O problema com os direitos: ingratidão

"Eu tenho meus direitos!" É provável que cada um de nós já tenha proferido estas exatas palavras, ainda que de brincadeira ou somente na continuação mental da briga que você acabou de perder. Os direitos não são o problema, mas existe um problema sério com os direitos: não saber lidar. Sabe aquelas pessoas que não sabem ter as coisas? Aquela pessoa que abusa da boa vontade alheia? Aquela pessoa que negligencia a si mesma?




O direito de lutar pelos direitos é uma das melhores coisas da democracia. Mas pra tudo existe abuso. Pra tudo.

Não faz mais do que sua obrigação


Existe algo muito perigoso quando você transforma algo que não é vital em um direito fundamental. Dá pra classificar os direitos que temos hoje conforme a qualidade (ou a existência) de vida possível sem eles. Boa parte deles são privilégios que todas as pessoas, no mundo ideal, deveriam poder usufruir. Este é o problema do Direito: ele trata o mundo real como se fosse a utopia do mundo perfeito, esperando que dessa forma a realidade se transforme no sonho. Não é assim que acontece, migs.

Uma grave consequência da direitização dos privilégios é que eles se tornam obrigações para outras pessoas. O mesmo raciocínio serve para a adjetivação de direitos, aquele negócio de expandir os direitos que já existem, para o nosso conforto, conforme já falamos no primeiro texto da série.

Nos acostumamos com o fato de que só devemos agradecer a quem está fazendo uma coisa legal, de graça, e por mera liberalidade. Se eu estou pagando, ou se essa pessoa tem a obrigação de me servir, não há nada para agradecer nessa relação. E é melhor que faça direito.
Vestido de adulto fica ainda mais feio, mas parece que o momento ainda não foi registrado em boa qualidade...

A língua inglesa tem uma expressão muito boa para esse tipo de atitude: taking something or someone for granted. Existem várias definições e vários usos, como "não dar o devido valor a algo ou alguém", "pressupor a certeza de um fato" "assumir que algo esteja implícito", mas a minha definição favorita (e que não resume todos os usos possíveis, apenas é a minha favorita) é "esperar que algo ou alguém esteja disponível para você o tempo todo, esquecendo-se da sorte que você tem por ter esse algo ou alguém na sua vida".

Isso é ingratidão. A maioria dos ingratos não o faz de propósito, com o objetivo de desprezar e pisar no outro. Eles apenas não enxergam a gratidão nas suas vidas porque assumem que tudo o que possuem seja um direito. Eles não enxergam o quanto são especiais, sortudos ou abençoados por ter esse estilo de vida, porque não conhecem outra vida, nem sequer imaginam que alguém possa viver com menos, ou que algo que eles têm lhes possa ser tomado algum dia.

Pode parecer estranho para quem está acostumado com "o avanço dos direitos" que alguém fale em "retrocesso", mas essa situação só existe porque vivemos em um ambiente favorável a isto. Imagine que vivemos em um planeta pós-apocalíptico. Alienígenas de outra galáxia dominaram o Planeta Terra e agora cada indivíduo tem apenas três direitos. Quais você gostaria que fossem esses três direitos? Sem zoeira, reflita nisso. Pense no que é fundamental, e não extrapole essa palavra ou ela perde o seu significado.

Agradeça como se ninguém lhe devesse nada


Não apenas por educação. Não por obrigação. Não só porque eu disse que é pra agradecer. Sinta a gratidão dentro de você. Permita-se ser grato. Não há fraqueza nisso. A gratidão genuína transforma as pessoas, os relacionamentos, há um potencial enorme nessa prática.

Mesmo sobre aquilo que você julga ser fundamental, seja grato por isso. Seja grato por essas três coisas. Você não imagina em que situações você poderia estar se você fosse uma das milhares de pessoas no mundo que não possuem aquilo que você mais valoriza.

Dê o devido valor às pessoas, às coisas, aos direitos, aos privilégios. Não tome nada como óbvio, gratuito, obrigatório. Enxergue a bênção, a providência, a sorte, o privilégio em cada aspecto da sua vida. Se você tem pais vivos, agradeça. Se você tem avós vivos, agradeça. Se você não tem mais nenhum deles, mas conviveu com eles por algum tempo da sua vida, seja grato por esse tempo, essas lembranças, essas vidas.

Seja grato pelas pessoas à sua volta e por tudo o que elas fazem por você, cada mínima coisa é um motivo de gratidão. Agradeça cada vez que for servido por alguém - não falo apenas em servir comida: o ato de servir resume qualquer coisa que uma pessoa faz por outra. Se possível, agradeça pessoalmente. De preferência, agradeça usando o nome da pessoa e olhando nos olhos.
Gratidão gera gentileza que gera... bem, gentileza

Agradeça pela sua casa e por quem a limpou. Se foi você quem limpou, agradeça por ter tido essa oportunidade de abençoar o lar. Agradecer nem sempre envolve outra pessoa, mas não há gratidão se você não se sentir grato, ainda que verbalmente dirija um agradecimento a alguém.

Agradeça porque as contas estão pagas. Se não estão, agradeça porque elas estão sendo pagas. Se não estão, agradeça porque você não perdeu tudo e ainda tem oportunidades para reconstruir... Enxergue as oportunidades. Enxergue a paisagem. Enxergue as pessoas. E seja grato por poder enxergar.