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Já nasce sabendo?

A criança não sabe falar ou andar, mas aperta os botões do controle remoto e desliza o dedo pelo celular com propriedade. Os adultos parecem impressionados e exclamam, "Eu não sei como ela aprendeu a fazer isso, parece que já nasceu sabendo". Mas ninguém nasceu sabendo. As crianças aprendem a lidar com a tecnologia assim como aprendem todas as coisas: observando e imitando.

É importante lembrar disso. Estamos sendo vigiados o tempo todo, nosso comportamento, ações, atitudes, palavras, tudo isso é absorvido pelas crianças à nossa volta. Enquanto elas tentam entender como o mundo funciona, são guiadas pelos adultos em sua vida. Isso não é informação nova, mas é bom lembrar.

Quer dizer que as crianças são um sinal importante da vida que estamos levando: a criança aprendeu primeiro a abrir um livro ou acender a tela do celular? como são as brincadeiras? quando ela brinca de ser mãe, o que é ser mãe para ela? A criança não nasce sabendo, mas ela começa a aprender muito antes do que se imagina...

Rotina doméstica: o que funciona?

Há um tempo atrás circulou uma história nas redes sociais sobre os maridos que não fazem nada em casa porque a mulher não pediu ajuda. A gente já falou por aqui que a falta de comunicação é um problema fundamental e que nada é óbvio. Então sim, existe uma parcela de responsabilidade, mesmo que seja só aquele um por cento, da pessoa que sempre faz tudo sozinha e não se comunica, não verbaliza o quanto está cansada sobrecarregada etc. 

Mas a história abordou um ponto interessante e importante que é um problema muito comum: o domínio das tarefas domésticas pelas mulheres. E não estou falando simplesmente  que as mulheres fazem mais coisas, mas principalmente do fato de que só ela sabe o que precisa ser feito e só ela sabe como fazer.


Existem muitas checklists disponíveis na internet e muitas formas de gerenciar os afazeres domésticos, mas ainda há uma centralização muito grande dessas atividades sobre a mulher. No início do casamento, até alguns anos atrás, as tarefas de limpeza da casa ficavam no meu aplicativo de organização pessoal. Eram minhas tarefas porque elas estavam na minha lista de coisas pra fazer, que só eu tinha acesso.

Hoje nós temos um sistema diferente. Primeiro, porque ele é impresso e fica na parede da lavanderia, disponível e acessível a todos os habitantes da casa porque todos podem e devem participar das rotinas que não são minhas, nem de nenhuma outra pessoa. São rotinas da casa, os responsáveis por crumpri-las são as pessoas que moram nela. Segundo, porque é uma lista que não deixa de descrever o óbvio. Ninguém pode dizer que não sabia o que era pra fazer, ou que não sabia como fazer.

É importante atentar para o fato de que querer envolver todo mundo nas tarefas significa abrir mão do controle. Não dá pra exigir que todo mundo faça tudo exatamente como você faria. É um trabalho em equipe. As crianças não vão executar tão bem as tarefas que você faz todos os dias há décadas, e isso se aplica a qualquer adulto que não passou por isso na infância. A curva do aprendizado exige um bocado de paciência, e é essa falta de paciência que, muitas vezes, deixa a pessoa trabalhando sozinha. Ninguém aprende a fazer com perfeição sem errar.

Um grupo de mulheres se junta para criticar um pai trocando fralda exatamente da mesma forma que um grupo de homens quando uma mulher manobra o carro.

Eu já falei algumas vezes que não faço faxinas. Aqui cada um tem sua rotina e a casa também tem uma rotina daquilo que precisa ser feito diariamente, semanalmente, a cada três dias, quinze dias e assim por diante.

Por muito tempo, as tarefas semanais eram divididas ao longo da semana para não acumular todo o serviço da casa para um dia só - eu não gosto da ideia de perder um dia inteiro fazendo limpeza. Talvez a sua rotina não permita isso. Funcionou para mim, e até hoje grande parte ainda é dessa forma, mas a nossa rotina mudou. A vida é dinâmica e essas mudanças operacionais precisam acontecer para acomodar as outras mudanças. Não dói.

O que tem funcionado por aqui é uma profissional que vem quase semanalmente para fazer principalmente essas tarefas que não são diárias, enquanto a manutenção da ordem no dia a dia é feita pelas pessoas que moram na casa, conforme a disponibilidade de cada um.

A gente tem que descobrir o que funciona pra gente e viver sem culpa pelo modo como a nossa vida funciona. É quase inevitável que alguma das pessoas fique com a maior parte das tarefas, ou com as tarefas mais chatas. A gente não faz sempre o que gosta, e dividir as tarefas domésticas meio-a-meio é uma conta complicada de se fazer. Qual seria o critério da divisão?

