Não repara a bagunça

No sistema Flylady, um método de organização doméstica americano, fala-se que o objetivo da organização é tirar a casa do CHAOS. Nesse contexto, CHAOS não é simplesmente a palavra inglesa para caos, mas o acrônimo para CAN'T HAVE ANYONE OVER SYNDROME. Traduzindo literalmente, é a Síndrome do não dá pra receber ninguém em casa, mas que na nossa cultura super acolhedora acaba se revelando mais no tal do NÃO REPARA A BAGUNÇA.


Há um certo prazer em proferir essa frase. Se a casa está bagunçada, a culpa é de quem reparou. Afinal, ninguém vai bater a porta na cara das pessoas por causa da bagunça, mas cada um será responsável por fazer cara de paisagem para o sutiã largado no braço do sofá. Quando a casa está arrumada, fala-se mesmo assim. "Não repara a bagunça", pro outro dizer "Imagina, nem está bagunçado... bagunça é o que eu tenho lá em casa...". Ou seja, não é nenhum pedido de desculpas, nem nada. Só a deixa para o outro elogiar a limpeza da casa da vizinha.

Eu me sinto desconfortável nessas danças da sociedade brasileira feminina, isto é, as regras não escritas que cada mulher precisa cumprir quando visita a outra ou quando recebe uma visita. Por exemplo, de ter que arrumar um elogio para a casa quando ouvir o "não repara a bagunça", e fazer aquele esforço pra não reparar - esforço desnecessário se ninguém tivesse tocado no assunto. Há também aquela dança do lavar a louça, que eu detesto - trata-se da "briga" entre visitante e anfitriã sobre quem lava a louça, como se uma quisesse mais do que a outra, quando na verdade ninguém quer lavar louça nenhuma (a situação é parecida quando saem pra jantar duas famílias e os dois machos-alfa "querem" pagar a conta, mas na verdade querem mesmo que o outro pague).

E tem aquela mania de limpar a casa porque está vindo visita. Não estou falando de uma ocasião especial - dar uma festa, convidar o chefe pra jantar, receber um cliente... Claro que existem situações que exigirão um pouco mais de empenho do que aquele do dia-a-dia, mas o que me incomoda em limpar a casa das visitas é: por que a visita merece uma casa mais limpa, organizada, cheirosa e arrumada do que as pessoas que vivem ali?

A casa - a sua limpeza, organização etcetera e tal - existe pra quem mora ali, não pra quem vem de vez em quando. Precisamos chegar àquele ponto de equilíbrio em que a manutenção da casa não custa tanto que é impossível desfrutar dela - aquelas pessoas que gastam todo o seu tempo livre limpando e não podem deitar no tapete pra ler um livro. Precisamos de uma casa com a qual a gente se identifique a ponto de não sentir nenhum constragimento de mostrar às pessoas: é assim que eu vivo. 

Eu gosto do sistema Flylady porque ele divide as tarefas domésticas no decorrer da semana, fazendo da limpeza e organização da casa um serviço de manutenção e não uma força-tarefa semanal. Isso significa que todos os dias a minha casa me serve, e isso me dá tranquilidade para receber alguém sem me importar com as teias de aranha que se formaram na sapateira durante a semana. Eles não merecem uma sapateira limpa mais do que eu, que moro aqui... e eu já agendei essa tarefa pra amanhã.

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