O poder do botão vermelho

Publicidade, mídia, propaganda, oferta, consumo. Essas palavras hoje soam quase como ofensa aos ouvidos mais politicamente corretos. A publicidade não tem escrúpulos. A mídia é vendida. A propaganda é apelativa. A oferta é escandalosa. Consumo é quase pecado.

Temendo os grandes vilões da atualidade, as mentes pensantes, que parecem ter interrompido prematuramente o seu pensar, exigem medidas incisivas. De quem? Do Estado. Onde estão os órgãos reguladores? Por que o governo não toma uma providência? Como é que deixam isso assim, na nossa cara? E agora, quem poderá nos defender?

Fomos mimados com tanto Estado. Ficamos acostumados a permitir que outros decidem o que pode ou não pode entrar/acontecer/permanecer nas nossas vidas que esquecemos que existem outros meios, muito mais simples e empoderadores (já que vocês adoram essa palavra), do que simplesmente esperar que o Estado decida o que vamos assistir ou não.


O poder em suas mãos

Antigamente era mais difícil. As pessoas precisavam levantar do sofá, dar alguns passos, apertar um botão, às vezes o botão emperrava... Hoje em dia o botão vermelho está aí, ao alcance da mão. Não gosta, não quer ver, não acha que isso tem lugar na sua casa? Desliga a tela.

Parece, só parece, que as mídias tomaram o controle sobre as nossas vidas. Você comenta sobre um produto perto do celular e aparece um email com uma promoção. A televisão fica ligada durante todo o tempo em que as pessoas estão em casa, divulgando produtos que você precisa ter se quiser ser tão legal/bem-sucedido/famoso quanto o cara da propaganda. Há quem diga que não dá pra viver sem celular, computador, internet, como se a espécie humana fosse a última novidade do universo.

Não dá pra negar que as mídias exercem uma influência exagerada sobre a vida de muitas pessoas. Não dá pra falar que ninguém está imune a isso. Qualquer pessoa, se não estiver atenta, pode se deixar influenciar pela televisão, pelos algoritmos do Facebook, pelos anúncios em outdoor, as vitrines tão cuidadosamente elaboradas, e não só por "eles". 

Somos influenciados pelo que dizem os amigos, pelos costumes da nossa mãe e pelo que ouvimos sem querer de um desconhecido no ponto de ônibus. Todas essas informações entram no nosso arquivo interno e de alguma forma, com surpreendente facilidade, acabam fazendo parte de um processo decisório.

Mas sabe o que é mais importante? O poder nunca saiu das suas mãos. É você quem escolhe, conscientemente ou não, quem teerá mais influência sobre você, e principalmente que tipo de informações você vai capturar, absorver. O domínio sobre as vontades é um sinal de maturidade. Somos adultos, certo?

E os pequenos?

É covardia, sim. É sacanagem. É apelação. Propaganda direcionada a crianças que ainda não conseguem distinguir o querer do precisar, muito menos têm maturidade para classificar corretamente o que quer e o que precisa. É uma falta de vergonha. Mas quem disse que a família precisa ficar refém dos publicitários? Ou melhor, quem disse que a gente precisa de uma lei pra proteger as crianças - e os bolsos dos pais - contra a propaganda abusiva?

O botão vermelho tem poder. Quem tem o botão vermelho é quem manda. A pergunta que fica é: quem é que manda aí? "Ah, mas não é fácil...", mas não é fácil, mesmo. Se fosse fácil alguém já estaria cobrando impostos, exigindo mensalidade... se fosse fácil as taxas de fertilidade não estariam caindo no mundo ocidental. Se a parte difícil da maternidade desaparecesse, cada um teria uns quinze em casa, não é mesmo? Não é fácil, não. É difícil. Mas e aí? Desistir não é uma opção e coisas difíceis não são impossíveis - são recompensadoras.

