Adivinha

Quanto mais a gente convive, mais profunda é a impressão de conhecimento mútuo. É uma sintonia fina: os mesmos desejos, os mesmos gostos, as mesmas piadas ruins. Parece que vocês compartilham uma mente, e de repente não mais. Subitamente, a conexão falha e os pensamentos que pareciam ser transmitidos no ar que respiramos juntos parecem não chegar ao destino. 

É incrivelmente decepcionante descobrir que o óbvio não é tão óbvio para as outras pessoas, mesmo para aquelas que pareciam conhecer tão bem o que se passa em sua mente.


Cedo ou tarde, os valores familiares, as experiências pessoais, as emoções e todo o histórico de quem eu era antes de você vão aparecer para mostrar que você não se casou com a sua cópia autenticada - ufa! - e que a sutileza e a telepatia não são as melhores formas de comunicação.

A gente quer viver como num filme, e é de fato mágico quando um olhar comunica tudo aquilo que poderia ser dito, mas a vida real inclui todos os ruídos de comunicação que fazem com que vinte pessoas extraiam conclusões e encadeiem ações diferentes a partir de uma frase interpretada no contexto de cada um. Às vezes a mágica não funciona. Na maioria das vezes, é melhor dizer com todas as letras do que arriscar o desentendido.

Ninguém tem culpa de não ter entendido o subentendido. É o risco que a gente corre pela falta de clareza. Quando é óbvio pra mim que eu não estou dando conta, outra pessoa pode achar que eu tenho tudo sob controle. Quando é óbvio pra mim que quem espalhou o conteúdo de uma gaveta precisa voltar para colocar as coisas no lugar, esse fato pode estar longe, distante, desaparecido da cabeça da pessoa, que nem lembra mais de ter aberto a tal gaveta.

Não é charmoso dizer "não" quando no fundo quer aceitar, ou dizer "sim" com ressentimento. Essa ideia de que "mulher diz uma coisa querendo dizer outra" é coisa de adolescente, isso não funciona para pessoas adultas. Eu gostaria de dizer que é um mito machista, mas infelizmente sei que há pessoas que vivem nessa encruzilhada de códigos verbais.

Como pessoas maduras, crescidas, emancipadas, nós adquirimos o direito e o dever da comunicação integral - nós podemos dizer sim, sem o constrangimento de parecer estar muito a fim; nós podemos dizer não, sem a culpa de estar deixando alguém na mão. Nós podemos verbalizar as nossas emoções sem aquele jogo de "não é nada, tá tudo bem", quando na realidade não está. Podemos abrir o jogo com "não está nada bem, mas eu não quero conversar sobre isso agora, na verdade, só o fato de falar com você está me irritando nesse momento". Podemos, sim! Não precisa nem de grosseria. A sinceridade salva vidas. E casamentos.

E por falar em casamntos, nós podemos pedir, solicitar, ordenar ou combinar para que as pessoas façam coisas em casa, sem ficar esperando que surja nelas a vontade ou o senso de dever que as leve magicamente a cumprir uma tarefa desagradável que nem está incomodando. Nós podemos chamar todo mundo para participar do planejamento e organização doméstica, para explicar porque as coisas precisam ser feitas e o que acontece quando ninguém faz. 

É preciso verbalizar, sim, mesmo que pareça óbvio. Pode parecer que você vive com alguém que lê a sua mente, mas só parece. O relacionamento exige comunicação. A comunicação exige clareza. 
Cla-re-za. 

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