A Biblioteca Mucelini


Desde pequena meu sonho sempre foi ter uma biblioteca só minha. Eu cresci com o privilégio de ter uma biblioteca em casa, mas não era minha biblioteca. Eram livros dos meus pais, livros para pessoas adultas, cujos assuntos não me interessavam muito. Mesmo assim, não posso negar que o simples fato de crescer sendo observada por todos aqueles livros criou em mim uma curiosidade enorme, uma paixão pelos livros e uma vontade de ter a minha própria biblioteca.

Quando eu era solteira, gastava boa parte da minha renda todos os meses comprando livros. Me casei com outro rato de biblioteca, e quando nós juntamos os nossos acervos, ganhamos mais um montão de livros dos nossos amigos e familiares.

Ninguém achou estranho o pedido peculiar: não queremos móveis, queremos livros. Engraçado, curioso, mas não estranho. "Típico desses dois", alguém chegou a comentar. E assim surgiu a Biblioteca Mucelini.

A Biblioteca Mucelini em seu domicílio atual
O acervo é formado por presentes de amigos e algumas - poucas - compras por impulso. A maioria dos artigos passa antes por uma lista na verdade é uma planilha de livros desejados. Os livros entram na lista de desejos por diversos motivos: livros importantes em áreas de interesse, edições legais, clássicos, livros que eu já li e quero que os outros leiam também, livros que eu quero que meus filhos leiam... Sem contar aqueles casos em que simplesmente rola um clima, uma simpatia, uma atração ali na livraria. Em vez de comprar por impulso, tiramos uma foto e colocamos na lista. Funciona 8 em cada 10 vezes.

A biblioteca é aberta aos amigos, com artigos do acervo emprestados pelo Brasil afora. Eles sabem de quem é o livro, e eu sei com quem o livro está. Se não há necessidade urgente, pode ficar pelo tempo que precisar. Não tem multa, não tem velha chata impondo o silêncio

Aqui não existe essa neura de conservar os livros em seu estado original. Não pretendo vendê-los, isso para mim não tem valor. Livros que foram realmente lidos e bem aproveitados, que visitaram pontos de ônibus, salas de espera e filas de banco, esses livros possuem marcas. Essas marcas contam histórias. Livro marcado é livro feliz.

Bom estado de conservação é um padrão suficientemente bom. Perfeição não é exigida.

Não confunda esse leve desapego com algum desleixo. Não é isso. Existem limites para aquilo que um livro pode sofrer, assim como existem limites para o sofrimento humano. A gente aguenta a fome das onze ao meio-dia, mas existe um limite que esbarra na dignidade humana. Os livros são amados, são cuidados, mas assim como nós temos o direito de envelhecer e ostentar as marcas do tempo, também os livros podem e devem ser desfrutados com prazer, sem ter que se preocupar se está marcando a lombada ou não.

Durante quase todos os anos da minha vida eu desfrutei de bibliotecas diversas. Essa é a minha pequena forma de retribuir. Posso lhe indicar um livro?