levou a começar Forever, uma série curta - só teve uma temporada de 22 episódios - sobre um médico legista imortal. Tem uma pegada Sherlock Holmes, com uma história mais complexa sobre a sua imortalidade e a descoberta de outro cara imortal, só que psicopata (eita).

Por falar em Holmes, estou assistindo Elementary na Netflix, uma releitura de um Sherlock Holmes contemporâneo em Nova York acompanhado de uma Watson, sim, John Watson se tornou Joan Watson. Estou curtindo muito a série! Quase todas as temporadas estão na Netflix e, se seguir o padrão, a última deve ser lançada no streaming quando começar a próxima na TV americana, nos próximos meses.

Comecei a ver Parenthood, a série que todo mundo quer ver depois de Gilmore Girls. Tenho um número bem restrito, e pra entrar uma nova alguém tem que sair, e essa estava na fila há muito tempo. Entrou no lugar de Orphan Black, que acabou.

Orphan Black tem todas as temporadas na Netflix e conta a história de clones humanos lutando por sua liberdade contra a empresa que os criou. O filme Onde está segunda?, lançamento da Netflix, me lembrou um pouco a série, com esse ar de ficção científica e distopia e uma grande atriz interpretando várias personagens diferentes.

Assisti Ballerina, que é uma animação bonitinha, mas nada de extraordinário. Fomos no cinema com o sobrinho marlindo ver Meu Malvado Favorito 3 que eu achei bem mais ou menos perto dos outros filmes da franquia. Os meninos gostaram.

Um filme que eu achei que seria mais ou menos, mas acabou sendo engraçado é o Mom's Night Out, que em português ficou com o título Mamãe: Operação Balada (que não tem nada a ver porque elas saem pra jantar e não pra balada). Com o marido, assisti Malévola (ele escolheu e isso significa que eu casei certo), e embora eu estivesse com muito sono (tô virando a minha mãe) gostei muito do filme!

Tô ouvindo muito as rádios do Spotify. A minha favorita é a partir da artista Lorena Chaves. Toca muita música delicinha nessa trilha. A "rádio do artista" no Spotify não são músicas escolhidas pelo artista, são músicas que as pessoas que ouvem aquele artista gostam e você pode calibrar a rádio contando para o Spotify se você gosta dessa música ou não. Também tô curtindo muito Vocal Livre, Amanda Rodrigues e Deise Jacinto.

Fora do streaming, já estamos ensaiando para o musical de Natal!!! Pois é, piscou, o ano acaba, e por aqui vai ser tudo liiindo. Eu sou o tipo de pessoa que ama essa época do ano, e não vejo problema nenhum em começar the most wonderful time of the year alguns meses mais cedo. Já é Natal por aí?

Quatro razões porque você faz tudo sozinha em casa

"Tudo eu nessa casa" é uma frase que une as mães e os adolescentes - uns com mais razão do que outros. Não é difícil encontrar uma mulher que acredita que o marido, os filhos, ou quaisquer que sejam as pessoas com quem ela more, poderiam e deveriam ajudar mais.

As estatísticas não me permitem falar besteira aqui: as mulheres gastam, em média, o dobro de horas nas atividades domésticas, em comparação com os homens - sem contar as donas de casa em tempo integral. Estamos falando de gente que trabalha quarenta horas por semana... e passa mais vinte horas cozinhando, limpando, lavando, passando, cuidando das crianças....

A realidade é esta, sem enfeite, nem maquiagem: o reflexo de uma cultura machista que há séculos aprisiona os homens e mulheres da nossa sociedade. Porque isso é verdade, volta e meia surgem textos, sermões, pregações, infográficos, vídeos e todo tipo de material para dizer "Homens, se toquem e comecem a fazer mais atividades domésticas".

O problema é que todo esse material é visto e aplaudido apenas por mulheres. Os homens não estão seguindo uma série de quadrinhos para entender o quanto a sua esposa está cansada e como ele é um folgado que vive como se tivesse empregada doméstica. As pessoas dificilmente chegam ao final de um texto que fala contra elas. E aí? Nada acontece.

Ficamos esperando que os homens mordam a isca para se instruir, criem consciência sobre o mundo ao seu redor, que eles entendam indiretas e que todo mundo contribua em casa de forma mais ou menos igual, sem precisar ficar falando, repetindo, insistindo, brigando... Enfim, ficamos esperando que a mudança parta deles.

"Eu já faço demais", eu sei, eu sei. Mas se você é adepta do "quer fazer bem feito, faça você mesmo", então você sabe que a forma mais eficiente de mudar a sua realidade começa com a sua própria mudança. Será que você não está fazendo algo para contribuir para o seu próprio martírio?




Toda a organização da casa está concentrada em você

Saber o que tem que ser feito - parece óbvio, mas não é. A coisa é muito mais simples quando não envolve várias pessoas. Quais são as tarefas que precisam ser feitas, e com que frequência? Acredite, isso não é universal, tampouco é um conhecimento implantado no cérebro desde a fase embrionária. É daquelas coisas que a gente aprende em casa, com as figuras de referência e com nossa própria experiência.

A grande questão é que cada pessoa tem um histórico diferente - experiências diferentes, criação diferente - e traz consigo a cultura do seu berço, que pode ser muito, muito parecida com a sua, mas sempre será diferente. Isso significa que esses detalhes, que a carrega a vida toda, e por isso parece tão óbvio, precisam ser esclarecidos quando estamos lidando com mais de uma pessoa. Não dá pra cobrar das pessoas a execução de tarefas que só existem na sua cabeça.

Vocês podem sentar e decidir como organizar as atividades domésticas, para formar um plano. Não importa se cada um terá as suas tarefas definidas, ou se simplesmente vão definir o que precisa ser feito, sem designar pessoas específicas... O importante é que todas essas coisas saiam da sua cabeça e estejam em um local acessível a todos.

Ninguém faz como você

Para que as pessoas realizem certas tarefas, é importante dar a elas a liberdade necessária para fazer do jeito delas. Há uma diferença enorme entre dar sugestões para melhorar o processo e ditar passo a passo de como fazer cada coisa.

