Trabalho, tempo e filhos

Se tem uma coisa que me deixa morrendo de dó é a creche em período integral. Os pais se privam da convivência com os filhos para prover o seu sustento. A criança acaba passando um terço do seu dia em uma rotina pré-formatada, pouco individualizada. Porque a criança tanto tempo na instituição, a escola assumindo obrigações que são da família: "ajudando a criar". 

Criança não precisa de dinheiro, de coisas, de presentes, de festas de aniversário super produzidas. Criança precisa é de tempo. Precisa conviver com gente, criar vínculos com os pais, receber estímulos, ter experiências.

Se você quer cultivar valores, exemplos e atitudes, precisa estar presente na vida da criança.
Infelizmente, esse modelo existe para responder a uma realidade que corresponde à maioria dos adultos brasileiros hoje. Nós nos acostumamos com esse formato de trabalho em que as pessoas saem de suas casas e passam oito horas do seu dia tra-ba-lhan-do, como se esse fosse o único modo de se viver. E é assim que a creche em período integral deixa de ser um absurdo e passa a ser a coisa mais óbvia do mundo. Os pais precisam trabalhar oito horas por dia. Logo, a criança precisa passar oito horas... onde? Na creche.

Precisa? Qual é o ganho de produtividade em suas oito horas de trabalho, imaginando um cenário alternativo em que você trabalhasse apenas seis horas? E você sabia que uma jornada de seis horas corridas corresponde a um período integral, do mesmo jeito que as oito horas com intervalo pro almoço?

Se quisermos ter tempo para ter filhos, precisamos buscar alternativas à jornada fixa de quarenta horas fora de casa. Trabalhar menos, trabalhar em casa, trabalhar em horários alternativos, trabalhar em horários flexíveis. Não estou cogitando não trabalhar porque essa não é uma realidade pra mim (te contar uma coisa: eu gosto de trabalhar), mas talvez seja uma opção viável pra você?

Mas é estranho. É difícil tirar a formatação de fábrica da cabeça das pessoas. Elas olham torto, e perguntam "por que SÓ seis horas?" como se isso o tornasse um vagabundo. Elas veem quem "não trabalha" como um parasita na sociedade, se aproveitando do trabalho alheio. Eu trabalho em home office há anos, e às vezes ainda é difícil para as pessoas entenderem que estar em casa não significa estar desocupada porque é aqui que eu trabalho.
Trabalhar é bom, mas a vida não é só trabalho.
Não é como se não houvesse escolha. Se nesse momento você se vê sem opções (sério? sério mesmo?), alguma escolha que você fez lá atrás o colocou nessa posição. Ou talvez você apenas não está enxergando direito. OU você decidiu que algumas coisas são mais importantes e isso, minha gente, também é uma escolha.

Se eu trabalho três turnos para manter um padrão de vida que eu considero ideal porque a minha profissão não tem uma remuneração muito bacana, posso dizer que não há escolhas aqui? Quem escolhe a carreira, quem determina o padrão de vida, quem decide que é melhor trabalhar manhã, tarde e noite do que viver em um padrão inferior?

Atualmente nós (marido e eu) trabalhamos, entre o trabalho de hoje e a construção de projetos para médio e longo prazo, de oito a doze horas por dia cada um, frequentemente em fins de semana e feriados. Não temos filhos e queremos ter tempo para os filhos que queremos ter.

Escolhemos investir nosso tempo hoje, para colher amanhã. Nosso objetivo é conseguir trabalhar entre quatro e seis horas diárias cada um. Sim, cada um, em horários alternativos, porque criança merece ter tempo de qualidade com pai e mãe, da mesma forma que pais e mães têm idêntico direito a desfrutar da convivência com os filhos e de ser um casal. Não existe piloto e co-piloto nesse trabalho, somos corresponsáveis pelo lar.
Tempo em família é sagrado.
Eu abro mão de um padrão de vida luxuoso, abro mão de responder imediatamente aos instintos maternos, abro mão de estabilidade e carteira assinada em nome de algo que pra mim vale muito mais: qualidade de vida em família.

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