O que a gente pode fazer é ajustar o sistema até chegar no nosso ideal, que dificilmente vai se encaixar no padrão de qualquer outra pessoa. Você não tem que se sentir mal porque o que funciona pra você não é o que os outros consideram justo. Só você está na sua pele.

O fator fundamental é que a rotina da casa não é minha ou do marido ou da diarista... é a rotina da casa, e todas as pessoas envolvidas têm responsabilidade. É uma mudança na forma de ver as coisas que muda o comportamento de todo mundo. 

Isto é uma intervenção

Todo mundo tem uma mania esquisita, né? A pessoa que se veste todo dia de azul, aquela que só usa camisas polo, a pessoa que só dorme depois de lavar a louça, a pessoa que deixa acumular até adquirir pequenos colegas de apartamento. Tem gente que é obcecada com uma cor, uma série, um estilo musical, gente que faz coleção de tampinha de garrafa, DVD, sapatos. Aquele cara que em todas as conversas dá um jeito de falar sobre o seu assunto preferido, aquele que não pode ouvir de um assunto que já desconversa.


A maioria dessas manias é bem comum, tão comum que a gente nem percebe que é meio esquisito aquela pessoa estar sempre com a cor azul em alguma peça de roupa... mas de vez em quando as nossas manias e obsessões passam dos limites, quando a gente percebe que aquele colega que gosta de cerveja nunca foi visto sem uma cerveja na mão. Quando ninguém aguenta mais o amigo que não para de falar da ex, está na hora de uma intervenção.

O Brasil estava com uma mania de conservadorismo que a gente achou até engraçadinha. Os tiozinhos vestindo a camisa da seleção e indo às ruas protestar. Aquele monte de gente ocupando as principais avenidas do país para dizer que é contra a corrupção. Gente que nasceu nos anos noventa pedindo a volta dos militares. Estranhamente fofo.

Alguns políticos se aproveitaram da situação e ganharam notoriedade. Essa onda de conservadorismo não cresceu à toa, mas não foram esses políticos os seus criadores... eles apenas surfaram a onda. A onda é criada por um vento que incomoda a água que, de outra forma, estaria calma. Quanto mais forte o vento, maior a onda. O vento, no caso, foi o fracasso, agora evidente, da gestão que se dizia "de esquerda", e que, implementando muitas medidas estatistas, veio a criar uma marolinha crescente, que está quebrando só agora. É o Brasil a beira do caos.

Não adianta querer se enganar e dizer que o que estamos vivendo agora é fruto de dois anos, e não de dez. Não quero dizer que o governo atual fez tudo certo ou nada errado, o que eu estou dizendo é que é errado afirmar que a nossa situação atual foi causada, exclusivamente, por este governo, ou pelo anterior, assim como é errado assumir que o Brasil não passaria por esta situação se o governo anterior não tivesse caído.

As políticas que guiaram o governo dos últimos doze anos não são inéditas, e seus efeitos não são desconhecidos. O crescimento do controle estatal é capaz de gerar uma aparência de bem-estar muito realista, mas quando passam os efeitos da realidade virtual, o efeito colateral aparece: o mundo de repente fica esquisito, como se estivesse girando de cabeça pra baixo, e demora um pouco para voltar ao normal. É sempre assim. Outro efeito interessante é que a gente tende a culpar a realidade real porque é nela que a esquisitice toda acontece. Durante a realidade virtual esava tudo bem... e aí dá saudade.

Um caso mais esquisito é o das pessoas que acabam gostando desse jeito esquisito de viver. Elas já se convenceram de que "esse mal é para o bem", mas perderam a perspectiva do bem vindouro. Ficam obcecadas com o gosto amargo, e começam a achar que isso é que é o bom, é isso que faz bem. Quanto pior, melhor. Começam a desejar coisas absurdas, uma doença, um câncer, um tiro na cabeça. Aquilo que faz mal, há de fazer bem.

É por isso que o Brasil precisa de uma intervenção. Não é uma intervenção militar, comunista, conservadora ou anarquista. É uma intervenção sanitária. Precisamos lembrar como é ser normal... na verdade, talvez seja importante aprender o que é ser normal, e chamar as coisas pelo que elas são. Está na hora de recuperar a sanidade.

O que fazer sem gastar dinheiro?

Hoje em dia é difícil dizer que você faz alguma coisa sem gastar nada... sempre tem uma conta de internet, energia elétrica, alguma coisa que alguém já pagou pra você não ter que pagar. Sem contar que a maioria das coisas que a gente começa não gastando nada, quando se empolga, acaba tendo que colocar dinheiro... mas tem muita coisa que dá pra fazer sem assustar o escorpião que mora no bolso.