A sensibilidade precisa ser maior quando falamos de pessoas que, diferente de você, não têm anos e anos de prática. O nível de exigência precisa ser menor para quem está aprendendo. Costumamos fazer isso com as crianças, mas por algum motivo não temos paciência para deixar que o adulto aprenda.

Nem toda crítica é útil ou necessária - o que você acha super importante pode ser apenas uma mania, e a maioria das críticas pode ser transmitida sem um tom ofensivo - em vez de enfatizar o que está errado, dê uma sugestão sobre como essa pessoa pode melhorar.

Muitas mulheres criticam e até ridicularizam os maridos no serviço doméstico ou no cuidado com os filhos apenas para reforçar um estereótipo - "olha o jeito que ele segura a criança", "olha quanta água ele coloca no balde", "todo esse tempo pra lavar uma louça..". Se você recebesse esse tipo de estímulo, qual seria a sua reação?

Deixar que os outros façam significa aceitar que cada um vai fazer do seu jeito - segundo as suas competências e limitações. Se você não consegue lidar com as pessoas fazendo de um jeito diferente do que você faria - que não é necessariamente errado - talvez seja melhor aceitar que sempre fará tudo sozinha.

Você sustenta padrões irreais

Existe um limite daquilo que é possível em uma casa onde as pessoas vivem. Muita gente usa esse limite como desculpa para a bagunça. "Casa arrumada não tem vida" - quantas vezes não ouvimos isso? Eu já falei que não é verdade. Existe um equilíbrio entre a casa impecável do showroom e a casa onde ninguém liga porque as pessoas estão vivendo - em meio ao caos.

A gente se cobra demais pela cortina que não ficou bem ajeitada, pela ponta do tapete que está dobrada, pelo cisco que caiu no chão. O fato é que aquela casa impecável do fim de sábado - ou que é arrumada para as visitas - não se sustenta por mais de duas horas, não deu nem tempo de descansar da faxina.

Descubra o padrão de limpeza e organização que você consegue sustentar. Em vez do ciclo semanal em que a casa fica muito suja e bagunçada, para depois ficar muito limpa e arrumada, encontre um padrão realista, que vocês conseguem manter todos os dias, sem precisar de uma força-tarefa.

Acredite: é muito melhor viver em uma casa 8/10 todos os dias do que passar duas horas em uma casa impecável, sendo que nessas duas horas você está tão cansada que nem consegue curtir antes do primeiro suco derramado.

Os padrões irreais são tão exigentes, que desanimam muita gente antes mesmo de começar - a gente sabe que vai dar trabalho e não vai durar. É muito melhor envolver todo mundo na manutenção de um padrão realista do que se frustrar porque toda aquela faxina só durou duas horas.


Você mora com pessoas mal-educadas

Existe gente ignorante e existe gente sem noção. Estou falando de gente folgada, egoísta, egocêntrica e preguiçosa. Nesse ponto, pensando no que se pode fazer a respeito, há uma diferença enorme a partir de quem são as pessoas que moram com você. Algumas relações são voluntárias, outras não. Algumas situações você ajudou a criar, outras já estavam lá quando você nasceu.

Você não escolhe os seus pais, mas escolhe o amigo com quem vai dividir o apartamento. Você não tem muita influência sobre a educação do seu marido - as pessoas mudam, mas não mudam -, mas é 100% responsável pela educação do seu filho (não, não é 50% pra cada um, é 100% pra cada um: lidem com essa matemática).

Algumas situações podem ser remediadas imediatamente, outras requerem tempo de planejamento e preparo. Às vezes vale mais a pena ser trouxa do que passar a vida inteira falando com as paredes - sabe como é? Afinal de contas, na maioria das vezes, a gente escolhe quem são as pessoas que a gente mora, e escolher errado traz pro seu colo uma parte da responsabilidade...

Pode ser que a paz interior esteja em fazer o que tem que ser feito, e se sentir feliz consigo mesma. Se você se sente bem com isso, não tem problema nenhum em fazer tudo sozinha.

Arte, censura, liberdade

Uma coisa todo mundo concorda: o banco errou. Uns vão dizer que errou em fazer a exposição, outros apontam o erro no cancelamento.

Insentões aparecem para criticar todo mundo ao mesmo tempo: "Liberais defendendo a censura e esquerdistas defendendo um banco". O mundo dá voltas ou nós é que estamos tontos?


A liberdade de expressão

A Constituição garante a liberdade de expressão, colocando sobre ela apenas uma regra: a responsabilidade. Já falei que a responsabilidade é a outra face da liberdade, e que uma não pode existir sem a outra. Por isso, quem quer se expressar livremente precisa dar a cara a tapa - não vale se esconder no anonimato - e se responsabilizar pelo que expressou diante de todos - inclusive sobre eventuais calúnias, ofensas e bobagens em geral.

Quer dizer que o tal artista tinha todo o direito de fazer a sua arte? Sim. E de enfrentar todas as consequências do seu ato. Fazer arte deve ser uma manifestação de coragem, a exposição daquilo que se carrega dentro de si. Arte covarde é uma contradição.


A liberdade de expressão do outro

O direito do artista de fazer a sua arte é correspondente ao direito que todas as pessoas têm de achar aquilo tudo uma bela bosta. Ou achar lindo. De achar o que quiser. De dizer que todo mundo deveria prestigiar a obra, ou de que a exposição deveria ser fechada porque ninguém merece ver uma coisa dessas. Enfim, todo mundo tem liberdade para se expressar sobre a obra, e eu acho que ninguém discorda disso.

Censura

A censura, por outro lado, vem encerrar a liberdade de expressão em sua origem. Ninguém vai se manifestar sobre a obra, porque a obra não está apta à exposição pública, de acordo com os critérios obscuros de alguém. Nesse sentido, nenhuma manifestação popular contra uma obra de arte pode ser considerada censura, porque a censura somente pode vir de uma autoridade superior.

Hoje existe censura em filmes, por exemplo, para impedir o acesso de determinadas faixas etárias a certos conteúdos que os legisladores consideraram inadequados - critério deles, autoridade superior. Censura não é ver, não gostar, fazer campanha contra... isso é liberdade de expressão. Censura é fazer com que ninguém possa dizer que não gostou.

Cancelamento não é censura?

