Escolas, partidos e o pensamento crítico

Existem dois tipos de pessoas: as que afirmam a inexistência de doutrinação marxista na educação brasileira e as que não são marxistas. Foi mais ou menos assim que nasceu o movimento Escola Sem Partido. Começou como um movimento de estudantes, ganhou apoio e críticas Brasil afora, virou projeto de lei, e você está ouvindo muito mais sobre isso ultimamente porque o Senado colocou o assunto em consulta pública na semana passada.

Em primeiro lugar, cabe dizer que essa votação no site é apenas isso: uma consulta pública. Não é referendo, não é plebiscito, não tem força pra levantar ou derrubar o projeto, é só pra você manifestar a sua opinião. E se você acha que esse tipo de manifestação tem poder de mudar a cabeça dos legisladores, quero lembrar que os brasileiros foram às urnas votar oficialmente contra o Estatuto do Desarmamento, mas a opinião da população foi completamente desconsiderada.

Vamos, então, falar sobre doutrinação e pensamento crítico. Eu estudei quinze anos em escolas e universidades públicas - instituições municipais, estaduais e federais. Não posso dizer todas, porque não me recordo se tive ou não essa experiência entre a primeira e a quarta série na Escola Municipal Princesa Isabel, mas em todas as demais havia um forte incentivo, quando não uma descarada pregação, ao pensamento marxista.

Como eu já disse em tretas passadas, a esquerda pintou essa imagem de cool. Se você é uma pessoa boa, que se importa com os outros, que não gosta de injustiças, então você será de esquerda. Sim, é assim que a coisa é ensinada nas escolas. O capitalismo é do mal, o capitalismo é a causa da pobreza, o capitalismo torna as pessoas infelizes, se você não acredita ou não quer acreditar, essa imagem foi retirada de um livro de história que eu usei na sétima (ou oitava) série:
Era um livro com excelente potencial: organizado, muito didático, linguagem acessível... pena ser tão tendencioso.
Dá pra entender de onde as pessoas tiraram essa ideia de querer uma escola sem partido, né? A tal doutrinação não é fruto da imaginação de ninguém, não é exagero dos coxinhas e não é coisa do passado. Inclusive a esquerda pode deixar o cinismo de lado e assumir que faz isso mesmo e com orgulho, afinal de contas, Gramsci não publicou seus escritos anonimamente, nem usou meias palavras quando idealizou a revolução cultural.

As críticas à Escola Sem Partido podem ser resumidas em: 1) é impossível lecionar sem expressar opinião político-econômica e 2) tirar a ideologia das escolas é desestimular o pensamento crítico.

Não existe discurso neutro

Eu sou advogada e portanto posso dizer que é possível, sim, ensinar, falar sobre e até mesmo defender algo sem concordar. Não vamos entrar nos dilemas morais da questão, mas a impossibilidade em si está completamente descartada. Mas a questão não é essa. Levantar essa crítica é desviar completamente do assunto porque ninguém pediu para você parar de manifestar a sua opinião política.

Confesso que o ideal seria que os professores não manifestassem sua militância em aula, principalmente no ensino fundamental e médio, para alunos que ainda não têm um pensamento crítico completamente formado (vamos chegar lá). Afinal de contas, é possível falar sobre um assunto, ensinar sobre ele, sem defender nem criticar. É educação, não é torcida de futebol.

Mas como? Ora, se criacionistas podem ensinar sobre evolucionismo, por que comunistas não podem ensinar sobre capitalismo? Você não precisa concordar, nem discordar. Prova nenhuma pede "na opinião do seu professor de história da oitava série", e se por acaso pedir, está errado, porque a menos que você seja Rousseau, Marx, Smith, Platão ou um cara desses, ninguém pediu a sua opinião. O que pediram foi pra ensinar pra galera qual é a opinião desses caras. Se você gosta de dar opinião, escreva um livro: compra quem quer.


E o pensamento crítico?

A crítica falha porque iguala pensamento crítico a pensamento marxista. Se não formos marxistas, não saberemos criticar o sistema capitalista vigente. Pensamento crítico não é isso, colegas. Pensamento crítico é saber questionar, criticar, levar à prova todas as crenças, fatos, ideologias, valores, inclusive aqueles que você defende.

Pensamento crítico não se ensina com materialismo histórico. Tudo bem, a dialética de Hegel (utilizada por Marx, mas original de Hegel) pode ser um método. Assim como a maiêutica de Platão. Ou qualquer outro método que estimule o pensamento, a imaginação, a autonomia, que instigue a criança/adolescente a criar suas próprias ideias, mesmo que absurdas, que ensine a criança/adolescente a contestar a si mesma, às ideias, aos professores, ao mundo. 

Precisamos de uma pedagogia em que não seja errado perguntar os porquês, em que não seja falta de educação desafiar o conhecimento estabelecido pelas gerações anteriores. Precisamos de adultos que saibam acolher as críticas infantis e transformá-las em reflexões pessoais. Precisamos de mais auto-avaliação e menos escudos de defesa. Mais pensamento crítico, menos polarização. Precisamos de escolas que não defendam partidos, ideologias ou opiniões, mas sim a liberdade de pensamento, opinião e expressão.

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