O racismo e os buracos mais embaixo

O retrato do privilégio: nas salas de aula e corpo docente do ensino superior, a presença de negros é minoritária, muito embora sejam a maioria na população. Por outro lado, em funções que exigem menor qualificação, como serviços de limpeza pública, nas estatísticas dos presídios e de mortes violentas por armas de fogo, os negros voltam a aparecer em predominância.

Formandos de Medicina UFRJ 2015 - A dificuldade de encontrar um negro entre os formandos é frequentemente apontada como consequência do racismo. Mas esse não é um critério de seleção nas universidades, é?
Não há dúvidas de que o racismo está presente e eu, pessoalmente, posso afirmar que ele existe. O racismo (e o machismo também) é muitas vezes a grande causa por trás de muita injustiça, mas não se pode usar essa informação de forma leviana. Vamos fazer um exercício:

Existem poucos professores negros no ensino superior porque as faculdades são racistas.

Será por que as faculdades são racistas? Ou seria porque há poucos candidatos negros? E se for por isso, por que há tão poucos candidatos negros? Não seria um reflexo da ausência de negros nos cursos de mestrado e doutorado? E esta por sua vez não seria porque há poucos negros no ensino superior? 

Quando cavamos esse buraco em cujo final se aloja o racismo, vamos perceber  pelo caminho vários problemas tangíveis e mensuráveis: pouca qualificação para o trabalho, falta de acesso à educação básica de qualidade, a impossibilidade de parar de trabalhar para fazer um curso em período integral, a dificuldade de quem não mora perto de uma universidade. Todos estes problemas têm tamanho definido e solução objetiva. Eles podem ser atacados com ações e estratégias.

Quando a gente chama o problema de RACISMO, deixando de apontar todos os problemas no meio do caminho, ataca uma entidade invisível, psicológica, que inclusive pode ou não estar presente. Mas quando damos aos problemas nomes de coisas concretas com soluções objetivas, nós podemos colocar essas ações e estratégias em execução. Fazendo isso, vamos resolvendo o problema do racismo, que na verdade é um reflexo de uma sociedade desequilibrada, cheia de problemas aos quais as pessoas preferem dar nomes e definições abstratas do que procurar meios concretos para solucionar.

Em vez de correr atrás do rabo diante dos problemas macro, podemos solucionar os problemas que estão ao nosso alcance
A cultura se perpetua na realidade. Por exemplo, quem acha que negros são pessoas inferiores pode sustentar a sua hipótese pela abundância de negros nas penitenciárias, nas favelas, nas profissões que exigem menor qualificação. É muito mais fácil mudar a realidade dos negros, do que a cabeça dos racistas. Ao mudar a realidade, aquilo que se pode ver, eu retiro o fundamento que sustentava o racismo, enfraquecendo o argumento como um todo. Isso não vai acabar com o racismo no mundo, porque a ignorância do ser humano não tem limites. Mas vai tornar o racismo cada vez mais irrelevante, porque o seu impacto na vida das pessoas será diminuído.

A melhor forma de acabar com uma ideia errada, é retirar o seu fundamento, torná-la sem sentido e irrelevante. Um troll - um racista, um machista, um praticante de bullying - adora ser importante. Ele adora quando as pessoas se preocupam com o que ele pensa. Não digo que devemos permitir que as pessoas falem o que bem entenderem sem serem devidamente responsabilizadas por isso, não. A responsabilidade é a outro lado (fundamental) da moeda da liberdade. O que eu afirmo é que precisamos nos preocupar mais com as pessoas que sofrem e os problemas que podemos resolver diretamente do que com calar a boca de quem fala (e pensa) merda.
http://www.trollspodcast.com/
Vamos dar menos importância aos trolls e trabalhar para fazer as mudanças que vão mudar a sociedade, vamos?

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