Pois bem, vamos falar do caso concreto: um banco privado abre uma exposição de arte. As pessoas visitam a exposição e muita gente não gosta. As pessoas que não gostam da exposição começam a pressionar o banco para que a exposição seja cancelada.

O movimento, a pressão, as ameaças e as milhares de contas canceladas (eu não me daria ao trabalho, mas né, cada um se manifesta como acha que deve) são manifestações legítimas da expressão de uma parcela - que não é pequena - da população. A expressão do outro não deve ser menos legítima por ser diferente da minha. Não é assim que a gente joga esse jogo chamado democracia.

Cada consumidor tem um super poder, que é o de escolher para onde vai levar o seu dinheiro. Todo mundo tem direito ao boicote, como forma legítima de se manifestar sobre os temas que lhe são caros.

"Nunca uma exposição de arte foi cancelada" talvez seja verdade para exposições gratuitas e abertas ao público em geral (não pesquisei), mas a afirmação é completamente falsa se considerarmos o universo total das exposições de arte, incluindo aí aquelas que a gente precisa pagar ingresso para ver. 

Quando se cobra ingresso para uma exposição de arte e ninguém paga porque uma pessoa foi e disse "tá, ó, uma bosta", a exposição é cancelada e em seu lugar vem outra coisa. Isso acontece o tempo todo, não só com as artes plásticas: filmes saem de cartaz antes do tempo, peças de teatro e shows musicais encerram suas turnês mais cedo, porque o artista precisa comer, e pra comer ele precisa de dinheiro e pra ter dinheiro ele precisa cobrar ingresso. Se ninguém quer pagar pra ver esse show, o jeito é cancelar e fazer outro.

De onde vem a grana

O Santander Cultural é um espaço de acesso gratuito, o que torna essa coisa do boicote mais difícil - daí as manifestações mais fervorosas e medidas drásticas de quem vai precisar procurar outro banco, conhecer outro gerente, transferir todas as contas, avisar o patrão e/ou os clientes... é um baita de um esforço para fazer a sua opinião ser ouvida.

Acontece que o artista em exposição não tinha muitas preocupações - já estava bem alimentado porque as obras foram financiadas com dinheiro público.

Agora vejamos... se alguém pega o seu dinheiro, o dinheiro do pagador de impostos, para financiar um artista que faz uma obra que você considera de mau gosto, você não acha que merece dar uma opinião - para não dizer dar um escândalo? 

Você está pagando impostos porque precisa, pensando que, pelo menos, vai pagar o salário dos professores e os remédios da farmácia popular, mas em vez disso o seu dinheiro é usado para fazer uma coisa que você nem gosta (por exemplo, seja financiar um artista que não é do seu gosto ou pagar o mensalão de um corrupto) - não é revoltante?

Será que a liberdade de expressão deve ser financiada com dinheiro público? Não seria mais honesto fazer um financiamento coletivo para que a sua arte fosse apoiada apenas pelas pessoas que concordam com ela?

Antes do fim

Não posso terminar esse texto sem falar sobre o conteúdo da exposição. Quem defende a exposição, disse que não viu nada de mais. Quem é contrário à exposição, encontrou todo tipo de perversidade, e até crime, naquilo que viu. Eu só vi uma imagem, e só vou me manifestar sobre ela:

Qualquer imagem que sexualize crianças é um incentivo à pedofilia, porque a pedofilia é a inserção de uma criança em uma relação sexual. A minha opinião sobre esse assunto não é nada flexível: a sexualidade da criança não deve ser despertada. Isso significa que a gente não fala que criança namora, nem diz que a criança é sensual. Criança não tem decote, nem lábios carnudos. Criança não é homo, nem hetero. Criança é criança.

Talvez as pessoas sejam inocentes, ou bobas, ou se façam de bobas... talvez você não tenha jamais pensado nisso, mas existe um motivo porque muitos pais sequer colocam fotos dos filhos nas redes sociais, para evitar que imagens de crianças sejam usadas como objetos sexuais. É errado tratar as crianças dessa forma. Ainda que a criança da imagem não sofra nada, outra criança pode sofrer em seu lugar.

Como eu vou explicar isso aos meus filhos?

A exposição recebeu muitas crianças, em excursão escolar - desacompanhadas dos pais, e eu imagino que muitos deles não foram à exposição, ou não o fizeram antes do passeio dos filhos. Os pais confiam no discernimento da escola para disponibilizar às crianças o conteúdo adequado à sua faixa etária.

No entanto, quando falamos de um conteúdo sensível, a família tem o direito de saber antes a que tipo de imagens serão expostas as crianças, de escolher, na medida do possível, quando as crianças serão expostas a determinados temas.

A vida acontece o tempo todo, isso é certo, e muitas vezes a gente precisa encontrar explicações apropriadas para tópicos que não pensava ter que entrar tão cedo, mas a visita a uma exposição de arte que explora temas polêmicos e provocativos não é um evento acidental e inevitável.

Escola ensina, família educa. Se vamos manter esse discurso, precisamos ser coerentes com ele o tempo todo. Se os pais quiserem levar os filhos à exposição e ter conversas construtivas a partir dessas provocações, é um direito deles. Também é um direito dos pais preferir que os filhos não vejam essas imagens. A decisão - informada, consciente, deliberada - sempre é dos pais.

Quem é liberal nessa bagunça toda?

Parecia a situação mais irônica - a esquerda defendendo a instituição mais capitalista que existe e os liberais defendendo a censura. Estranho, pra dizer o mínimo... Mas o fato é que nossas definições de esquerda e direita já estão bem bagunçadas e é muito fácil confundir anarquistas, comunistas, com gente que é apenas hippie e se define como esquerda porque enxerga ali o pessoal do "paz e amor", assim como é muito fácil colocar conservadores e liberais no mesmo saco.

Para os conservadores, o problema maior era o conteúdo da exposição - inadmissível. Acho até que eles gostariam de poder censurar tudo de antemão. Criar uma comissão para filtrar o tipo de arte que enaltece o espírito ou algo assim...

Já para os liberais o grande problema é que a exposição foi realizada com dinheiro público - e embora o cancelamento da exposição não faça retornar aos cofres publicos o dinheiro, manda a mensagem sobre como eu quero que o meu dinheiro seja gasto.

