O Problema com os Direitos: arrogância

"Eu tenho meus direitos!" É provável que cada um de nós já tenha proferido estas exatas palavras, ainda que de brincadeira ou somente na continuação mental da briga que você acabou de perder. Os direitos não são o problema, mas existe um problema sério com os direitos: não saber lidar. Sabe aquelas pessoas que não sabem ter as coisas? Aquela pessoa que abusa da boa vontade alheia? Aquela pessoa que negligencia a si mesma?

O direito de lutar pelos direitos é uma das melhores coisas da democracia. Mas pra tudo existe abuso. Pra tudo.
Dois extremos resultantes do nosso mundo desequilibrado e um ponto de equilíbrio cada vez mais perto da extinção demonstram o que houve de errado com a luta pelos direitos e qual atitude precisamos ter para mudar essa situação.

Mal acostumado você me deixou


Ter direitos nada mais é do que obrigar alguém a fazer algo por nós. Não seja ingênuo. Todo direito de alguém corresponde a uma obrigação em contraparte, que pode inclusive ser transferido a alguém que não tem nada a ver com isso.
Você tem direito a educação. A obrigação correspondente é repartida entre o Estado e a família (artigo 205 da Constituição). Para cumprir sua obrigação, o Estado contrata um professor, a quem transfere o dever de lhe conferir a educação a que você tem direito. Esse professor é pago com o dinheiro proveniente de impostos, que vem de contribuintes diversos: gente que estudou, gente que não estudou, gente que não está nem aí. Todos são obrigados a pagar impostos para sustentar, entre outras coisas, um sistema educacional no qual todos têm o direito hipotético de estudar, apesar de não possuir vagas para todo mundo que tem esse direito.
Vê como é complicado? Nenhum direito seu diz respeito somente a você. Qualquer direito que você tenha afeta a vida das outras pessoas, obrigando-as que façam, deixem de fazer ou deixem de obter alguma coisa, que inclusive pode ser também um direito delas.

Passagem grátis para quem anda de ônibus, paga por quem não anda de ônibus. Justo?
Mas essa transferência de responsabilidades a quem não tem nada a ver com isso nem é o grande problema com os direitos. O problema maior é que muita gente aparentemente não sabe que, apesar de termos muitos direitos, mas não temos direito a tudo e não podemos criar direitos na nossa imaginação, nem expandir de forma infinita os direitos que realmente temos. Daí surgem os arrogantes, com seus pseudo-direitos - eles acham que têm um direito que não existe.

Se ofende com qualquer coisa. Arruma briga por besteira. Quer processar todo mundo. Inventa direitos que não existem. Está sempre com a razão. Teima com todo mundo que o contraria. Quer levar toda e qualquer situação às últimas consequências. Seria o cliente perfeito para qualquer advogado, se não fosse igualmente chato na hora de pagar os honorários.
Sófocles foi à loja, comprou um liquidificador e pediu para entregar na sua casa. Ao chegar em casa, resolveu que não precisava de liquidificador nenhum. Ligou na loja e pediu pra cancelar a compra por motivo de: não quero mais. O vendedor disse que ele já tinha comprado e que a compra não seria cancelada. Sófocles respondeu: "Eu tenho meus direitos". Então ele descobriu que tem vários direitos, mas não esse. O direito de devolução sem justificativa (aka direito de arrependimento) só existe para compras fora da loja. Sófocles ficou chateado.
Parece chato dizer que não podemos expandir os nossos direitos ao infinito e além. Acontece que aumentar os seus direitos significa aumentar o fardo que outra pessoa está carregando para sustentar os seus direitos. E isso simplesmente não é justo. Existe um limite mínimo de direitos que torna a nossa sociedade mais feliz e solidária, mas existe também um limite máximo de expansão que não pode ser ultrapassado sem comprometer estabilidade e sustentabilidade da própria sociedade.

E se eu disser que esta senhora já tem 34 anos? Os orientais não envelhecem, né...
O que eu quero dizer é que em vez de criar uma geração de pessoas confiantes e conscientes, de alguma forma nós erramos na dose de algum ingrediente e acabamos com um bando de arrogantes que confundem "direito à alimentação" com "direito a almoçar Doritos", garantido pelo "direito de gritar e fazer escândalo para constranger todos à minha volta a fazer a minha vontade". A pior notícia: às vezes quem faz o papel de mimado sou eu, é você.

Continue acompanhando a série para conhecer os outros personagens e descobrir como não cair na armadilha da arrogância.