Amar é uma escolha

Não faltam ditados para nos livrar da necessidade de explicar o que sentimos. Trabalhamos duro para separar razão e emoção, como se houvesse um interruptor que ativasse uma função, automaticamente desligando a outra. Separamos tanto, que escolhemos outro órgão do corpo, o coração, para lhe atribuir as escolhas mais insensatas, passionais e sem sentido.

Para discutir esse assunto, vamos começar deixando o romantismo de lado: o seu coração não tomou nenhuma decisão, todas as suas decisões são suas, tomadas por você, com o seu cérebro - lide com isso.


Vivemos num contexto que valoriza muito o passional e taxa a racionalidade como insensível, fria, cruel. Pessoas racionais são comparadas a máquinas, "robôs sem coração". Nessa dicotomia inútil, que julga ser possível separar o pensamento lógico das emoções, é importante saber o que significa passional e racional antes de lhes atribuir valores negativos ou positivos.

Quando falamos em emoção, passionalidade, "pensar com o coração", estamos falando de instintos. Não agimos com emoção, apenas reagimos. Ser completamente passional não significa ser uma pessoa boa, compassiva, amorosa, mas sim alguém incapaz de planejar, controlar os seus instintos, avaliar as circunstâncias ou mesmo agir de qualquer forma mais elaborada além do ciclo ação-reação.

O sistema límbico representa a parte mais primitiva do nosso cérebro. Essencial? Sem dúvidas. É a parte do cérebro que controla as emoções, a memória, onde guardamos os nossos hábitos e rotinas. É a parte que trabalha nos bastidores enquanto estamos ocupados prestando atenção em alguma coisa, é o que nos instiga a fugir e a lutar.

Quanto à racionalidade, nenhuma máquina é capaz de exercitá-la de modo tão complexo e genial como o ser humano. Ao raciocínio lógico devemos não apenas todas as comodidades da vida moderna, a nossa vida em sociedade, a organização das cidades, mas a nossa própria sobrevivência - ou você acha que os humanos teriam alguma chance de sobrevivência na selva sem o córtex pré-frontal?

De nada adianta ter o instinto de fugir e lutar se eu não sei se fico ou se corro. Saber controlar as emoções é tão importante quanto ter emoções. Tomar decisões, frear os instintos, prestar atenção no que você está fazendo. Controlar a agressividade, segurar o choro, providenciar a serenidade para dar a resposta certa quando a vontade é de sair correndo. Isso é o que o córtex pré-frontal faz por você.

Todo esse papo de neurociência para dizer uma coisa que você já sabia - o coração não toma, não tomou e nunca vai tomar decisões - e uma que você, talvez, precise aprender - você é responsável pelas suas decisões, até mesmo por aquelas que você pensa ser inteiramente passionais.

Você pode não ter escolhido se apaixonar, mas foi você quem escolheu nutrir a paixão - se não fosse assim, teríamos todos sérios problemas com a Fernanda Lima. Deixar a paixão morrer ou se envolver em um relacionamento? Essa é uma decisão que todos deveríamos ser capazes de tomar conscientemente.

O amor não nasce de uma reação química, não é um instinto, muito menos uma mágica no ar. Um relacionamento saudável - onde não há abusividade, simbiose, co-dependência... - não nasce de uma reação a um instinto, mas de uma decisão consciente. 

O relacionamento dura enquanto duas pessoas decidem, a cada dia, se amar. O relacionamento termina quando pelo menos uma dessas pessoas toma a decisão contrária. Sim, mesmo quando a relação termina com afetividade, respeito, amizade... o componente que faz toda a diferença entre fugir e lutar é o amor.

amar você, amar alguém, escolha o amor.
Não é fácil. Amar não é um piquenique. Quando se decide amar alguém, deve-se saber que não se trata de amar só nos dias bons ou quando o outro se comportar conforme as suas expectativas. Amar é resistir ao instinto de fugir e conscientemente ficar, é pensar em soluções, estratégias e ações para sair da crise, da fossa, do caos.

É preciso assumir as decisões que tomamos, mesmo aquelas que decidimos não tomar. Não foi o seu coração quem o colocou nessa roubada, foi você. Não existe saída mágica, existem escolhas. Nem sempre é fácil, muitas vezes dói, mas não há como escapar.

Amar é uma escolha.

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