Pra não deixar de falar, no estatismo autoritário não estaríamos tendo essa conversa porque os artistas já teriam sido fuzilados muito antes de pensar nessa exposição.

O liberal, nessa bagunça toda, é a pessoa que não liga pra quem é o artista, qual é o seu conteúdo, e que pode até prestigiar a obra, se for de seu interesse. Ele só não concorda que o dinheiro público deva ser investido nesse setor. A arte deve ser financiada por quem se identifica com ela. Simples assim.

Resumindo...


  • O artista tem o direito de fazer o que quiser e chamar de arte, assim como o público tem o direito de achar o que quiser da arte. As pessoas que acharam a arte de mau gosto têm todo o direito de boicotar a exposição, os patrocinadores, os apoiadores, enfim, quem elas quiserem. O boicote é e sempre será um meio legítimo de protesto, a maior arma do consumidor para se fazer ouvido.
  • Fazer arte com dinheiro público é questionável, para não dizer errado, porque muito embora a gente não queira só comida, mas também diversão e arte, é preciso, antes, ter a comida, para depois mandar dinheiro público para a diversão e arte.
  • Atribuir sexualidade à criança - homossexualidade ou heterossexualidade - é tão errado quanto estimular o namoro infantil, vestir a criança com roupas sensuais, enfim, todas essas coisas estimulam a pedofilia, e considerar isso arte é, no mínimo, mau gosto - essa é a minha liberdade de expressão em exercício.
  • Todo liberal tem direito à sua opinião, inclusive à sua opinião sobre os outros e sobre o que eles fazem. Todo liberal tem o direito a não querer financiar, direta ou indiretamente, aquilo que ofende à sua moral, aos seus princípios ou qualquer coisa que ele não gostar, não quiser, não desejar... Não é um liberal aquele que acha que o artista não tem o direito de fazer a arte que quiser.

A melhor parte

Precisamos falar, de novo, - sempre - sobre pecado. Precisamos falar sobre pecado de novo e de novo, porque se não estamos falando sobre isso, se deixamos esse assunto de lado, então não estamos lidando com ele. É muito mais cômodo não tocar no assunto. Assumir que eu faço coisas abomináveis, que eu as produzo naturalmente, rotineiramente, é assumir que eu sou abominável. Isso não pega bem.

Ninguém gosta de falar sobre câncer, mas não há como tratar sem tocar no assunto. Como o pecado, eu posso fingir que ele não existe e cumprir deliciosamente a minha lista de coisas para fazer antes de morrer - até que ele mesmo venha me lembrar de sua existência fatal e dolorosa.

O pecado é como uma droga. A gente sabe quem é ruim, a gente sabe que é bom. Alguns de nós conseguem focar na parte ruim, outros se deixam seduzir pelo lado bom. Todo mundo sabe que a melhor forma de resistir ao doce chamado da droga é não experimentar - se eu não souber o quanto é bom, eu consigo focar no quanto é mau. 

Mas não há como não experimentar o pecado. Não conseguimos não pecar porque é o nosso ser - somos pecadores - que nos leva ao pecado. Não é o ato que nos transforma, assim como não é a produção da primeira fruta que determina que árvore será aquela. Ela já era o que é desde a semente.

E o pecado é bom. O pecado nos coloca em vantagem diante de outras pessoas. O pecado nos dá prazer. O pecado cria atalhos confortáveis e evita conflitos. O pecado nos proporciona aquilo que nós achamos que merecemos. Às vezes, o pecado até parece justiça. É muito mais fácil pecar do que resistir. Essa parte da nossa vida em que não precisamos pensar na pessoa horrível que somos é boa porque é confortável.

Mas não é a melhor parte. Não é melhor porque para viver em paz com o pecado precisamos conviver com o medo, a raiva, a culpa. É uma pequena dose de veneno todos os dias para continuar vivendo a ilusão desse barato - que está tudo bem, está tudo certo.

O pior de tudo é que o pecado nos afasta de Deus. Não porque ele nos rejeita, mas porque é impossível ficar perto dele e do pecado. É incompatível. Quando tentamos chegar perto do Santo Deus, o pecado grita alto, revelando a culpa e a vergonha que escondemos debaixo de camadas e camadas de orgulho e boas ações. Somente o próprio Deus pode nos livrar do pecado, mas para isso precisamos falar sobre ele. 

Se não lutamos contra o nosso próprio pecado, não podemos ter comunhão com Deus. O sinal da comunhão na Igreja - a Ceia do Senhor, quando nos lembramos do sacrifício de Jesus para nos livrar do pecado - é precedido por um momento de contrição - a oportunidade para o arrependimento e a confissão, não pública, mas diante de Deus. É admitir que errei, e tenho errado, mas prentendo me esforçar mais para resistir à pessoa horrível que sou. É clamar para que Deus me ajude a ser mais parecido com Ele - santo, sem culpa, sem vergonha, sem dor.

Muitos se afastam da comunhão porque reconhecem o seu pecado, mas, de forma triste, não escolhem a melhor parte. A melhor parte não é ter consciência de quem eu sou e viver assim porque é natural - a melhor parte é receber o perdão e ser perdoado. A melhor parte é viver sem culpa, sem vergonha. É se perceber a cada dia sendo transformado - mais perto, mais amigo, mais parecido com Jesus.



Você não precisa se abster da comunhão por causa do pecado - se te contaram isso, então você só recebeu a mensagem errada. A comunhão não é para aqueles que não pecam, mas para aqueles que foram perdoados, e o perdão se estende a todos.

Você é linda, sim

Ultimamente tenho visto vários textos e publicações revoltados com os elogios. Parece que agora a gente tem que tomar cuidado com os elogios - linda entrou pra lista de palavras que o mundo politicamente correto não usa mais. Sim, a beleza foi problematizada. Alguns dias atrás vi um pequeno texto de um cara se desculpando por todas as vezes em que exaltou a beleza feminina, como se isso diminuísse a mulher de algum modo.

Algumas mulheres dizem que preferem ser fortes, inteligentes, independentes, mas ninguém disse que você precisava escolher. Tratamos a beleza como a superfície de uma pessoa vazia. Imagine só, uma pessoa inteligente pode ser corajosa, empática, feliz, sensível... mas uma pessoa linda não será nada mais do que isso. Pois é, aparentemente, a beleza, ao ser notada, exclui quaisquer outras características que uma mulher possui, é o que dizem os críticos.