Por exemplo, dá pra pegar aquela grana que você gastaria comendo em restaurante e fazer a sua própria comida. Muita gente torce o nariz para a cozinha, mas encarando como um hobbie você pode encontrar prazer na culinária, ter uma alimentação mais saudável e economizar dinheiro.

Outra atividade que faz super bem é o voluntariado. Não é bom só para quem você ajuda. Você pode desenvolver uma habilidade importante para o seu crescimento profissional, ou simplesmente fazer algo que você gosta para ajudar outras pessoas. Você também pode doar as suas horas para fazer algo sem nenhum interesse, e ainda assim vai ganhar relacionamentos, empatia, inteligência emocional...

A corrida é uma opção barata para quem está precisando se mexer, principalmente se você já tem um bom tênis. A maioria das cidades tem parques e pistas de corrida, além das corridas de rua, muitas delas com participação gratuita. Quer se exercitar, mas não curte essa agitação toda? Talvez yoga seja a sua resposta.

Talvez fazer algo mais artístico... Desenhar? Escrever? Lápis e papel ou, se você for digital, uma conexão com a internet e o aparelho que você está usando para ler esse texto. Mais fácil do que escolher exatamente o que fazer para liberar aquela veia artística bloqueada na infância. Caligrafia, poemas, contos, retratos, origamis... papel + caneta = um milhão de possibilidades.

Você busca desenvolver uma paixão ou desafiar-se a tentar algo novo? Esse negócio de "eu não sei fazer" não é bem uma justificativa para não começar. Qualquer habilidade precisa de algum tempo de prática para se desenvolver e aprimorar. Se você acha que não está bom, continue tentando... Pesquise sobre o assunto, peça a opinião de outras pessoas, procure a ajuda de um amigo. Não vai ser difícil perceber a evolução se você se dedicar.

Você sabia que para ser um leitor você não precisa comprar livros? As instituições de ensino, em geral, têm um bom acervo. Se você não estiver mais estudando, pode procurar uma biblioteca pública ou um amigo que goste de emprestar livros (eu gosto!). Nas redes sociais você pode encontrar grupos de leitores que trocam livros e livros viajantes, que você recebe de alguém e depois manda para outra pessoa, só paga o frete que, para livros, é baratinho. Falta de dinheiro não é desculpa para não ler, nem falta de interesse. Sobre o que você quer ler? Não precisa ser literatura. Comece com um assunto que te empolga e logo a leitura deixa de ser uma obrigação.

Existem muitas outras atividades, e é claro que estamos focando em atividades produtivas. Não se gasta muito sentado na frente da TV o dia todo, mas também não se ganha nada. Qual é a sua dica para passar o tempo sem mexer no bolso?

E se você tivesse dinheiro sobrando, o que faria?

O que significa ser tia

"Tia" é uma palavra de valor afetivo. Mais do que a irmã da sua mãe ou do seu pai, tia é uma pessoa de confiança da família. Não, não estou falando das tias que só aparecem no Natal para perguntar das namoradinhas. Estou falando daquela relação especial de uma pessoa que poderia ser uma completa estranha, mas que é como se fosse da família, porque está e sempre esteve presente de corpo e alma. Ser tia é estar presente.



Eu tenho um sobrinho "de verdade", filho da minha cunhada, e tento dar muito tempo de qualidade para ele quando estamos juntos, ser aquela tia que é mais do que um laço de família, mas um laço de coração. Mas eu tenho outros sobrinhos que eu também acompanho, perto ou longe, com o mesmo amor. É uma alegria assistir o desenvolvimento dessas vidas e, de alguma forma, poder contribuir com esse desabrochar. Ser tia é um privilégio.

É interessante como se desenvolve esse relacionamento, conquistando a confiança e a parceria das crianças e dos pais. Ser tia é sentar para brincar e fingir que é criança de novo porque a criança precisa disso.. e até a mãe agradece pelo tempo em que a criança fica ocupada. É dar os presentes mais legais, sem desagradar os pais. É ter responsabilidade e não fazer nada com a criança que os pais não permitiriam. Aliás, é ser o vigia dos pais quando eles não estão por perto. Ser tia é não deixar dar refrigerante pra criança.

Dizem que avó é mãe com açúcar, então tia deve ser mãe com adoçante. Porque as tias não fazem todas as vontades das crianças, só algumas... e se a mãe der permissão, a tia ajuda a repreender. É uma parceria mesmo, porque não existe jeito de cuidar de uma criança, ou duas, ou três quando se é um casal ou uma pessoa só. As tias são a vila que cuida da criança do jeito que os pais querem que ela seja cuidada. Ser tia é respeitar.

