Como acabar com a cultura do estupro

Num mundo em que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos, não há uma mulher que você conheça que não tenha sido assediada. Por que isso acontece tanto? Porque o estupro de uma menina por trinta homens não começa com trinta homens saindo de suas casas decididos a fazer sexo com a mesma menina. Começa com as pequenas atitudes, coisas que, inclusive, são consideradas normais, mas que criam isso que chamamos "cultura do estupro". Porque se algo acontece com a mesma frequência que passa um ônibus na rua, não é mais exceção, é algo que faz parte da cultura, é algo que já está normalizado.


Como adultos, somos responsáveis por fazer adultos melhores para as próximas gerações. Só se muda cultura com uma cultura diferente. Pequenos passos como estes:



Ensine o respeito a todos, acima de tudo


é bom e todo mundo merece. (A plaquinha vende aqui)

Somos todos diferentes, mas somos todos humanos. Eis um fato que pode não estar claro para todo mundo ainda: todos os seres humanos têm dignidade e, portanto, merecem ser tratados com respeito. Todos, sem distinções ou exceções. Ao olhar para o outro, ao interagir com o outro, antes de mais nada, respeite o outro, respeite o ser humano.

Não trate mulheres - e meninas - como objeto


Mulheres são tratadas como produto com tanta frequência que muitas vezes não percebemos que é isto o que está acontecendo. Mulheres de biquini em propaganda de cerveja. Mulheres sensuais (e sem rosto) nos posteres dos filmes. Mulheres mostrando o corpo em programas de auditório. E esses são os exemplos em que a objetificação da mulher está mais evidente.

Porque seios são como videogames. Só que não.
Aquela velha piada (sem graça) para o pai que passou de consumidor a fornecedor no fundo quer dizer que a mulher é a mercadoria. Aquele cara que lamenta o fato de que o inverno fez com que as mulheres se cobrissem mais, porque ele gosta de ver os corpos femininos em exposição. A ideia de que a sua companheira tem que vestir o que você gosta ou acha apropriado, como se o corpo dela fosse propriedade sua.

Atenção: o fato de que você não está criando um movimento ou obrigando ninguém a pensar assim não torna o seu pensamento menos errado. Se você não consegue olhar uma bunda sem passar a mão, alguma coisa está errada com você. Não adianta se indignar com a cultura do estupro se no fundo você ainda acredita que as gostosas devem desfilar o corpo para o seu deleite.

Não trate homens - e meninos - como predadores


Mais prejudicial do que reprovar nas meninas as atitudes e os traços de liderança, ousadia, atrevimento, liberdade e controle é ensinar os meninos que eles podem ter qualquer coisa - e qualquer pessoa-coisa - a partir da conquista. Quando o predador está à solta, todo mundo é vítima.
Status: colecionador de mulheres
É por isso que o rapaz mexe com as mulheres que passam pela rua. Existe um prêmio de destaque social para o garanhão pegador. E já que cabe ao homem ser ousado e tomar a iniciativa nas investidas amorosas, o que ele perde por não tentar?

Ensine que tem mais valor tratar com respeito uma só mulher do que descartar quinhentas. Não ensine só com palavras. Valorize as atitudes e características que enfatizam esse caráter. Viva o respeito, seja o exemplo.

Não erotize a infância


Eu colocaria uma foto da Melody, mas não me senti à vontade replicando essas imagens pela internet.
Qual é o problema em achar bonitinho os namoros do jardim de infância? Qual é o problema em vestir crianças com roupas de adulto? Qual é o problema em deixar sua criança rebolar diante de vários homens?

A erotização rouba um pedaço da infância das crianças. Não faz parte da infância ter um namorado aos quatro anos. Nessa época, nem minhas bonecas namoravam. Não faz parte da infância usar salto alto, batom e minissaia. Faz parte da infância brincar com os amigos, correr e se sujar, usar a imaginação e roupas confortáveis.

E por quê? Porque a exposição precoce da criança ao mundo sexual a torna mais vulnerável. Principalmente quando a família planta a semente da erotização, mas se esquiva de dar explicações e respostas satisfatórias às perguntas das crianças sobre o assunto. Criança não esquece, ela pergunta pra outra pessoa, e essa outra pessoa pode não ser do bem.

Isso não torna o estupro culpa da vítima, de forma alguma. Mas se podemos nos proteger e proteger nossas crianças, porque correr riscos que não trazem benefício algum? Não existe mérito algum em nos colocar em situações de vulnerabilidade para demonstrar como o mundo é cruel. Você não publica fotos do seu cartão de crédito no Facebook. Por que seria menos diligente com seu próprio corpo?

O Spotify aderiu à causa montando uma playlist muito bacana. Já conferiu?

A erotização da infância banaliza o sexo, e por isso incentiva a cultura do estupro. Quando a relação sexual se torna "nada de mais", essa desvalorização faz com que a sua violação seja algo menor do que de fato é. O estupro se torna algo tão banal quanto o sexo. E é por isso que trinta homens se propõem a partilhar uma menina em atividade sexual. Porque não é nada, é só sexo. Valorizar a atividade sexual como algo precioso e importante é fundamental para acabar com a cultura do estupro.

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