Eu sinceramente não vejo porque ter que escolher, mesmo porque essa ideia de que mulheres lindas não podem ser cheias de conteúdo não passa de uma elaboração do mito da loira burra - preconceito disfarçado de problematização.



Vou chamar de linda, sim, sabendo que lindeza é algo que está nos olhos da gente. Cada um enxerga a beleza de um jeito diferente, e tudo bem com isso. O importante, mesmo, é enxergar a beleza que existe dentro da gente. E se não conseguir enxergar, de alguma forma tentar ser uma pessoa linda. A gente finge que é, até finalmente ser.

Como a música de Caetano e até o dicionário diz, gente linda não é apenas agradável à vista. Isso seria, no máximo, bonito. Para ser lindo, precisa ser admirável, marcante, digno de ser lembrado. Então, se você for realmente uma pessoa linda, eu não vou me desculpar em dizer. Vou continuar dizendo, como um dos melhores elogios que se pode fazer a alguém: você é linda, sim.

Comédias para ler

Não é fácil encontrar uma boa história de comédia, porque a maioria deles usa a comédia como recurso para contar outro tipo de história, e não como fim em si mesmo. A procura por um livro que simplesmente faça rir pode levar à frustração dos livros de piada da seção de humor.

Ser engraçado de propósito é muito difícil. É um talento. Ser engraçado sem ser bobo, infantil ou pornográfico é um desafio - a gente vê como é complicado encontrar um filme de comédia que realmente faça rir sem precisar tirar as crianças da sala.


É até difícil encontrar uma imagem de alguém lendo comédias. Procure por fotos de pessoas lendo e vai encontrar gente muito séria, compenetrada, concentrada em uma história profunda. Certamente eles não estão lendo esses livros aqui.

O Fantasma de Canterville é um livro delicioso, para ser devorado rapidamente e render boas gargalhadas. É um livro curto, um clássico que dá pra ler em uma sentada - até porque é meio difícil de parar de ler. Oscar Wilde brinca com americanos e britânicos usando do sarcasmo para tirar sarro dos tradicionais e daqueles que não respeitam as suas tradições.

Entre os autores contemporâneos, não posso falar de comédia sem mencionar o meu amigo Felipe Fagundes, ele escreve no Não Sei Lidar e recentemente começou a publicar algumas histórias e ganhar alguns prêmios (não sou só eu quem acha que ele é muito bom). No Wattpad, onde você pode ler de graça, tem dois livros completos: Não Somos Um e Não Sei Lidar com Gênios, além de alguns contos. Agora ele está publicando o Não Sei Lidar com Malas. Os livros também podem ser adquiridos na Amazon no formato digital.

Para unir o peculiar humor britânico e a ficção científica (não é curioso o uso dessas duas palavras conjugadas?), sempre teremos Douglas Adams. Gostar da sutileza elefantil do humor britânico é um requisito para apreciar os livros.

Se você prefere um humor brasileiro, um livro bem curtinho de Jorge Amado: A morte e a morte de Quincas Berro d'Água - que virou filme há alguns anos. Incidente em Antares, do Érico Veríssimo, também é engraçadíssimo, mas para chegar nas gargalhadas é preciso passar por toda a primeira parte que é interessante, mas não é muito cômica. As crônicas do outro Veríssimo não precisam ser mencionadas, né?

Muita gente indica as comédias de Sophie Kinsella e Carina Rissi, mas eu não posso indicar a Carina porque nunca li, e a Sophie porque só li Becky Bloom... e não gostei. Não que ela não seja engraçada, quer dizer, deve ser... mas o estilo de vida da Becky me deixa nervosa. Eu não consigo achar graça porque fico preocupada hahahah #amãedosamigotudo

Todos os livros que eu citei estão disponíveis na minha biblioteca. E você, tem alguma comédia pra mim?

Jogar fora sem jogar no lixo

Eu estou sempre batendo na tecla do desapego, do destralhamento, do descarte porque a gente tem essa tendência a acumular coisas e não há organização que resista ao excesso de coisas. A gente pode colocar tudo em ordem alfabética, em caixas com etiquetas e catalogadas por cor e data de fabricação, mas se a única função daquele objeto é ocupar espaço, talvez o melhor seja desapegar.

A gente já aprendeu a desapegar de muitas coisas. As roupas que não servem mais vão para alguém que está precisando ou para o bazar da instituição que você apoia, junto com os sapatos que não são mais usados. Os livros e revistas são facilmente revendidos ou doados para a pessoa interessada ou em sebos e bibliotecas. Aquilo que está sobrando na nossa casa pode estar faltando na casa de alguém. Muita coisa encontra novo lar nas vendas e trocas facilitadas pelas redes sociais. Mas nem sempre é asim tão simples.


O que fazer com as meias que ficaram sem par? As tampas de pote? Algumas coisas realmente não têm mais uso. Parece que a única solução é jogar fora, até que a gente se dá conta que fora não existe realmente, porque a gente tira o lixo de casa, mas não tira o lixo do mundo. Existem formas melhores de colocar essas coisas fora de casa.


Meias

As meias velhas, que perderam a elasticidade ou ficaram sem par, meias furadas e manchadas, todas as meias que você não usa mais e estão ocupando espaço na gaveta viram cobertores e meias novas com a campanha Meias do Bem da Puket. Mais de 600mil pares de meias já foram reciclados desde o início da ação. Não precisa ser da marca, qualquer meia pode ser doada nos pontos de doação (encontre um perto de você!).


Remédios

O que você faz com aquele restinho de remédio? Geralmente as medicações vêm na quantidade exata para o tratamento, mas não é incomum que sobre alguma coisa. Eu costumo manter os remédios na caixa até o vencimento - vai que precisa de novo, né? a gente diminui a conta da farmácia - mas depois de vencidos acabava jogando no lixo. O problema é que remédios são componentes químicos resistentes que contaminam o meio ambiente.
Algumas redes de farmácia funcionam como postos de coleta para o descarte correto de medicamentos vencidos, como a Nissei, a Raia e a Panvel. As Unidades Básicas de Saúde também devem fornecer as informações sobre os postos de coleta da sua cidade - se não forem elas mesmas o local adequado para o descarte.