Não entendam errado: respeito não é inércia. Tias também dão conselhos e até palpites, apontam erros e chamam a atenção para questões importantes. As tias de coração sabem que não existe um jeito só de se criar uma criança, e que os pais têm todo o direito de escolher o jeito deles. Até mesmo as tias que não são mães têm algo a contribuir, porque o relacionamento delas com as crianças é diferente, e elas podem perceber primeiro algumas coisas, ou obter informações de diversas formas que vão sugerir às mães apenas por amor. O que seria das mães sem as tias que sabem fazer tudo isso com respeito e carinho? Ser tia também é instruir.

Toda criança tem sorte de ter muitas tias. 
Sorte da mãe também.
Tia é irmã do coração.

3 apps para leitores

Não é verdade que as pessoas que se apegam aos livros tenham alguma aversão tecnológica. Essa disputa entre livros impressos e eletrônicos ignora o fato de que quem realmente gosta de ler, é capaz de extrair o máximo de qualquer dispositivo, formato e ferramenta. Aqueles que preferem ler em telas ou em papel podem se beneficiar da tecnologia para organizar as suas leituras, conversar com outros leitores e, é claro, comprar livros.



O Skoob é a ferramenta definitiva e essencial para leitores. No Skoob você pode catalogar os livros que você tem; organizar as suas leituras presentes, passadas e futuras; interagir com outros leitores; fazer avaliações e resenhas dos livros que você leu; trocar e ganhar livros nos sorteios que as editoras promovem por lá.

O aplicativo torna muito fácil a tarefa de cadastrar os livros com o leitor de código de barras. Após a identificação do livro, você pode conferir o preço nas principais lojas online, as avaliações dos leitores, adicionar à sua lista de desejados ou atualizar o seu status de leitura.

O Wattpad é um lugar de aventuras - seja a sua aventura ler histórias de autores novatos e/ou desconhecidos ou publicar a sua história para o conhecimento geral da população. No Wattpad é possível não apenas ler histórias novas, mas também comentar, avaliar e até conversar com o autor. Eu não tenho conhecimento de nenhum Machado de Assis que tenha sido descoberto no Wattpad, mas sei que tem muita gente talentosa esperando para ser descoberta.

O Feedly é para você que está lendo esse blog agora. Você lê outros blogs também? Acompanha colunas de revistas eletrônicas e sites? Gosta desse pessoal que publica tirinhas na internet? Fica um tempão sem lembrar de acessar um site e quando vê tá cheio de posts não lidos?

O Feedly organiza todas essas leituras em um aplicativo muito simples. Basta inserir o endereço eletrônico do site que você quer ler. Todas as publicações aparecerão na tela, inclusive conteúdos novos. O feed é a melhor forma de ficar por dentro do que a gente está publicando (porque nem sempre a gente consegue divulgar imediatamente nas redes sociais que tem post novo!).

Todos os aplicativos indicados podem ser acessados pelo computador ou instalados no seu celular. E você, tem alguma indicação para os leitores? Conta aí nos comentários!

Descanso sagrado

Existem dois tipos de pessoas: as que não veem a hora de parar de trabalhar e as que não conseguem perceber que já passou da hora. Mentira, existe um terceiro tipo. São as pessoas que se satisfazem com o seu trabalho, mas que também respeitam o seu descanso.



Descanso é tão sagrado que, na tradição cristã, a primeira pessoa que descansou foi o próprio Deus. Não apenas descansou, como recomendou fortemente que todos fizessem o mesmo e até instituiu leis determinando o descanso periódico.

Pelo menos trinta por cento de cada dia é dedicado ao descanso fisiológico, e não há orgulho nenhum em dizer que se consegue viver bem dormindo só cinco, quatro ou três horas por dia. Assim como não existe nenhuma vantagem em trabalhar sete dias por semana, ou em não tirar férias há seis anos. Azar o seu.

Muita gente ainda não entendeu que todo o tempo de descanso faz parte do tempo de trabalho - falando de trabalho em sentido amplo, isto é, qualquer atividade que se executa com consciência. Todas as horas de descanso contam para o restabelecimento do vigor. É muito mais eficaz - e inteligente - trabalhar seis horas com total capacidade, do que trabalhar doze com trinta por cento.

Algumas coisas só acontecem no deescansar. Dormir não é "perda de tempo". Na verdade, quem não dorme está perdendo o tempo em que deveria realizar processos mentais que ocorrem durante o sono. Quem não tira um dia da semana para fazer absolutamente nada está perdendo os insights que somente uma mente descansada consegue produzir. Quem nunca tira férias está perdendo a chance de fazer alguma coisa nova - talvez aquela coisa que sempre quis fazer - e viajar é só uma dessas coisas.

