Donas de Casa Desesperadas

O título parece até uma redundância. Quando alguém fala em "dona de casa", a imagem que vem à cabeça é de uma pessoa que sofre. Aquela senhora que aparenta ter vinte anos a mais, vestindo seu avental e chinelos, lenço na cabeça e vassoura na mão. A expressão do rosto é de desespero.

Não é pra menos. A dona de casa é a pessoa responsável pelas tarefas consideradas mais desagradáveis no ambiente doméstico. Lavar a louça, passar a roupa, limpar a bunda de criança. Aquele serviço sem reconhecimento, sem cooperação, sem apoio e sem fim. Mas o cachorro que derruba a lixeira depois de um dia de faxina ou a criança fazendo xixi no sofá não estão entre os motivos que levaram as rainhas do lar ao desespero ao longo dos anos. (Embora muitos episódios semelhantes tenham servido de estopim para uma crise nervosa...)

Não ter escolha


Por muito tempo, as mulheres tinham um papel na sociedade. Casa, marido, filhos. Não necessariamente nessa ordem. Os meninos cresciam para ser engenheiros, cientistas, operários, motoristas, jornalistas, professores, advogados, médicos, contadores, fazendeiros, banqueiros... essa lista nunca diminuiu. As meninas já tinham o seu destino traçado desde o primeiro choro. Casa, marido, filhos. Não necessariamente nessa ordem.

"Eu uso meus conhecimentos de física para assar esse peru."
Sempre houve uma ou outra teimosa, mas essas exceções apenas confirmavam a regra de que as mulheres viviam como formigas, cumprindo o único papel na sociedade que havia sido designado para elas. Esta vida sem escolhas ainda é realidade de muitas mulheres que vivem em sociedades menos desenvolvidas.

Algumas pessoas são mais confortáveis com a estabilidade, ou simplesmente resignadas. Quem não tem esse tipo de personalidade pode realmente entrar em desespero, especialmente aquelas mulheres que não possuem muitas habilidades domésticas. Desejar viver de outra forma quando não há outra forma para se viver é desesperador.

Ter escolhas demais


Muita coisa aconteceu no mundo moderno desde então. A mulher conquistou diversos direitos e conseguiu oportunidades e espaços em áreas onde nunca antes fora vista. Trabalho, voz, voto, salário, educação superior, carteira de motorista, anticoncepcional, eletrodomésticos, movimentos sociais. Todas essas coisas contribuíram para conduzir a mulher moderna aos dias de hoje.
A jornada dupla da presidenta não é fácil.
De "simples dona de casa" para "além de tudo, dona de casa". Precisa trabalhar para ser bem-sucedida, complementar a renda doméstica, ter satisfação na vida. Precisa cuidar da casa, porque hoje em dia ninguém mais consegue manter uma empregada doméstica e é preciso ter um pouco de higiene pelo amor de Deus. Precisa ser mãe porque afinal de contas quem pariu Matheus que o embale. Precisa dar atenção ao marido porque se ele não encontrar em casa vai procurar na rua. Precisa ser excelente em todas essas coisas, porque você é mulher, você é a mulher maravilha, você é multifuncional.

O machismo contribui para esse cenário. Muitas coisas de homem se tornaram coisas de todo mundo, enquanto muitas coisas de mulher continuaram sendo coisas de mulher. Os brinquedos das crianças não mudaram. E a mulher, que é também dona de casa, entre outras coisas, é desesperada. Desesperada de culpa, porque ela não é um polvo e não pode fazer com excelência oito coisas ao mesmo tempo. Desesperada por não saber escolher o que é mais importante. Desesperada porque está cansada, não só do trabalho doméstico - de tudo.

Não poder escolher


Somos uma geração de mulheres que chegou ao mercado de trabalho para buscar e provar a igualdade de gênero. Cada uma de nós cresce com esse dever moral de honrar todas as mulheres do passado que lutaram pelos nossos direitos, pela nossa liberdade. Precisamos conquistar o mundo. Precisamos provar que elas estavam certas. Precisamos provar que homens e mulheres são iguais.

Mas, apesar de tudo, ainda existem mulheres que querem ser simples donas de casa. Mas essa não é uma opção viável. Ser dona de casa hoje é se contentar com a mediocridade. Ela é vista como a dondoca sustentada pelo marido, que não faz nada o dia inteiro, afinal de contas, com todos os eletrodomésticos que temos hoje...

Então elas se tornam mães. e se intitulam "mãe em tempo integral". Um título melhor porque, além de dar uma ocupação a mais, dá um significado altruísta à sua escolha: deixei a carreira pelos meus filhos. A METI é julgada, sentenciada e condenada pela sociedade. Eu criei meus filhos trabalhando quarenta e quatro horas por semana e estão todos ótimos. Essas mulheres vão criar uma geração de crianças mimadas. Foi pra isso que você estudou? Pra limpar bunda de criança?
Sabe o que ela quer? Não ser julgada pelo movimento feminista por fazer uma escolha livre fora das suas expectativas.
A dona de casa contemporânea está desesperada porque ela não encontra o apoio de que precisa para ser quem ela quer ser. Pior que isso, suas irmãs, amigas e colegas a olham com inferioridade, enxergam-na como uma traidora das conquistas femininas, uma coitada que se rendeu ao sistema. "Moça, você é machista" porque você escolheu não tomar o seu lugar no mercado de trabalho. Moça, você não tem ideias próprias. Moça, você não escolheu ser dona de casa, sua escolha não foi livre ou consciente, seu cérebro está dominado pelo machismo. Moça, você está sozinha. E desesperada.