O sexto mandamento

O senso comum nos leva a crer que somos boas pessoas. Nunca matei, nunca roubei. Eu cumpro os mandamentos. É muito fácil chegar à conclusão de que somos bons. Basta olhar em perspectiva, nos comparar com outros humanos, gente pior do que nós. Somos boas pessoas. Somos pessoas boas.

Somos?


O cristianismo como prática de vida - e não como mera religião - tem como premissa a ideia oposta: somos todos pessoas horríveis. Isso porque o cristianismo não compara o homem de bem com um estuprador, um ladrão, um corrupto. A escala de excelência tem como padrão a medida de Cristo, e perto de um Deus que é santo, somos todos pessoas horríveis.

Temos a tendência de achar que fazemos grande coisa quando não fazemos mais do que a obrigação. Procuramos elogios e recompensas em troca do mínimo que se espera de uma pessoa de bom senso. Cristo elevou o padrão da conduta moral, e isso significa que ser cristão é brincar no jogo da vida no modo hard.

Veja, por exemplo, o sexto mandamento, que a nós parece muito fácil de cumprir. Não matarás. Eu nunca matei ninguém, e espero que você possa dizer o mesmo sem incorrer em falso testemunho (aí já são dois pecados...). Na maioria das vezes e para a maioria das pessoas, é muito fácil não matar alguém (ainda bem!). E isso nos faz pensar que somos pessoas boas.

A gente se irrita, xinga de tudo que é nome, dá uns socos na parede, sai pra espairecer, grita e vocaliza a raiva para o nada, quebra uns copos na parede... tudo isso pra aliviar a vontade de agir contra o outro. Vontade dá, mas passa. A gente até visualiza como seria torcer aquele pescoço com um prazer mórbido que chega a assustar. Mas nunca passou disso. Então somos boas pessoas.

Até que Jesus tornou as coisas difíceis.

No Sermão da Montanha, Jesus explicou que cumprir regras é muito fácil, o que Deus deseja de nós é uma justiça mais elevada, uma moralidade mais rígida, um domínio não somente sobre aquilo que externalizamos, mas também sobre as nossas vontades. 

O cristianismo exige uma interpretação mais ampla sobre os dez mandamentos, porque o padrão de excelência aqui não é o homem de bem, mas o próprio Cristo. Quando Jesus amplia o tipo legal do sexto mandamento, iguala o assassínio a toda e qualquer ação capaz de destruir a vida de outra pessoa - inclusive se essa ação só aconteceu na sua imaginação.

Disse Jesus que, se você se irritou contra alguém, o mandamento já foi violado - você não voou no pescoço dela, mas desejou que ela morresse, ou ainda, desejou matar. Você não a feriu fisicamente, mas disse coisas horríveis que vão render dez sessões de terapia. Você deu um soco na parede para não socar a pessoa, mas não importa. Isso não faz de você um bom cristão. Apenas uma pessoa de bom senso. Na lógica de Jesus, socar a parede vale tanto quanto socar a pessoa, porque o seu coração foi manchado pelo ódio.

Na ótica de Jesus, tão assassino quanto aquele que dá um tiro é aquele que trata o outro como se não fosse uma pessoa. Matam os responsáveis pela tragédia ambiental que destrói a vida de uma população, ainda que todos tenham "sobrevivido". Mata quem despersonifica o outro. Mata quem tira a paz, quem torna a vida do outro insuportável. E é tão culpado de morte aquele que nunca fez nada disso, mas desejou fazer.

É importante que a gente tenha consciência da nossa condição de pessoas horríveis, porque pessoas boas não vão para o céu. Nada que o homem de bem possa fazer será suficiente para garantir o seu bilhete de entrada. Somente pessoas horríveis sabem que precisam da graça e da misericórdia de Deus, manifestados no sacrifício de Jesus, para obter o passaporte para o céu. Somente pessoas horríveis oram "Tem misericórdia de mim, pois sou pecador", e saem justificadas.

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