Não existe justificativa para sacrificar a sanidade mental em nome da ocupação constante. Isso não é produtividade, nem esperteza, não é nada de que se orgulhar. É falta de organização ou, na melhor das hipóteses, a incapacidade de saber a hora de parar.

É difícil descansar, mas é necessário. Não dá pra esperar não ter nada pra fazer. Esse dia nunca vai chegar, porque sempre existe alguma coisa que pode ser feita. A gente precisa mesmo colocar o descanso dentro do nosso planejamento. E parar de achar bonito esse negócio de trabalhar demais.

A treta do Dia das Mães

O último grito politicamente correto é que não é certo comemorar o Dia das Mães. A problemática levantada nessa última semana teve vários lados. Gente que apoia o Dia das Mães e faz uma homenagem em cada rede social. Mas também teve gente que pregou a abolição desta data comercial que causa sofrimento a todo mundo que não tem mãe. Teve gente no meio do caminho, falando de Dia da Família e Dia de Quem Cuida de Mim. Parece que as coisas estão meio assim, tanto faz, que nem o dia da mãe da gente se respeita mais.


Uma amiga compartilhou uma situação complicada: a escola da mais velha comemora o Dia das Mães, mas a escola da mais nova, não. No domingo, a mais velha tinha um monte de lembrancinhas e presentinhos que fez em sala de aula, e a pequena, constrangida, foi arrumar pela casa alguns presentes para entregar. A solução, para alguns, é a abolição total do Dia das Mães. Ninguém mais faz, pronto.

Será? Parece aquela solução do dono da bola. Se o resultado não está legal, a gente acaba com o jogo. Ninguém mais pode brincar. É assim que crescem os adultos despreparados, incapazes de lidar com as frustrações e que só sabem jogar o jogo com as regras que eles inventaram.

Por falar em jogo, eu sempre odiei a dança das cadeiras. Quando criança eu odiaaaava essa brincadeira. Era muito frustrante, aquela bagunça, a correira, criança caindo em cima da outra, com cadeira e tudo, uma brutalidade. Eu só brincava disso se obrigada, e tratava de ser a primeira a sair do jogo. Na proposição das brincadeiras, eu sempre tentava fazer com que brincassem de outra coisa, mas nem sempre essa ideia era aceita. 

Seria diferente se eu tentasse impedir que os outros brincassem. Eu não gostava da brincadeira e fazia questão de não participar, mas privar os outros de algo que, para eles, era divertido, seria egoísmo. Pior que isso, seria não saber lidar com a diferença.

E olha só... não é justamente o pessoal do "Dia da Família" que gosta de exaltar as diferenças? Dá um nó na cabeça, você pode escolher o sabor de família que você quiser, menos o tradicional. Quem não gosta do tradicional não pode se contentar em ficar com o sabor pizza, colocaram na cabeça que quem elogia o sabor tradicional está, obviamente, falando mal de todos os outros sabores de biscoito família.

Não é necessariamente verdade. E ainda se fosse... todo mundo tem o direito de tecer os seus comentários, expor ideias, dizer que não gosta disso ou daquilo... Não é errado dizer que eu gostaria que todo mundo só fizesse o que me agrada. No fundo, é o desejo particular de cada um de nós, o nosso pequeno tirano interior fica todo faceiro. Mas a gente sabe que é só um desejo, e que na realidade a gente não pode, nem deve, obrigar ninguém a ser nada, só por causa dos meus desejos e preferências, sejam elas tradicionais ou diferentonas.

Sempre existiu criança sem mãe e/ou sem pai. Criança criada pelos avós, pelos tios, criança criada pelo Estado. Tirar o Dia das Mães da escola não faz com que ele desapareça da mídia, do shopping, da casa do vizinho, até mesmo na própria casa da criança, pode ser que uma tenha mãe e a outra não. 

Em vez de evitar o assunto, está aí uma oportunidade ótima para trabalhar a frustração e a saudade, celebrar as mães que se foram e as que virão, homenagear pessoas que exercem a figura materna reforçando e fortalecendo esse vínculo, destacar e apresentar às crianças as diferenças entre as famílias em que o papel de mãe é exercido por outra pessoa. 

É assim que o dia das mães para de doer.

Feliz Dia das Mães!

Lidos em 2018

A Cíntia fez um post sobre os livros que ela já leu esse ano, e eu achei interessante mostrar os que eu li no primeiro trimestre também. Esse ano começou com muitas leituras, mas acabei desanimando bastante em março e só cheguei ao fim de um livro, bem curtinho. Entre essas leituras, tem o Desafio das Chocólatras, um clube de leitura de Belo Horizonte que eu frequento sempre que vou pra lá na semana do encontro (aconteceu uma vez) e as leituras do Clube do John, que é o clube em que eu realmente participo aqui em Foz do Iguaçu.

