Ocupar e resistir

Há aproximadamente um mês as redes sociais discutiam loucamente sobre a Medida Provisória nº 746/16, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (entre outras coisas). Decidi não me manifestar naquele momento porque estava em jejum de tretas. Outros assuntos entraram em pauta, até que na semana passada os estudantes começaram a ocupar escolas no Paraná.


Os motivos da ocupação não estavam, nos primeiros dez dias, nas notícias jornalísticas, no site do movimento ou na página no Facebook. Recentemente, foram lançados alguns posts nas redes sociais, como esse vídeo, e a imagem oficial do movimento, dizendo que os protestos são contra a PEC 241 e a MP 746/2016.

Contra tudo isso que está aí



A falta de clareza sobre as reivindicações do movimento não é detectada apenas na internet. Quando eu conversei com alguns alunos de escolas ocupadas em Foz do Iguaçu, as respostas à pergunta do porquê variavam do "não sei" ao "porque tá tudo errado e querem fazer uma lei pra piorar".

Se você está pensando que eu não procurei alunos 'politizados', você está certo. Minha pesquisa não incluiu membros do grêmio estudantil, nem filiados a grupos ou partidos políticos. Conversei com alunos médios do Ensino Médio cujas escolas foram ocupadas, alguns engajados no movimento, outros não. O fato de que nenhum deles tinha uma resposta clara sobre os motivos da movimentação representa a desinformação da massa - os alunos "menos politizados" - sobre os motivos da ocupação.

A adolescência é aquela fase da vida em que o ser humano está em constante rebeldia. Um adolescente não precisa de um bom motivo para brigar. Não precisa nem de um motivo. E eu não digo isso para invalidar a briga de ninguém, ainda vamos discorrer sobre os motivos, apenas quero pontuar que muitas dessas pessoas não sabem a razão de tudo isso, e isso não importa nem para eles, nem para o movimento, desde que eles estejam lá "lutando pela educação".

Quem conta um conto...



As crianças no vídeo manifestam vários entendimentos equivocados sobre aquilo contra o que estão lutando. Falam de cortes orçamentários na saúde e educação, sobre a "burguesia" que matricula seus filhos no ensino privado enquanto bagunça a educação pública, o fim da educação física, da filosofia, da sociologia, das artes...

Antes de entrar numa briga, é preciso conhecer bem contra o que estamos lutando. É preciso conhecer e conhecer bem, isso significa ir além do "Fulano disse que" ou "eu li no Annie Escreve que" e começar a pensar com a própria cabeça, filtrando o que você ouviu, viu e leu. Parar de julgar a mensagem por causa do mensageiro e procurar saber o que a mensagem realmente significa.

É fato que o impeachment deixou muitos descontentes, mas desejar que as coisas deem errado porque a sua vontade foi confrontada é sinal de imaturidade. Distorcer todos os fatos para fazer algo ou alguém parecer pior apenas faz transparecer a mediocridade de quem não consegue debater com honestidade.

Enquanto a panfletagem divulga que a reforma na educação visa formar alunos alienados para trabalhar docilmente para os grandes capitalistas, o texto legislativo diz: "Os currículos do ensino médio deverão considerar a formação integral do aluno, de maneira a adotar um trabalho voltado para a construção de seu projeto de vida e para a sua formação nos aspectos cognitivos e socioemocionais".

A revogação do inciso que incluía a Filosofia e a Sociologia no currículo deixou tanta gente desbaratinada que nem se atentaram que essas matérias fazem parte das ciências humanas, uma das áreas de conhecimento do currículo básico do Ensino Médio.

Os estudantes reivindicam serem ouvidos para a construção da reforma educacional, mas parecem desconhecer que a Base Nacional Comum Curricular está neste exato momento aberta a contribuições de toda a comunidade, em audiências públicas e pelo site, onde também é possível visualizar todas as propostas e opinar sobre elas.

Quem quiser protestar contra os governantes, contra a PEC ou contra a Reforma é totalmente livre para fazê-lo. Isso faz parte da democracia. Você não precisa inventar desculpas ou distorcer os motivos da sua luta. Se você não gosta do Temer porque acha que ele tem pacto com o demônio, se quer o Richa fora porque nunca foi com a cara dele, bom, ninguém é obrigado a gostar. Não precisa inventar ou distorcer o que diz uma lei quando ela já é ruim o suficiente para ser combatida pelo que ela é. O problema é dizer que você é contra coisas que você nem conhece. É como as mães sempre dizem: "você não pode dizer que não gosta se você nem sabe o que é".

