Uma vila para uma criança

Havia outro texto programado para hoje, quando surgiu uma foto na minha linha do tempo. A foto mostrava a sala de espera de um aeroporto. Havia uma mulher sentada, mexendo no celular. Aos seus pés, sobre um lençol estendido no chão, um bebê dormindo. A foto veio acompanhada por uma legenda que criticava a atitude da mãe, preferindo segurar o celular a ter o filho nos braços, privando a criança do aconchego materno. Mas não foi isso o que chamou a minha atenção.

A mãe estava sozinha.


É claro que uma mãe é perfeitamente capaz de cuidar de um filho sozinha. Mas não deveria precisar ser mãe sozinha. Talvez ela tenha demorado duas horas embalando o filho até que ele caiu no sono e, precisando descansar, estendeu o lençol no chão para deitar a criança enquanto avisava a alguém "está tudo bem", ou simplesmente aproveitava os vinte minutos sem choro de criança para desopilar a cabeça. A criança estava no chão porque não tinha ninguém para segurar enquanto a mãe manda uma mensagem para alguém, come uma barrinha de cereal, toma um gole de água - movimentos que ela não arrisca com o filho no colo, sob o risco de acordá-lo.

Há um ditado em inglês que diz que é necessário uma vila inteira para criar uma criança (it takes a village to raise a child). Não é responsabilidade só da mãe, que o pariu, nem do pai que ajudou a fazer. Não é só a família extensa, mas toda uma comunidade de apoio que se faz necessária para criar uma criança. São os avós e tios, os amigos e vizinhos. Até mesmo os desconhecidos têm o seu papel de não atrapalhar, não julgar, não expressar o grande incômodo em sua vida por compartilhar o avião com uma criança que chora.

Não conheço nenhum ditado em português semelhante. Conheço o Quem pariu Mateus que o embale, que é a versão para mães de Ema, ema, ema, cada um com seu problema. Como se criança fosse "problema" só de pai e mãe. Como se cada criança fosse um alienígena que partirá para outro planeta, e não um ser humano que faz parte dessa comunidade e que precisa aprender a viver com autonomia e responsabilidade nesse ambiente social. Como se os bons e maus frutos fossem colhidos apenas pelos pais. Como se a criação de uma criança jamais afetasse uma comunidade.

Em vez de uma comunidade acolhedora, uma sociedade hipócrita, cheia de dedos para apontar para a mãe que estende um lençol no chão para o filho que dorme, mas que não denuncia a violência doméstica na casa vizinha porque é melhor não se intrometer. Quando eu olho para essa mulher sozinha no aeroporto, com o filho que dorme no chão, eu penso em quantas horas de voo ela terá pela frente, quantas horas de voo ela já teve que enfrentar, por quantas horas ela esteve com seu filho no colo até que finalmente estendeu um lençol no chão e alguém compartilhou esse momento nas redes sociais.

A pergunta aqui não é simplesmente: onde está essa mãe? ou, cadê o pai dessa criança? mas, Cadê a comunidade de apoio? Cadê a empatia das pessoas? Onde está a vila dessa criança?

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