Ficção

Where Willows Grow (Kim Vogel Sawyer)

É uma ficção cristã, lembra muito os livros da Robin Jones Gunn, mas para um público mais maduro - uma mistura de Glenbrooke com Sisterchicks. A história começa em 1936 e é narrada pela perspectiva dos dois personagens principais - um casal esperando o terceiro filho, com uma fazenda que não produz e muitas contas a pagar. O pai de família acaba viajando para trabalhar em uma construção e esse casamento precisa resistir à distância, às dificuldades financeiras, às dúvidas e ao medo. Ler essa história foi como assistir a uma comédia romântica - a gente já sabe como acaba e fica feliz em encontrar todos os clichês pelo caminho, mas ainda se diverte. Se existe comfort book, esse é o meu.

Extraordinário (R. J. Palacio)

Esse foi o primeiro livro lido para o Desafio das Chocólatras, para a categoria "Infantojuvenil". É uma leitura rápida, bonitinha, fofinha... se você for adolescente ou tiver um coração de manteiga pode até chorar. O livro conta a história de um menino que, por um defeito genético, possui várias deformidades no rosto. Os pais superprotetores, o bullying e as dinâmicas das relações sociais da infância são bem exploradas. O livro também traz a perspectiva de diversos personagens, que narram a história em primeira pessoa. É uma gracinha.

Raio de Sol (Kim Holden)

Li para o mesmo desafio literário, na categoria "New Adult" - parece que existe um gênero literário pra cada três livros publicados. É a história de uma menina que acaba de se mudar para fazer faculdade em um lugar onde não conhece ninguém - e dá um jeito de melhorar a vida de todo mundo que ela conhece. A protagonista é chata, chata demais, a pessoa mais chata da história. Aquela tentativa de construir a personagem defeita até nos defeitos, ela é muito chata. As outras pessoas são legais, a história é - clichê, mas - legal e todo o mistério sobre o passado e o futuro dos personagens, que vai sendo revelado aos poucos - é interessante e bem pensado. É o que salva o livro.

A Lista (Cecelia Ahern)

O último que li para o desafio estava na categoria "Autor não brasileiro, americano ou inglês". Acho que irlandesa vale, né? Eu gosto muito da escrita da Cecelia, de como ela equilibra fantasia e realidade em suas histórias, e eu acho que foi exatamente disso que eu senti falta. Estava esperando aquele momento mágico chegar, mas esse livro é muito mais pé no chão do que os outros que já li. A história acompanha uma jornalista com uma lista de cem pessoas que pareciam não ter nada em comum, mas essa era a sua tarefa. Encontrar algo que rendesse uma matéria unindo essas cem pessoas. Aliás, essas pessoas são ótimas, fazem valer a leitura.

Não Ficção

44 Cartas do Mundo Líquido Moderno (Zygmunt Bauman)

São vários pequenos textos escritos para a coluna do sociólogo em uma revista italiana. O formato torna a leitura muito agradável - os temas são diversos e têm começo, meio e fim em poucas páginas. Fala sobre o tempo e a modernidade, mas, nesse contexto, trata dos relacionamentos, da privacidade, da internet, da moda, da educação... Não é apenas uma leitura, é uma conversa, e uma conversa interessante.

Darwin vai às Compras (Geoffrey Miller)

Psicologia e Marketing se misturam nesse livro que pretende explicar o padrão de consumo das pessoas... e é uma explicação muito boa! A partir de seis características gerais (inteligência, abertura, conscienciosidade, afabilidade estabilidade e extroversão) o autor, que é psicólogo evolucionista, mostra como e por quê consumimos o que consumimos. Não é apenas um livro importante para quem quer vender - um produto, um serviço ou a si mesmo... - mas também para repensar algumas escolhas pessoais. Você precisa mesmo disso ou está caindo no truque da publicidade?

Contracultura (David Platt)

O primeiro livro do Clube do John esse ano foi incrível. É mais um daqueles livros que tratam de temas que afligem toda a humanidade - pobreza, tráfico de pessoas, sexualidade, prostituição, crianças abandonadas, liberdade religiosa, entre outros... - sob a perspectiva cristã. O autor deixa bem claro que os cristãos não apenas precisam dar uma resposta a essas aflições, mas que essa resposta não é mais um tapinha no ombro, é um choque cultural porque o evangelho rompe com a cultura do pecado. É difícil parar de ler, e eu já estou com vontade de ler de novo.

