O Problema com os Direitos: negligência

"Eu tenho meus direitos!" É provável que cada um de nós já tenha proferido estas exatas palavras, ainda que de brincadeira ou somente na continuação mental da briga que você acabou de perder. Os direitos não são o problema, mas existe um problema sério com os direitos: não saber lidar. Sabe aquelas pessoas que não sabem ter as coisas? Aquela pessoa que abusa da boa vontade alheia? Aquela pessoa que negligencia a si mesma?

O direito de lutar pelos direitos é uma das melhores coisas da democracia. Mas pra tudo existe abuso. Pra tudo.
Dois extremos resultantes do nosso mundo desequilibrado e um ponto de equilíbrio cada vez mais perto da extinção demonstram o que houve de errado com a luta pelos direitos e qual atitude precisamos ter para mudar essa situação.

Quero a Amy Adams para interpretar meu papel de trouxa


Quantas vezes você saiu de uma situação frustrado e injustiçado, chorando e gritando por dentro sobre os direitos que você sabe que tem, mas que não teve coragem de impor?

Quem não me conhece, pensa que eu sou brava, porque ando séria e sisuda. Quem me conhece muito sabe que eu sou brava e adoro ter a oportunidade de passar um sermão. Mas os semi-conhecidos só tiram de mim aquela pessoa tímida e resignada cujo lema é "Deixa pra lá".

Eu de fato acredito que, se tiver que escolher entre impor os seus direitos e ser gentil, a melhor reação é a gentileza. É o que a Bíblia ensina: é melhor viver em paz com as pessoas do que entrar em conflitos pelos seus direitos; os pacificadores serão chamados filhos de Deus. Mas também há um clamor por justiça e uma bem-aventurança para quem tem essa fome e essa sede. Não é possível ser cristão sem possuir a paixão por justiça que Jesus demonstrou.
Se calar diante das injustiças não é ser pacificador, é ser conivente.
Uma pausa aqui para uma estabelecer uma diferença crucial: Ter paixão por justiça não tem nada a ver com ser um justiceiro ou vingador, da mesma forma que ser pacificador não significa de forma alguma ser trouxa, muito embora as pessoas possam confundir esses conceitos e, na tentativa de ser um, acabar sendo o outro.

Buscar justiça compreende tratar a todas as pessoas com a dignidade que lhes é intrínseca. Ser justiceiro envolve encontrar culpados para as mazelas e dar a eles uma punição que o satisfaça, e que nem sempre corresponde ao mal causado ou respeita a dignidade do outro.

Ser um pacificador significa procurar resolver as diferenças através da conciliação, resgatando a dignidade dos envolvidos. Se necessário, abrindo mão de algo particular em nome de um benefício superior. Ser trouxa é se submeter à vontade e disposição do outro, deixando-se ser usado, desprezando a sua própria dignidade, saindo da situação com aquele "Eu tenho meus direitos!" entalado na garganta.

A existência de trouxas torna o ambiente favorável à violência em todas as suas formas. Isso não quer dizer que a vítima tem culpa. A culpa pela agressão é sempre de quem agride. Embora não partilhe da culpa, a vítima muitas vezes tem parte da responsabilidade sobre a situação estabelecida.
Ulisses distraidamente olha o Facebook em seu iPhone 6 às 23h enquanto passeia pela Praça Tiradentes. Ulisses foi assaltado. Ulisses não é culpado pelo assalto, mas isso não retira a sua responsabilidade sobre o fato.
Poucas pessoas vão dizer que o Ulisses não vacilou com seu iPhone 6 de bobeira na rua em horário que não se deve. Ele foi imprudente. Isso não o torna culpado, nem retira o seu papel de vítima. A imprudência de Ulisses também não anula o fato de que o Estado, que se comprometeu a isso, falhou em dar segurança a Ulisses para que ele use seu celular caro onde quiser, no horário que quiser. Ensinar que roubar é feio, errado e imoral também não muda o fato de que é preciso aprender a ser prudente.
Silvia namora um cara estúpido que toda semana encontra um motivo ainda mais estúpido pra brigar com ela. Ele faz com que ela se sinta menor, errada, imperfeita. Um dia ele se irrita com o jeito dela e termina o namoro. Ela implora que eles reatem, "pelos bons momentos". Ele fica com pena e desiste de terminar. Silvia não é culpada pelo seu relacionamento abusivo, mas ela é responsável pela manutenção desse relacionamento.
Não estou colocando a culpa na vítima, não mesmo. Mas não podemos, sob este pretexto, retirar das pessoas a responsabilidade sobre aquilo que acontece em suas vidas. Isso geraria nelas o vitimismo, tirando delas o poder de controlar o que acontece com as suas vidas. Seria exatamente o oposto do resultado a que se quer chegar: empoderamento.

Colocaria essa frase no meu nick no msn, certeza... (Curtiu? Dá pra comprar! #compredequemfaz)
A atitude dos trouxas dessa vida estimula o comportamento dos babacas, indiretamente prejudicando outras pessoas e tornando o mundo um lugar pior. Pela última vez, quero ressaltar que não temos culpa sobre a forma como os outros nos tratam, mas temos ser responsabilidade sobre como nós recebemos isso e sobre o que nós permitimos. Fronteiras precisam ser traçadas, antes até do nosso limite. Isso às vezes pode ser chato ou parecer rude, mas é essencial para que você, trouxa habitual, não enlouqueça.

Ou seja, o nosso papel de trouxa faz parte desse círculo de injustiça que contamina o mundo. Não estou falando que os aproveitadores existem por causa dos trouxas. Não se trata de uma relação de causalidade. Só que encarar o mundo em quatro apoios ajuda a fazer com que a injustiça pareça algo normal.


Continue acompanhando a série para conhecer os outros personagens e descobrir como não cair na armadilha da arrogância.