Lâmpadas

Além do perigo de uma lâmpada quebrada no lixo machucar alguém, as lâmpadas podem conter substâncias químicas, como o mercúrio, que contaminam o meio ambiente. A maioria dos pontos de venda também faz a coleta do material após o uso. Em Foz do Iguaçu: Panorama, Enerluz, Instelpa, Ande e Produtel. É aconselhável se informar diretamente com a empresa sobre os horários e condições da coleta.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos é uma lei que obriga os produtores e distribuidores de diversos produtos potencialmente poluentes a fazer a logística reversa - a coleta daquilo que não serve mais para o descarte adequado. A maioria das empresas citadas está cumprindo uma obrigação legal. Seja qual for a intenção, o meio ambiente agradece - e a sua casa já pode ficar livre dessas tralhas.

A glamourização do sofrimento

Não está fácil viver. Ou melhor, não está fácil conviver. É difícil conhecer gente sem ter que lidar com os limites entre o politicamente correto e o politicamente incorreto. Não é que o mundo tenha ficado chato, o mundo continua como sempre. Mas tem gente chata demais habitando esse planeta azul, misericórdia.


Nunca foi fácil desenvolver relacionamentos - sei lá, não sou dessas pessoas que fazem amizade em ponto de ônibus - mas as coisas ficam mais complicadas quando dentro de cada pessoa há um ponto sensível que não pode jamais ser tocado. E o problema aqui não é não saber lidar com certas situações, mas que com certas situações tornou-se impossível lidar. Não é exatamente uma falta de sensibilidade, mas a dificuldade de lidar com um excesso de pontos sensíveis, como se os ovos a serem evitados tivessem se multiplicado pelo chão.

O problema é que parece que é chique sofrer. Ser minoria oprimida virou uma questão de status. Todo mundo gosta daquela boa e velha competição de miséria. Não dá pra reclamar de nada sem encontrar vinte pessoas piores que você. Ninguém pra consolar. A empatia é aquele dispositivo que às vezes não pega sinal direito.

De repente, todo mundo quer sofrer. É um tal de #classemediasofre e #whitepeopleproblems pra dizer que, poxa, a gente sofre também. E as minorias? As minorias estão em êxtase com a glamourização do sofrimento. Sempre sofreram, sim, mas isso nunca chamou a atenção de ninguém. O sofrimento das minorias nunca teve tanta relevância como agora. E é assim que, em vez de aproveitar o momento para parar de sofrer, resolvemos inventar motivos novos para reclamar.

Outro dia ouvi dizer que gente branca não pode elogiar o cabelo afro, dizer que acha lindo, que queria ter um cabelo assim. É, passamos da fase em que ninguém mais pode dizer que alguma coisa é feia sem entrar em uma guerra - como se a estética não fosse algo pessoal, como se eu dizer que acho feio tornasse a coisa feia pra todo mundo. Agora também não pode achar bonito, não a menos que você tenha a carteirinha do clube.

Não pode xingar os coleguinhas. Também não pode elogiar. E se ignorar... se ignorar é pior. É o povo na luta, na luta pelo sofrimento. Quando as pessoas querem reclamar de alguma coisa, vão encontrar motivos sombrios até para terem sido bem tratadas em algum lugar.

Mulher tinha desconto na balada por uma questão machista - os homens vão pagar pra entrar numa festa se tiverem razões para acreditar que está cheia de mulheres. Mulher não tem mais desconto na balada - agora uma parte das feministas chora porque não é justo as mulheres a mesma quantia já que supostamente ganham menos. Se proibir a entrada de mulheres, machismo. Se mulher entrar de graça, machismo. Não tem como ganhar um argumento de uma mulher, porque a carta do machismo vence todas no Supertrunfo.

O problema é que a gente não soube lidar com o sofrimento. O problema é ter se acostumado com a posição de vítima e não saber conquistar outro papel na sua história. Imagine viver sem precisar se preocupar com os motivos porque as pessoas estão fazendo as coisas e simplesmente aproveitar as oportunidades. Imagine viver mais preocupado em superar as dificuldades e fazer a sua história do que em teorizar "por que as pessoas fazem isso comigo".

Não falo isso para banalizar os males da sociedade, mas acontece que a gente luta contra as injustiças não com discurso e choro, mas com ações que fazem a diferença. Não resolve a minha vida dizer pra todo mundo que eu sou tão capaz quanto qualquer homem/branco/insira aqui a categoria privilegiada. Nada fala mais do que aquilo que você faz, e é por isso que eu sou do time que levanta e faz. Sem choro.

Existem três tipos de jogadores. Os que jogam com cheats, os que jogam sem cheats e os que choram porque não sabem os cheats. Você sabe quem são os melhores jogadores.

Rotina

Algumas pessoas têm a sorte de ter uma rotina que nunca muda. 
Algumas pessoas têm a sorte de ter uma agenda totalmente flexível.

Algumas pessoas têm a sorte de não trabalhar no fim de semana. 
Algumas pessoas têm a sorte de poder tirar um dia de folga no meio da semana. 

Algumas pessoas têm a sorte de acordar cedo com toda a disposição. 
Algumas pessoas têm a sorte de conseguir ficar acordadas até mais tarde. 


Essa semana eu fiz a minha revisão semanal na terça-feira. Eu não tenho todos os sábados, muito menos os domingos, para sentar e avaliar com tranquilidade os dias que passaram e os que virão. 

Às vezes o meu sábado cai na segunda, na terça, na sexta... E tá tudo bem. O meu mundo continua girando porque eu não esqueço que eu preciso, em algum momento, parar para refletir e planejar.

Às oito da manhã a minha caixa de entrada estava vazia. Eu gosto de começar o meu dia nas primeiras horas da manhã. Por outro lado, não é seguro pra mim voltar para casa dirigindo depois das dez da noite.

Há quem diga que a manhã é o melhor horário para fazer esse tipo de tarefa. Eu discordo, embora a manhã funcione muito bem pra mim. O melhor horário para fazer as atividades de planejamento é o horário que você funciona melhor. A hora de ouro. A hora da maior atenção. O período de mais alta concentração e energia.