Questões Fundamentais da Vida (A. Roger Merill e Rebecca R. Merill)

O título do livro não deixa muito para a imaginação. É mais uma obra sobre produtividade, sob uma ótica que eu acho ideal: produtividade é um estilo de vida, não é somente trabalho. É claro que o trabalho é uma das questões fundamentais da vida, mas o dinheiro, o tempo e a família também são. O livro fala muito bem sobre todos esses assuntos, com as experiências do casal bem vivido que enriquecem a leitura. Apesar de já ter lido muito sobre esse tema, não foi uma leitura cansativa. O  conceito de equilíbrio foi o melhor que já vi, e alguns conceitos apresentados já fazem parte da minha vida.

Em Busca da Espiritualidade (Carlos Queiroz)

O último livro que li no primeiro trimestre é bem curtinho e objetivo ao criticar a espiritualidade brasileira contemporânea, inclusive entre alguns cristãos, comparando-a com o relacionamento que Deus deseja ter com as pessoas, e a expressão de espiritualidade que ele deseja ver em nós. Dá pra ler em uma sentada.

Nesse comecinho de mês, eu já terminei mais um livro e estou terminando outro... mas esses eu conto no próximo trimestre. Como estão as leituras de vocês?

Não se aplica

As pessoas estão sempre se lamentando sobre verdades universais que parecem imutáveis. Situações com as quais a gente tem que se conformar na vida. Quem casa, se afasta dos amigos. Quem faz faculdade, não tem vida social. Quem tem filhos, não sai mais com o marido. As pessoas falam isso como se lamentassem o fato, mas não como quem acha que isso deveria mudar. As coisas estão destinadas a acontecer de um certo jeito. A vida é assim.

Até que aparece alguém pra dizer que não precisa ser assim. Alguém que conseguiu fazer diferente, alguém para mostrar como fazer...  mas estamos tão acostumados com o nosso conformismo que a atitude mais lógica é invalidar toda a experiência do outro. Transformamos histórias que poderiam servir de inspiração em "ponto fora da curva".



Vamos desqualificando aquela experiência inspiradora, para que ela não sirva de inspiração a ninguém. Quem consegue o que eu não consigo tem habilidades sobre-humanas, nasceu pra isso, ou teve muita sorte. É gente especial, é gente diferenciada, privilegiada, e quem sou eu pra me comparar...

Quando começam a aparecer os defeitos, aí sim, vemos que é gente como a gente, pessoas de carne e osso, que foram lá e fizeram acontecer, que é gente que pode inspirar a gente. Certo? Ou pegamos os defeitos e usamos para desvalorizar a inspiração. Como é que uma pessoa dessas pode servir de medida para qualquer pessoa? Essas falhas, ranhuras e imperfeições não servem para nos aproximar, mas para jogar para debaixo do tapete tudo de bom que aquela pessoa construiu. O marco da perfeição se torna um alvo, tudo para não perturbar a paz da nossa zona de conforto.

Há também aqueles que já tentaram alguma vez, ou muitas vezes, ou que tentaram até cansar. Gente que jurou nunca mais tentar de novo, e nesse grupo existe muita gente diferente que acha que é tudo igual: de repente, não existe jeito certo ou jeito errado de tentar - toda tentativa é válida para usar como desculpa para nunca mais tentar de novo.

Também não existe um requisito mínimo - cada um sabe o quanto pode aguentar. Na verdade, se você ouviu falar de alguém que tentou e não conseguiu, é o suficiente. Já pode usar essa história como inspiração. Essa, e não aquela que diz que as coisas podem ser diferentes. Dá muito trabalho.

Quando eu digo que a experiência do outro não se aplica a mim, eu não preciso fazer mais nada. Não preciso mudar nada. Nenhum esforço extra é exigido. É aquela sensação de acordar cedo e lembrar "ah, hoje é feriado! Posso voltar a dormir!". Mas não é feriado. Os prazos estão correndo. Os clientes estão esperando. A vida continua enquanto a gente dorme no conforto da ilusão. Entre um sonho e outro, nos lamentamos e imaginamos um mundo diferente, sem cogitar que quem precisa mudar sou eu.

Páscoa para Cristãos

Dois cristãos compartilhavam os planos para a Páscoa. “Na minha Igreja, faremos um jantar de Páscoa!”, disse o primeiro. “Nós também fazemos!”, o outro respondeu. “Mas vocês fazem o jantar tradicional da Páscoa judaica?”, o primeiro perguntou. “Claro! Assamos o cordeiro, tudo feito segundo o ritual! Eu faço isso há anos, posso lhe ensinar”. E começou a dar instruções, que deveria comprar o animal ainda vivo, para que ele fosse morto do modo correto – “voltado para Belém”, ressaltou – e cuidado com o ponto da carne porque se estivesse ao ponto, estaria errado. 

