Espírito Olímpico & Meritocracia

Rebeca Andrade vivia em Guarulhos com a mãe, empregada doméstica, e seus sete irmãos. Muitas vezes não tinha dinheiro para pagar a passagem para os treinos. Mesmo com todas as dificuldades, destacou-se pelo seu talento e esforço. Aos 13 anos, ganhou o Troféu Brasil de Ginástica Artística. Em destaque, passou a treinar no Rio de Janeiro, longe da família, mas com muita dedicação. Integrando a seleção brasileira, foi a melhor ginasta da equipe olímpica do Brasil. Ela ainda não ganhou nenhuma medalha, mas conquistou muita gente com seu lindo solo ao som de Beyoncé.

Yusra Mardini jogou pelo Time dos Refugiados. Ela ficou conhecida pelo que fez antes das Olimpíadas: nadou por mais de três horas, junto com três outras pessoas, puxando, em mar aberto, o barco em que estava com outras vinte pessoas e que começou a afundar meia hora depois da partida. Nas Olimpíadas, ficou entre as últimas na sua categoria. Na memória das pessoas, uma das primeiras a surgir quando se fala de natação.

Sarah Menezes entrou para a história ao ser a primeira judoca brasileira a conquistar uma medalha de ouro em Jogos Olímpicos. Conheceu o esporte aos nove anos, e por muito tempo sua rotina consistia conciliar dois treinos diários com as aulas e o tempo para fazer os deveres escolares. No Rio, deixou a competição nas quartas de final com uma lesão. Chorou largada no tatame, e nós choramos junto. No entanto, circunstância nenhuma no presente e no futuro seria capaz de mudar o fato de que, no ano de 2012, ela foi a melhor judoca do mundo em sua categoria.


O que rege as histórias dessas mulheres e de qualquer atleta é a meritocracia. Elas não chegaram a lugar algum porque pagaram o ingresso ou a mensalidade, nem por serem filhas, netas ou amigas de alguém. Seus feitos não se baseiam em heranças, privilégios ou cotas. Toda a sorte e talento do mundo não são suficientes para produzir resultados vencedores se não houver um compromisso pessoal. Elas venceram com suor e lágrimas, porque essa é a única forma de vencer.

Atletas que fizeram um compromisso com a vitória. Treinando duas vezes por dia, abrindo mão da sobremesa, esquecendo o que significa preguiça, decisões reafirmadas e levadas a sério ano após ano para obter o mérito. É a meritocracia que permite que a menina da favela se torne médica. Se o sobrenome, a conta bancária, o lugar onde ela mora ou a cor da sua pele fossem critérios, ela não conseguiria.

Superação, inspiração, excelência, determinação, coragem, esperança, fé, trabalho árduo. São valores necessários aos Jogos Olímpicos, são valores importantes para o brasileiro, são valores essenciais para a meritocracia.

Há quem critique a meritocracia porque o mérito parece estar mais distante de uns do que de outros, ou porque para uns é mais difícil do que para outros. É verdade, nem todos têm a mesma facilidade. Somos pessoas diferentes. Há quem tenha os melhores professores à sua disposição, há quem tenha crescido com o corpo ideal para desenvolver uma habilidade. No entanto, nenhum dos dois chegará a lugar algum se não houver compromisso e dedicação pessoal. Os melhores professores são inúteis para o aluno que não estuda. O melhor corpo que não é exercitado constantemente não se desenvolve e atrofia.

É claro que é mais difícil para quem precisa trabalhar oito horas por dia para sustentar o sonho ou para quem tem que escolher entre comer e pagar a passagem de ônibus. Mas difícil não quer dizer impossível. Em outras eras, seria impossível ao filho de artesão se tornar fidalgo, ao escravo se tornar doutor, ao plebeu se tornar rei. O conhecimento não mais está restrito às mãos e mentes dos mestres, nem o seu acesso disponível apenas àqueles que podem pagar. Pode ser difícil, como tudo o que vale a pena nessa vida. Não é impossível porque só depende de você. 

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