Roleta do unfollow

Algumas silenciosamente desfaziam os laços virtuais para se desconectar das pessoas que pensavam não ser interessantes. Não gostei, desfazer amizade. Chato, parar de seguir. Fica mais fácil quando você não precisa encontrar com essa pessoa depois. Relacionamentos do mundo moderno são assim, distantes o bastante para facilitar o descarte.


Certas pessoas sentem a necessidade de anunciar o ato, seja na forma de aviso ou reportagem. "Estou desfazendo amizade com todas as pessoas que não se encaixam nos meus critérios de pessoas com as quais eu quero conviver". Esses critérios não são "só postar reclamação", "não saber amar", "falar mal do ex em público", até porque isso pode deixar tudo muito subjetivo. Não, são sempre critérios bastante definidos, como "ter votado em Fulano", "manifestar apoio a um movimento político", "ser contrário/favorável à ideologia X".

Há quem, discretamente, envie uma despedida ao ex-amigo, explicando que, infelizmente, não será mais possível estender a convivência. O problema não é você, sou eu. Você continua sendo uma boa pessoa, mas eu é que não consigo ser amigo de quem pensa, fala ou age como você. O seu estilo de vida me incomoda, as suas ideias despertam o pior da minha personalidade. Eu não sei lidar com isso, eu prefiro não ser mais seu amigo.

Ultimamente a preguiça tem tomado conta. Cada um escreve no seu mural os amigos que não deseja ter e solicita que as pessoas que não se encaixam no perfil desfaçam a amizade (que desaforo, né?). Outra categoria de pessoas quer falar o que quiser sem ser incomodado com opiniões adversas. O recado é simples: eu escrevo e falo o que eu quiser, quem não gostar pode desfazer a amizade. No fundo, é mais uma criança mimada que não suporta ser contrariada. Prefere perder um amigo a ser confrontado em debate.

É interessante notar que a maioria dessas pessoas ostenta o discurso da tolerância, prega que devemos conviver com as diferenças. No entanto, diferente é apenas o amigo negro, o amigo gay, o amigo deficiente. A diversidade externa é tão rica, chega a dar a impressão de que houve uma seleção com cotas para todas as minorias possíveis. Por dentro, no entanto, o que se vê é uma massa de pessoas que pensam igual.

A sociedade se divide em grupos de ovelhas, cada um com seu balido próprio. Não se misturam, não suportam influências externas, não se atrevem a balir em outro tom. Melhor pertencer a este grupo de iguais do que ser diferente de todos. A sociedade da tolerância só tolera a casca, os diferentes de verdade não são bem-vindos. Mas dá um sorriso amarelo quando cruza com "o outro" no corredor do supermercado.

A cada novo momento político mais e mais pessoas abandonam bons amigos por causa de uma publicação no Facebook. Por uma diferença ideológica, aquele que outrora foi um bom amigo passa a ser um pária. Novos posts são publicados para demonstrar sua satisfação com a nova timeline: somente aquilo que agrada, massageia o ego e reafirma o seu próprio pensamento. Aplausos vêm do rebanho: "que bom que não se mete mais com más companhias!". 

Embotam-se os laços, as lembranças, os momentos de pura amizade. Importa que agora este é coxinha e aquele é comunista, portanto, devem ser inimigos. Um bom debate está ficando fora de moda, especialmente pela escassez de pessoas que não se ofendem com facilidade e estão dispostas a dar o braço a torcer. Pessoas de quem se pode discordar sem precisar chamar a mãe para enxugar as lágrimas e apaziguar os ânimos. Está na hora de crescer.

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