Os pais - ou quem quer que sejam os cuidadores, permanentes ou temporários - precisam ter o poder sobre o que as crianças estão fazendo. Quanto menor a criança, menor a autonomia. "Deixar" a criança decidir parece coisa de pais maneiros, mas acaba se tornando um fardo para o pequeno que não tem maturidade para carregar essas escolhas. Decidir é estressante. As crianças precisam aprender a decidir, mas primeiro elas precisam ver como um adulto decide.

Como eu sei que é possível controlar a televisão das crianças? Porque lá em casa quem controlava eram os meus pais. Dragon Ball? Nunca vi. Nenhum tipo. Meus pais não gostavam desse desenho, por isso a gente não podia ver. Eles decidiam. Na hora de Dragon Ball, era hora de trocar o canal ou desligar a TV.

Sim, desligar a TV! Mas o que as crianças vão fazer? Vão me atrapalhar, vão fazer bagunça? Deixa a molecada brincar, meu povo! Ao contrário da televisão, ao mesmo tempo limitadora e hiperestimulante, a imaginação não tem limites, não acaba a pilha, não gasta energia elétrica, estimula a criatividade... Imaginação é a vida da criança! A criança não mudou dos anos 90 pra cá, nem dos anos 70 até os dias de hoje. Criança ainda é criança, criança sabe brincar.

Ah, mas eles vão chorar. Ah, mas não dá pra controlar tudo. Ah, mas eles vão ficar irritados. Eventualmente. Vai acontecer. Frustração faz parte da vida. Proteger as crianças das frustrações da vida, menores ou maiores, faz é mal. A gente protege das consequências, tenta evitar males maiores, desnecessários, inadequados para o nível de maturidade, mas não dá pra criar um filho em uma redoma.

Imagina você crescer num problema de física, em que os cavalos são perfeitamente esféricos, o atrito é inexistente e a força da gravidade é exatamente igual a 9,8m/s²... aí, do nada, te jogam no mundo real, cheio de imperfeições, sem pai nem mãe por perto, só porque agora você é um adulto. Como ser adulto se não lhe foi dada a oportunidade de crescer? Isso é cruel.

Mas por que não apelar pro Estado? Não é pra isso que ele serve?

Primeiramente, não. Não é pra isso que ele serve. O Estado não é o grande resolvedor de problemas, não é a válvula de escape da nossa vida, não é o gênio da lâmpada, nem o gerador de felicidade e bem-estar para o ser-humano. O Estado existe para proporcionar segurança, ordem pública, um pouco de paz nas relações humanas. Tudo isso interferindo o mínimo possível na vida privada das pessoas.

Isso significa que, quando o Estado investe em educação, saúde, infraestrutura etc, ele não está exercendo a sua finalidade principal, mas sim, de forma indireta, contribuindo para a ordem pública, segurança, civilidade... e é por isso que é possível ter escolas e hospitais particulares, mas não pode fundar a sua própria polícia ou exército.

O Estado é um bichinho que gosta de controle. Sabe aquela pessoa que você dá a mão e ela quer o braço? Pro Estado, você dá a mão e ele vai direto na veia. Não dá pra bobear. Ficar pedindo pro Estado fazer coisas pra gente é permitir cada vez mais que ele controle a nossa vida - e a das outras pessoas, por tabela.

É como quem mora com a mãe depois de adulto, que tem que seguir as regras da casa "enquanto você estiver debaixo do meu teto e comer a minha comida", a diferença é que com o Estado as regras da casa também ficam valendo pros seus amigos, vizinhos, toda aquela galera do seu Facebook que não tem nada a ver, que não pediu isso, mas né, tem que obedecer.

Você pode aproveitar todo esse movimento de empoderamento pra se empoderar frente ao Estado, parando de esperar que ele faça as coisas que você pode fazer simplesmente porque você paga os seus impostos e porque o Estado assumiu como obrigação. E também parando de pedir que o Estado cresça e se apodere mais e mais das relações privadas.

Empodere-se: aperte o botão vermelho.

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