Desde aquele dia fiquei com a pergunta “Por que os cristãos comemorariam a Páscoa judaica? Se a Páscoa judaica não faz parte da nossa cultura (olha a apropriação!), como celebrar a Páscoa cristã?” Eu entendo a ideia de usar esta “semana santa” para relembrar a última semana antes do sacrifício redentor, mas precisamos tomar cuidado para que a celebração da Páscoa não se torne um ritual de luto, ou pior, um ritual de nada. 


Muitas pessoas passam, logo antes da Páscoa, por um período de mortificação. Privam-se de determinadas coisas, prestam mais atenção à sua conduta, tomam uma atitude de respeito e reverência que muitas vezes não existe, e quando existe não é tão presente, como na Semana Santa. Parece que o adjetivo da semana nos lembra que precisamos manter a santidade – vamos proclamar um ano santo! – mas a verdade é que toda essa reverência traz um clima de velório. Jesus morreu. Coitadinho. Parece o aniversário da morte de um ente querido. É um ritual de luto. 

É curioso que as pessoas queiram viver a última semana antes da crucificação, observando os detalhes mais específicos, mas deixem de observar a sua conduta em todas as outras semanas de vida. Nós sabemos o que Jesus fez antes de ser crucificado, mas também sabemos o que ele fez nos três anos anteriores, por isso, nos outros dias, vale a pena perguntar: o que faria Jesus? Se não é para segui-lo que reencenamos a semana santa, então não passa de um ritual vazio. 

Se já estou crucificado com Cristo, e ele me deu uma nova vida, eu não preciso de um feriado para lembrar que Jesus nasceu, morreu, ressuscitou e agora eu vivo para Ele – isso é todo dia. Os feriados existem para nos dar uma oportunidade de falar aos outros sobre isso. A Páscoa é a celebração da vida em Jesus, uma ótima desculpa para proclamar a salvação.

Fútil

A internet é uma vitrine de pessoas: a maioria das pessoas que usam essa vitrine, isto é, que têm acesso à internet, o fazem pelas redes sociais. Alguns dizem que não dá pra conhecer uma pessoa através dessa vitrine - dizem que ela só mostra uma face, muito maquiada e editada para criar uma impressão. Outros dizem o contrário, que na internet a gente percebe a verdade oculta sobre os outros, aquilo que fica contido na vida real, transparece no virtual.



Provavelmente é tudo verdade - a gente maquia e edita demais o que vai para as redes sociais, mas, ainda assim, a gente revela muito mais do que pretende em cada publicação. Tem gente que usa a internet como ferramenta de trabalho, outros para cultivar hobbies e compartilhar interesses, conhecer pessoas e encontrar conhecidos, muita gente também só está aqui pela zoeira.

Cada um, do seu jeito, procura ser interessante, e esse jeito de ser interessante depende muito de como se quer exibir, como você quer ser conhecido. É muito comum usar redes sociais diferentes para exibir traços diferentes - gente séria no Linkedin, culta no Facebook, mas com um Twitter oculto para falar a abobrinha que quiser. 

Nesse esforço de construir uma imagem muitas vezes a gente deixa de falar, pra não parecer que (insira aqui característica indesejada). Eu tenho certeza que nem todos os posts desse blog são interessantes pra você, porque não acho possível que mais alguém se interesse por absolutamente tudo o que me interessa. (Se eu estiver errada, entre em contato, precisamos nos falar). Mas ainda assim, a questão da "imagem" às vezes é uma barreira.

Quem nunca deixou de falar alguma coisa - em qualquer lugar da vida ou da internet - para não parecer fútil? Existe até uma expressão - "guilty pleasures" - pra falar de coisas que a gente gosta, mas tem vergonha de confessar.

No entanto, não existe em cada um de nós um pouquinho de "futilidade"? Quem fala sobre política e economia não pode trocar receita de bolo? Falar sobre cuidados de beleza e cosméticos tem algum impacto na capacidade de uma pessoa de falar sobre outros assuntos? Quem define o que é um interesse nobre e o que é guilty pleasure?

Ninguém pode ser interessante o tempo todo. Aliás, ser interessante o tempo todo é um jeito fácil de se tornar uma pessoa chata. As pessoas são diferentes e têm interesses diferentes - até mesmo a sua alma gêmea, aquela pessoa que combina com você em tudo, pode, sei lá, torcer para o Corinthians.

Ninguém é culto o tempo todo sem ser chato. Ninguém é engraçado o tempo todo sem forçar. Ninguém é uma coisa só.