A Bíblia além da autoajuda

A Bíblia não é um livro desconhecido para a maioria das pessoas. O livro mais vendido do mundo,

Para muitos a Bíblia é um amuleto. É o livro aberto na sala, no carro, no saguão, na mesma página empoeirada, como se a sua simples existência fosse o suficiente para afastar a presença maligna. Os demônios fatalmente lerão o Salmo 90 e recuarão. É aquele texto decorado, recitado, no momento da aflição, como que para invocar um poder de proteção pelas palavras mágicas acionadas. 

Para outros, a Bíblia é como uma pílula efervescente, para trazer alívio rápido na hora do sofrimento. Para estes fins, vem a calhar aquela última página presente em muitas edições, que indica a leitura recomendada para cada sintoma.

Alguns veem a Bíblia como um livro santo repleto de histórias bonitas, textos motivacionais e personagens inspiradores. Nisso, não há quase nenhuma diferença entre este livro e qualquer outro de autoajuda. Se a ideia é procurar palavras que façam você se sentir bem, não importa realmente a origem.

Eu não quero dizer que a Bíblia não seja nenhuma dessas coisas. Ela contém, de fato, palavras que confortam, que curam, que nos fazem sentir protegidos. Se não fosse assim, não serviria para nenhum desses fins, como tem servido a muita gente nos últimos séculos.

O problema está quando o contato com a Bíblia nunca se aprofunda, mas fica eternamente suspenso na superficialidade daquilo que me agrada. A Bíblia é útil para ensinar, corrigir, repreender e instruir na justiça. Isso significa que se você nunca se sentiu incomodado pela leitura, você ainda não tirou dela o melhor proveito.


A Bíblia é regra de fé e prática, não o objeto em que devemos colocar a nossa fé. Não é a Bíblia quem tem poder para proteger, curar, salvar, mas o Deus que ela revela. Ela nos ensina onde colocar a nossa fé e qual é a maneira certa de viver - qual é a vida que nós fomos criados para viver.

É preciso encarar a Bíblia como um desafio que precisa ser levado a sério. Crer no que está escrito não basta quando dela não se retiram as regras de prática. De nada adianta ler o manual, quando na montagem do móvel você resolve interpretar da forma mais conveniente e juntar as peças como você quer. A leitura se tornou inútil e você não pode culpar o manual por não ter obtido o resultado que ele anuncia.

O principal desafio é, de fato, olhar para dentro de si. É difícil encarar o homem mau no espelho. Não é fácil admitir o quanto nos encaixamos nas figuras de correção - embora sejamos sempre rápidos para nos identificar com os mocinhos heróicos e as vítimas desafortunadas da história.

Quando ler a Bíblia, não pare até que você possa dizer que aprendeu algo novo.
Você será surpreendido.

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