Não é copiar, é adaptar.
Não é imitar, é se inspirar.
Não é fórmula, é princípio.
É o que funciona pra você.

Underwood & Cia.

Acho que aconteceu quase ao mesmo tempo. A política deixou de ser assunto para os tiozinhos que leem jornais de papel no café-da-manhã e passou a fazer parte dos assuntos da turma do churrasco, das redes sociais e da cultura pop. Todo mundo sabe - mais ou menos - o que está acontecendo aqui e mundo afora e tem - mais ou menos - uma opinião sobre isso.

Com as tramas políticas dos noticiários conquistando a audiência, a ficção tratou de tentar promover o entretenimento em conformidade com os novos interesses da população. Embora esteja cada vez mais difícil competir com a realidade, temos algumas séries que podem entreter os que aguardam a próxima temporada - da ficção ou da vida real.



Essa série não entende o conceito de equilíbrio. Ela só sabe ser muito boa ou muito ruim. E falando em muito ruim, passou por uma fase péssima entre a quarta e a quinta temporada, mas voltou tão boa para a sexta que não dá nem pra acreditar.
O trabalho sujo para esconder os escândalos - ou pelo menos diminuir o estrago, as campanhas eleitorais na disputa pelo salão oval e os bastidores do poder - e os bastidores dos bastidores. Pessoas horríveis, segredos de Estado, primeiras-damas e primeiras-amantes.
Tem cinco temporadas na Netflix, a sexta acabou de terminar na TV americana. Volta no ano que vem para a sétima e última temporada da série.

Ué! Essa série não é de tribunal?! Nos Estados Unidos alguns cargos jurídicos também são eletivos, portanto quem almeja um bom cargo público, ainda que no Judiciário, normalmente está buscando uma carreira política, e pode transitar entre funções judiciárias, legislativas e executivas, conforme as suas ambições e do seu capital eleitoral.
Escândalos sexuais - que no Brasil ninguém liga, mas parece que nos Estados Unidos têm bastante impacto nas eleições - pipocam toda hora, assim como os casos de corrupção. No entanto, os casos judiciais conseguem ser ainda mais interessantes que a trama dos personagens: bitcoins, sequestro de dados, carros que dirigem sozinhos, entre outros temas tecnológicos que desafiam a justiça são debatidos na corte, sem falar nas liberdades em geral que volta e meia são confrontadas.
A série já está finalizada e todas as sete temporadas estão disponíveis na Netflix.

Passando para as conspirações internacionais, a história de Homeland começa com uma agente da CIA desconfiada de que um aclamado herói de guerra seja, de fato, um agente convertido e reinfiltrado no país pela Al-Qaeda.
As sucessivas temporadas mostram que é difícil saber em quem confiar - aparentemente todo mundo tem intenções ocultas. Essa rede complexa num contexto de terrorismo e relações internacionais frágeis é terreno fértil para criar e cultivar teorias conspiratórias, temperadas pelo drama dos transtornos psicológicos da personalidade principal.
As temporadas são curtas. Quatro delas estão na Netflix, mas a série acabou de terminar a sexta e não tem previsão para encerrar os trabalhos.

Espiões da KGB vivendo como uma perfeita família americana enquanto trabalham em missões secretas fazendo o trabalho da mãe russa no solo inimigo durante a Guerra Fria. É ou não é a série que estava faltando no mundo?
Com uma qualidade incrível, eu poderia inclusive arriscar dizer que é a melhor série em exibição no momento. Eles equilibram todos os aspectos da vida dos espiões com tamanha coerência, que até parece que é fácil.
Ah! A série foi construída de forma fechada - quer dizer que é uma história com começo, meio e fim, sem enrolação pra aproveitar a audiência, sem roteirista sem saber o que fazer depois de fechar uma trama. Três temporadas estão na Netflix, a quinta acabou de ser exibida na TV americana. Retorna na Fall Season para a última temporada.

Além dessas, outras séries utilizam a política como combustível para as suas histórias. Já me recomendaram, mas eu ainda não vi Designated Survivor, sobre um alto funcionário que assume a presidência dos Estados Unidos quando, inesperadamente, todo mundo morre. Na linha cômica, temos Veep e Parks and Recreation. Dizem que é bom, eu nunca vi. É por sua conta e risco.

Conhece outra série bacana com esse tema? Indica aí!

Adivinha

Quanto mais a gente convive, mais profunda é a impressão de conhecimento mútuo. É uma sintonia fina: os mesmos desejos, os mesmos gostos, as mesmas piadas ruins. Parece que vocês compartilham uma mente, e de repente não mais. Subitamente, a conexão falha e os pensamentos que pareciam ser transmitidos no ar que respiramos juntos parecem não chegar ao destino. 

É incrivelmente decepcionante descobrir que o óbvio não é tão óbvio para as outras pessoas, mesmo para aquelas que pareciam conhecer tão bem o que se passa em sua mente.


Cedo ou tarde, os valores familiares, as experiências pessoais, as emoções e todo o histórico de quem eu era antes de você vão aparecer para mostrar que você não se casou com a sua cópia autenticada - ufa! - e que a sutileza e a telepatia não são as melhores formas de comunicação.

A gente quer viver como num filme, e é de fato mágico quando um olhar comunica tudo aquilo que poderia ser dito, mas a vida real inclui todos os ruídos de comunicação que fazem com que vinte pessoas extraiam conclusões e encadeiem ações diferentes a partir de uma frase interpretada no contexto de cada um. Às vezes a mágica não funciona. Na maioria das vezes, é melhor dizer com todas as letras do que arriscar o desentendido.

Ninguém tem culpa de não ter entendido o subentendido. É o risco que a gente corre pela falta de clareza. Quando é óbvio pra mim que eu não estou dando conta, outra pessoa pode achar que eu tenho tudo sob controle. Quando é óbvio pra mim que quem espalhou o conteúdo de uma gaveta precisa voltar para colocar as coisas no lugar, esse fato pode estar longe, distante, desaparecido da cabeça da pessoa, que nem lembra mais de ter aberto a tal gaveta.

