A vigilância dos outros

O mundo está se tornando um local complicado para se viver. Para cada ação, boa ou ruim, que se pratique, há uma multidão de espectadores interessados. Além da nossa culpa, do peso da responsabilidade, da incerteza sobre a atitude mais adequada para as circunstâncias, existe uma plateia que cada vez mais exige ser reconhecida e ouvida. Gente que nunca foi chamada para a festa, mas de alguma forma estão lá, preocupadíssimos.


Soube de uma mãe que teve que enfrentar as câmeras - câmeras estão por toda a parte, isso não é mais coisa da grande mídia. Hoje em dia, qualquer pessoa tem uma câmera no bolso com um potencial enorme de audiência na internet - porque estava ralhando com o filho no supermercado. Algum espectador interessado, certamente preocupadíssimo, achou por bem - pelo bem da criança - gravar a cena. A mulher precisou interromper a disciplina do filho para indagar ao cameraman se ele estaria se responsabilizando também por levar a criança às aulas, consultas e passeios, por tratar da sua complicada alimentação, pagar a mensalidade da escola e o prejuízo que a criança acabara de causar à mãe - cerca de setecentos reais por quebrar uma prateleira cheia de produtos. Não preciso nem dizer o final da história.

Se a criança apronta e a mãe briga, não tem coração. Se a criança apronta e a mãe não briga, não tem pulso firme. A mãe não sai sem a criança, parece que não cortou o cordão umbilical. A mãe vive por aí sem a criança, não sei pra quê teve filho. Decisões são tomadas não conforme a maturidade da criança ou a preocupação dos pais, mas com o que os vizinhos vão pensar, considerando a probabilidade de alguém chamar o Conselho Tutelar porque a criança ficou sozinha em casa por duas horas. E não são só os pais que sofrem com a patrulha dos outros.

E a dieta, como vai? Na academia não aparece, né? Mas você também não sai dessa academia. Tá tomando bomba? Desliga a TV e vai ler um livro. E a casa, tá limpa? Mas você faz almoço todo dia? Você também só come fora, né? Não larga desse celular. É impossível falar com você, tem celular pra quê? Não sei como você consegue. Não sei como você aguenta.

Muita gente por aí tem a melhor das intenções, mas também tem gente que só quer fazer uma brincadeirinha, e outros que estão lá pra incomodar, mesmo. Seja qual for a pretensão, na maioria das vezes, a intromissão incomoda porque faz do outro um ser humano menos pensante que o sábio conselheiro.

Não é nosso papel enquanto comunidade julgar a capacidade alheia de tomar decisões. Quando se trata da vida do outro, é preciso partir do princípio que o outro está mais informado do que você, e que muito provavelmente sabe bem o que está fazendo. Também é bom lembrar que o que é prioridade pra gente pode não ser para o outro, e que nem sempre uma escolha é melhor do que outra só porque é a sua preferida - em muitas situações, há uma variedade de opções igualmente aceitáveis.

A opinião que ninguém pediu deve ser oferecida com cautela:

  • Em primeiro lugar, leve em consideração que o outro tem todo o direito de discordar de você, e até mesmo de não querer ouvir. 
  • Em todas as ocasiões, seja gentil. Você já está se intrometendo em um assunto que não é seu, não convém ser, além de tudo, mal-educado.
  • Avalie se sua opinião é realmente relevante. Fazer piada com as escolhas dos outros geralmente não tem graça, só serve para trazer constrangimento e irritação.
  • Entenda que a sua preocupação pode estar baseada em informações erradas, no desconhecimento das circunstâncias... 
  • Mesmo que seja apenas um cuidado, não infantilize o outro.
Falo isso com a melhor das intenções. Ouvir ou não, a decisão é sua.

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