Ninguém faz a minha cabeça



Essa era uma das minhas frases favoritas na adolescência, especialmente porque toda vez que eu aparecia com alguma ideia diferente, meus pais diziam que alguém tinha feito a minha cabeça. Hoje eu sei que muito embora um adolescente seja completamente capaz de pensar e tirar conclusões particulares e honestas sobre os assuntos da vida (quando não está com preguiça) , ainda é muito manipulável - eu não achava isso quando era adolescente, mas hoje eu sei.

Os adolescentes do vídeo fazem questão de destacar que o movimento não teve a influência de nenhum professor, que tudo o que eles fizeram partiu da ideia dos próprios alunos. Eu sei o que eles querem dizer com isso - ninguém faz a minha cabeça. Dizer que não foi influenciado por nenhum professor, no entanto, é uma ideia bem ingênua.

Somos todos influenciados - de forma aderente ou repelente - pelas pessoas de referência nas nossas vidas. Num momento político em que a militância da docência é mais escancarada do que nunca, é difícil dizer que o movimento não teve influência de professores, mesmo porque o movimento só traz benefícios à classe.

No Estado do Paraná, o governador fez um anúncio implicando que possivelmente, no futuro, deixaria de cumprir o acordo feito com os professores no fim da greve do ano passado. Quase que imediatamente, a APP anunciou assembleia e indicativo de greve a partir do dia 17 de outubro. Uma semana antes, as escolas começaram a ser ocupadas. Com as escolas ocupadas pelos alunos, os professores não podem entrar em greve... nem precisam.

Não importa aqui se a greve é legítima ou ilegítima, se tem motivos justos ou não. O fato é que o estado de greve é mantido, mas a responsabilidade pela paralisação não é da categoria, é dos próprios alunos. Enquanto isso, os profes mais legais vão para as escolas de forma solidária dar aulão preparatório para o ENEM apenas para os alunos realmente interessados. Eles doam as aulas enquanto são pagos para dar aulas. Quem não quer, não é obrigado a assistir. Só vi vantagens.

Para quê, paraguaio?



Vista sob esse ângulo, a ocupação das escolas parece uma ótima ideia. Todas as escolas deveriam ser ocupadas. A comunidade se envolve mais com o ambiente escolar. Os alunos se tornam mais colaborativos, organizados, cooperativos - quem não está disposto a isso fica em casa. Os professores podem dar suas aulas com tranquilidade. O tempo de estudo aumenta, bem como a sua abrangência - não são oferecidas apenas aulas de português, matemática e ciências, mas também direitos humanos, ioga, desenho, programação, inglês, francês, fotografia e palestras diversas.

Isso beneficia um grupo de alunos que consegue tirar proveito desse sistema, mas prejudica todos os outros que não têm maturidade para tomar a decisão de voluntariamente ir pra escola e aprender, ou mesmo de estudar em casa. Sabe aquele aluno que se não tiver lista de presença ele não vai, se não vale ponto ele não faz, se não cai na prova ele nem ouve? Se esse aluno existe aos montes no ensino superior, imagina quantos são na educação básica.

A maturidade vem quando começamos a fazer ações com propósito, e é atingida quando nossas ações e nossos propósitos estão alinhados. Ocupar escolas é tão eficaz quanto bater panelas na sacada ou fazer a dança da chuva. O pior é que, se o resultado almejado acaba acontecendo, todo mundo pensa que deu certo e se sente herói.

Enquanto isso, Beto Richa ajeita o topete, Michel Temer viaja pela Ásia, nada mudou na cabeça dos governantes. Estamos em um cenário infeliz, em que o presidente ou o governador não se preocupam mais nem com a própria imagem. Nada do que eles façam ou deixem de fazer nesse momento é capaz de piorar a sua impopularidade. Se eles forem presos ou cassados, podem até ganhar a simpatia de alguns. Enquanto isso, o Enem está chegando... Então, para quê?

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