Não é charmoso dizer "não" quando no fundo quer aceitar, ou dizer "sim" com ressentimento. Essa ideia de que "mulher diz uma coisa querendo dizer outra" é coisa de adolescente, isso não funciona para pessoas adultas. Eu gostaria de dizer que é um mito machista, mas infelizmente sei que há pessoas que vivem nessa encruzilhada de códigos verbais.

Como pessoas maduras, crescidas, emancipadas, nós adquirimos o direito e o dever da comunicação integral - nós podemos dizer sim, sem o constrangimento de parecer estar muito a fim; nós podemos dizer não, sem a culpa de estar deixando alguém na mão. Nós podemos verbalizar as nossas emoções sem aquele jogo de "não é nada, tá tudo bem", quando na realidade não está. Podemos abrir o jogo com "não está nada bem, mas eu não quero conversar sobre isso agora, na verdade, só o fato de falar com você está me irritando nesse momento". Podemos, sim! Não precisa nem de grosseria. A sinceridade salva vidas. E casamentos.

E por falar em casamntos, nós podemos pedir, solicitar, ordenar ou combinar para que as pessoas façam coisas em casa, sem ficar esperando que surja nelas a vontade ou o senso de dever que as leve magicamente a cumprir uma tarefa desagradável que nem está incomodando. Nós podemos chamar todo mundo para participar do planejamento e organização doméstica, para explicar porque as coisas precisam ser feitas e o que acontece quando ninguém faz. 

É preciso verbalizar, sim, mesmo que pareça óbvio. Pode parecer que você vive com alguém que lê a sua mente, mas só parece. O relacionamento exige comunicação. A comunicação exige clareza. 
Cla-re-za. 

Disque Empatia

Empatia. Quando foi a primeira vez que você ouviu essa palavra? Ou melhor, você consegue se lembrar desde que momento a palavra "empatia" significa algo para você? Nos últimos dez anos, a palavra "empatia" saiu das profundezas do dicionário para se tornar um dos termos mais relevantes dos dias atuais.

Não é à toa. A própria física explica o movimento da internet em busca de empatia: para cada ação de uam força, há uma reação de igual magnitude em direção oposta. O aumento da opressão, solidão, violência, intolerância, ódio, ignorância faz com que aumente o interesse por temas como empatia, amor, compaixão.

O fato de que cada vez mais pessoas estão falando sobre isso também tem efeito imediato sobre a procura: as principais buscas pela palavra pedem pela sua definição. O que, exatamente, é empatia?



Dizem que o termo foi criado no meio artístico, para descrever aquela compreensão mútua que ocorre entre artista e espectador por meio da obra de arte - sabe quando você consegue sentir exatamente aquilo que o artista quis dizer com aquela obra? O conceito se expandiu para as relações humanas, chegando a ser descrito como um tipo de inteligência emocional. Na psicologia, empatia envolve tanto a capacidade de compreender o sentimento do outro como a capacidade de sentir o que o outro sente. A empatia não é um sentimento, mas um canal de conexão para que uma pessoa possa reconhecer, compreender e reproduzir a emoção alheia como se fosse sua.

Só por essa breve explicação, dá pra ver porque o termo se tornou tão importante nos nossos dias. As pessoas, mais do que nunca, querem ser compreendidas. As pessoas, mais do que nunca, precisam que a sua dor seja compreendida. É claro que isso não é novidade nenhuma. A sabedoria tradicional no mundo inteiro traz princípios, provérbios e ensinamentos milenares para ativar a empatia, nos mandando andar com os sapatos do outro, comer um quilo de sal com o vizinho, fazer com o outro aquilo que gostarias que fizessem contigo, amar o próximo como a ti mesmo.

O movimento pela empatia tem conquistado cada vez mais seguidores, gente que, com toda boa vontade, está tentando, ou planejando tentar, ou querendo, em algum momento, transformar o pedacinho de mundo em que vive em um lugar melhor. Mas a empatia não é um superpoder. A empatia tem limites. Nem toda boa vontade do mundo é suficiente para vencer a barreira da ignorância.

Eu não consigo reconhecer, compreender ou experimentar o sentimento do outro se eu nunca tive experiência particular semelhante ou parecida. São diversas as situações em que por mais animado que seja o grupo e ainda que seja grande a vontade de ajudar, todas as ações empenhadas nesse sentido resultam em pouco ou nenhum resultado para alterar a realidade. Às vezes até atrapalha.

A empatia não funcionou porque a empatia é limitada àquilo que conhecemos. Como um canal de conexão, o problema da falta de empatia nem sempre é de quem não consegue ser empático. O problema de conexão pode estar do outro lado, seja porque se trata de uma situação realmente peculiar ou porque estamos falando de uma pessoa realmente fechada, e aí não adianta reclamar da falta de empatia dos outros.

Certa vez alguém reclamava que as igrejas negligenciavam um grupo específico de pessoas - muito específico mesmo. A pessoa que reclamava tinha toda a razão. A igreja, realmente, não sabe lidar com o assunto que a ela era tão afeto. Outra pessoa lhe perguntou o que a igreja poderia fazer para contemplar essas pessoas, quais são as ações específicas que ela, como especialista com toda a sua vivência, recomendaria. A resposta foi um balde de água fria: já estamos muito sobrecarregados enfrenando esse problema para ensinar a vocês como podem nos ajudar. A conexão foi perdida.

Muitas vezes as pessoas não fazem nada - ou fazem tudo errado - não porque não se importam, mas porque não sabem o que fazer. Cabe a quem está sofrendo - sim, todos têm um papel ativo nessa história - esclarecer a sua dor: do que você precisa? o que está atrapalhando o seu avanço? como os outros podem ajudar? Isso inclui pedir ajuda, se fazer vulnerável e permitir que o outro faça parte da sua história. Talvez a sua ajuda esteja precisando de ajuda para poder te ajudar.

Vale lembrar aquela frase que eu sempre repito: nada é óbvio. Comunique-se. Não fique esperando que o outro entenda os sinais, pode ser que ele não fale esse idioma. Verbalize. Esclareça. Não adianta reclamar que ninguém te entende se você nunca explica. Ninguém consegue reconhecer aquilo que nunca conheceu. Permita-se ser conhecido. Ninguém vai se conectar com você se não atender o chamado da linha da empatia. A empatia encontra o seu limite no outro.