Tolerância não é amor

Dizem que o mundo precisa de mais tolerância. É uma reação natural contra os ataques de ódio que temos presenciado. Divergências políticas, morais, religiosas, filosóficas e muito mais explodem em violência. Assassinatos, espancamentos, perseguições, bullying, insultos, segregação. O ódio tem várias formas de se expressar. No entanto, eu discordo daqueles que veem na tolerância uma resposta adequada ao ódio. Tolerância não é amor.

A tolerância é definida pelos dicionários como condescendência, indulgência, liberalização de uma normal geral (licença, isenção), margem de erro aceitável em relação a um padrão, boa disposição dos que ouvem com paciência opiniões opostas às suas.

Eu entendo que o mundo carece de pessoas bem dispostas a ouvir pacientemente opiniões opostas às suas, mas eu prefiro chamar essa atitude de respeito, boas maneiras, educação, civilidade. Estas são as atitudes que eu quero esperar das pessoas, e não a simples tolerância.



É mais fácil tolerar do que amar. A tolerância não exige nada de ninguém. A tolerância nada mais é do que o estado de inércia diante da vida. Laissez faire, laissez passer. O amor é diferente. O amor requer atitudes. É impossível amar e não fazer nada. O amor é exigente. No entanto, o amor é capaz de algo que a tolerância jamais conseguirá: o amor transforma.

Não existe amor quando a minha atitude diante do comportamento auto-destrutivo do outro é "deixa as pessoas, cada um sabe de si". Eu não posso amar sem sofrer pelo e com o outro. Definitivamente não estou amando quando ignoro o que quer que esteja acontecendo, ou mesmo quando expresso desejos de felicidade e boa fortuna, desde que essas consequências não dependam em nada da minha conduta. Amor inerte não é amor. Quem ama, faz. Se não faz, sofre. Ou não ama.

Talvez o mundo peça por tolerância porque vê no amor uma utopia, um alvo muito difícil de ser alcançado. Amar é realmente difícil. Amar não é para principiantes. Amar envolve tomar decisões difíceis e muitas vezes ser desagradável porque não se trata de fazer vontades e obedecer a caprichos, mas de fazer crescer e obedecer a princípios - aquela ética que no fundo da alma todo ser humano conhece, ainda que insista em ignorar.

Tolerar é sempre mais fácil do que amar, mas não são dois caminhos para chegar ao mesmo lugar. A tolerância torna as pessoas mais distantes - cada um por si e ninguém tem nada a ver com isso. O amor torna as pessoas mais conectadas - porque quem ama se importa com o outro.

Embora seja tentador ansiar por um mundo onde você possa fazer o que quiser sem ninguém para incomodar, não deixa de ser um sonho adolescente. A maturidade nos faz desejar por pessoas que nos amam, em quem podemos confiar. A gente cresce e percebe que "fazer o que eu quiser" inclui fazer um monte de coisas estúpidas. O mundo se torna um lugar mais agradável quando temos pessoas que nos amam. Conselhos que nos ajudam a tomar decisões. Colo e afeto para quando tudo der errado. Existem coisas que só o amor faz.

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