Intimidade é para os íntimos

A facilidade em registrar qualquer evento que aconteça torna a exposição mais fácil. Câmera, GPS, gravador, tudo está no celular, que você carrega a todo lugar, ao alcance da mão em qualquer momento. Mas não basta registrar, é preciso publicar. Sem publicação, não há ostentação. Se ninguém sabe, não aconteceu.

Como será que as pessoas viviam antes da internet? Será que foi assim que surgiram os outdoors, pra mostrar às pessoas o que alguém comeu, aonde esteve, o que comprou, quantos quilômetros correu e qual foi a sua trajetória?


O excesso de informação torna a privacidade algo cada vez mais raro e os momentos da vida cada vez menos preciosos. Se você divide cada momento da sua vida com quinhentas (mil, duas mil, cinco mil...) pessoas, qual é a parte da sua vida que pertence apenas às pessoas com quem você tem um vínculo especial? O que há de especial nesse vínculo se cada momento que você passa com essas pessoas é compartilhado com o mundo todo?



Essa coluna é muito difícil de escrever, porque a minha intimidade é para os íntimos, não para a internet. Falar sobre relacionamentos sem expor a vida pessoal, o casamento, as pessoas do meu convívio envolve um malabarismo que nem sempre dá certo, e quando não dá certo o texto não é publicado.

Se todo mundo for especial, ninguém é. Isso vale para pessoas, para coisas, para momentos. O primeiro sorriso do bebê é especial porque ele sorriu só pra você. Aquele momento importante é especial porque foi compartilhado com as pessoas que importam.

Entre aqueles que dizem que a felicidade precisa ser compartilhada e os que afirmam que expor a felicidade é provocar a inveja alheia, a minha política é de que a felicidade deve ser compartilhada com as pessoas que importam, ou melhor, com as pessoas que se importam. Os momentos felizes são para aqueles que conseguem ter alegria na sua felicidade.

Felicidade não é para ser ostentada, felicidade é para ser vivida, e às vezes isso significa guardar a câmera e parar de assistir esse momento pela tela do celular para enxergar com os seus próprios olhos. Fazer parte desse momento. Estar completamente presente no que está acontecendo agora.

A discrição nos momentos difíceis, especialmente no casamento, é uma questão de respeito. "Se sentindo triste" no Facebook não é a melhor forma de descobrir quem está disposto a massagear o seu ego. Todo mundo precisa ter alguém com quem conversar na hora da dor e esse alguém não pode ser todo mundo.


Antes de compartilhar, pense nos motivos. Por que você está compartilhando? Por que as pessoas precisam saber? Quem precisa saber? Se for realmente importante, útil, necessário, assegure-se de que você não está invadindo a privacidade de outras pessoas ou mesmo comprometendo a sua segurança e a da sua família.

Um simples compartilhamento da sua rota de caminhada é capaz de indicar o local onde você mora para quem não precisa saber. Se você caminha todos os dias no mesmo horário, já sabemos também quando não estará em casa. Parece uma informação inocente, mas nas mãos erradas pode ser perigoso. Uma vez que uma informação é lançada na internet é muito difícil saber quem tem acesso a ela, mesmo com configurações de privacidade... 

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