A problemática da problematização

Não é que o mundo está chato. O mundo não tem nada de chato ou legal. Quem faz alguma coisa com o seu mundo é você. É um reflexo de quem você é. Chato, legal, engraçado, dramático, catastrófico, problemático... tudo isso é questão de perspectiva. Quer dizer que se o mundo está chato, o chato sou eu? Sim.

(Já começamos a treta na maior delicadeza, percebem?)

Então o mundo não está chato, você talvez seja chato, mas isso não resolve tudo. Mesmo sendo uma pessoa legal, zen, de boas, tranquilona, às vezes o negócio fica esquisito, e nem sempre a culpa é sua. Não é algo assim, que afete a sua visão de mundo, mas um zumbidozinho diferente lá no fundo, uma luz um pouco destoante, quem sabe até seja algo que não te afete em nada, ou que incomode demais.

Isso porque, ainda que o seu mundo seja legal, você não está sozinho nele. No mundo existe gente chata, gente desonesta, gente com voz irritante, gente que se intromete... tem muita gente nesse mundo realmente, mas o que a gente quer falar é sobre gente chata, ou melhor, sobre um tipo específico de gente chata: gente que problematiza.



Tudo começa com gente chata...

...e gente chata no mundo, sempre teve. Pensa naquele primo chato que sempre dizia que ia contar pra sua vó, aquele filho da amiga da sua mãe com quem você era obrigado a "brincar" enquanto os adultos conversavam, aquela menina do playground cheia de frescura que estragava a brincadeira da galera... chatice começa cedo, não é a toa que o ditato é "não sabe brincar, não desce pro play".

Existem vários motivos porque uma pessoa é chata (eu, rainha de todos os chatos, posso falar muito sobre o assunto), mas eu destaco os seguintes:
  1. ter razão
  2. incomodar
  3. inveja (se eu não posso, ninguém pode)
  4. chamar a atenção

Mais mimada que a nossa geração, só a próxima - dá até medo. Mimos em excesso geram gente chata. Quando tudo gira em torno de si, e de repente a pessoa se torna adulta, fica difícil ter razão, conseguir tudo o que se quer, ser o centro das atenções... Chega uma fase da vida em que a gente percebe que o mundo é muito grande e nele cabe muita gente, e até pra incomodar os outros é necessário um certo esforço.

Que chato.

Foi aí que problematizaram.

O que é problematizar?

Problematizar é encontrar problemas nas coisas. Procurar pelo em ovo tanto e com tamanha insistência que o pobre ovo vai fazer crescer um pelo só pra ser deixado em paz. Problematizar é transformar qualquer coisa da vida em um defeito na sociedade.

Vamos fazer um exercício de problematização. Vamos problematizar um objeto inocente, útil, formidável, que beira à perfeição. Vamos problematizar o livro. Dá até dor no coração, mas é um exercício necessário.

O livro é um objeto de dominação. Nem todas as pessoas sabem ler livros. Muitas que foram alfabetizadas são, ainda, analfabetos funcionais, e os livros constituem, para estas pessoas, instrumentos de opressão. Sem falar no preço dos livros. As bibliotecas, são poucas e a maioria só funciona em horário comercial, sendo portanto um luxo para a burguesia que não trabalha. Mais difícil que poder ler um livro, só escrever um livro. A redação de um livro exige um desenvolvimento intelectual linguístico extraordinário (vamos fingir que não existem livros de youtbers etc.) e uma grande soma em dinheiro para a sua publicação e distribuição. É muito mais fácil para um homem branco rico publicar um livro do que uma mulher negra da periferia. Isso significa que as ideias que são divulgadas pelos livros são ideias e homens brancos e ricos que não querem outra coisa senão que todos os outros permaneçam onde estão para sustentar o seu status superior na sociedade. Livros são perigosos porque as pessoas que os escrevem pertencem a uma elite intelectual, capaz de manipular as massas...

Qualquer pessoa razoável pode elaborar argumentos contra as problematizações acima, mas a problemática não é nem essa. A pergunta a se fazer é: qual a necessidade disso? Opiniões desnecessárias, inúteis, que ninguém perguntou, não merecem sequer ser verbalizadas, quanto mais virar textão. Mas a pessoa precisa chamar a atenção, muitas vezes (quase sempre...) usando de problemas sérios e importantes (como racismo, machismo, violência, pobreza...) para dramatizar um assunto sem a menor importância.

Por exemplo, problematizaram uma embalagem de batata chips. Não, não é um exemplo inventado. É um exemplo da vida real. Problematizaram a embalagem da Ruffles Feijuuuca, um sabor especial inventado por um consumidor naquela promoção em que as pessoas sugerem sabores diferentes e o público vota qual sabor vai permanecer. Aí as pessoas problematizaram a embalagem da batata porque era preta e tinha um negro estampado, e na visão de algum chato do parquinho, isso é racismo. Acontece que o negro da foto é o cara que inventou o sabor - ele é um cara negro e nas fotografias é assim que ele aparece, negro - e a cor da embalagem foi ele mesmo que escolheu, porque tem cor de feijoada, que é feita com feijão preto. 

O racismo continua um problema sério, e talvez ainda mais, considerando que a pessoa estava incomodada por ver um negro na embalagem - seria o problematizador um racista? Bom, não vamos problematizar a problematização alheia, o que importa é que NINGUÉM LIGA pra embalagem de salgadinho, ou para o fato de o kinder ovo ser preto por fora e branco por dentro. Talvez se fosse branco por fora ninguém teria vontade de comer porque chocolate branco não é chocolate. Isso não muda o racismo, não muda a vida de quem sofre racismo e não gera nenhuma consciência contra o racismo. 

Essas problematizações sem sentido não passam de gente chata dona da razão querendo chamar a atenção e, às vezes, conseguindo aborrecer os outros. Já tem tanta coisa errada no mundo, pra quê ficar colocando defeito no resto?

Tretar >>>> problematizar

Estava eu discursando contra as problematizações por aí e já vislumbrando uma nova treta em meu horizonte - essa daqui - quando a seguinte indagação me surpreendeu: - Mas e suas tretas? Não é a mesma coisa que problematizar?

Não é a mesma coisa.

Não se procura treta. Diferente da problematização, onde a pessoa vai tentar achar defeito nas coisas que aparentemente não têm nenhum. Uma boa treta precisa surgir naturalmente, de um estado de indignação profunda que não pode mais ser ignorado.

Tretar é importante. O mundo precisa das vozes daqueles que se indignam contra tudo o que está errado por aí. Ou isso ou seremos um bando de conformados com as mazelas da vida. Tretar é importante, mas só enquanto for extraordinário, especial... só enquanto for sobre o que realmente importa.

Não se treta a toa. Ninguém faz uma treta para explicar o jeito certo de se comer uma coxinha (pela pontinha) ou pra protestar contra a cor do pacote de salgadinho. Tretas são desgastantes, dão trabalho, exigem um esforço intelectual que vai além do uso da vitimização como argumento. Se não tretar direito, não vale a pena.

Ninguém prefere tretar. Eu prefiro ficar de boas. A vida já é tão cheia de problemas reais, que demandam o esforço físico e intelectual da humanidade para encontrar respostas, soluções, alternativas... não vamos gastar neurônios encontrando problemas irreais nos lugares errados. 

Chega de problematizar a vida.

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