A glamourização do sofrimento

Não está fácil viver. Ou melhor, não está fácil conviver. É difícil conhecer gente sem ter que lidar com os limites entre o politicamente correto e o politicamente incorreto. Não é que o mundo tenha ficado chato, o mundo continua como sempre. Mas tem gente chata demais habitando esse planeta azul, misericórdia.


Nunca foi fácil desenvolver relacionamentos - sei lá, não sou dessas pessoas que fazem amizade em ponto de ônibus - mas as coisas ficam mais complicadas quando dentro de cada pessoa há um ponto sensível que não pode jamais ser tocado. E o problema aqui não é não saber lidar com certas situações, mas que com certas situações tornou-se impossível lidar. Não é exatamente uma falta de sensibilidade, mas a dificuldade de lidar com um excesso de pontos sensíveis, como se os ovos a serem evitados tivessem se multiplicado pelo chão.

O problema é que parece que é chique sofrer. Ser minoria oprimida virou uma questão de status. Todo mundo gosta daquela boa e velha competição de miséria. Não dá pra reclamar de nada sem encontrar vinte pessoas piores que você. Ninguém pra consolar. A empatia é aquele dispositivo que às vezes não pega sinal direito.

De repente, todo mundo quer sofrer. É um tal de #classemediasofre e #whitepeopleproblems pra dizer que, poxa, a gente sofre também. E as minorias? As minorias estão em êxtase com a glamourização do sofrimento. Sempre sofreram, sim, mas isso nunca chamou a atenção de ninguém. O sofrimento das minorias nunca teve tanta relevância como agora. E é assim que, em vez de aproveitar o momento para parar de sofrer, resolvemos inventar motivos novos para reclamar.

Outro dia ouvi dizer que gente branca não pode elogiar o cabelo afro, dizer que acha lindo, que queria ter um cabelo assim. É, passamos da fase em que ninguém mais pode dizer que alguma coisa é feia sem entrar em uma guerra - como se a estética não fosse algo pessoal, como se eu dizer que acho feio tornasse a coisa feia pra todo mundo. Agora também não pode achar bonito, não a menos que você tenha a carteirinha do clube.

Não pode xingar os coleguinhas. Também não pode elogiar. E se ignorar... se ignorar é pior. É o povo na luta, na luta pelo sofrimento. Quando as pessoas querem reclamar de alguma coisa, vão encontrar motivos sombrios até para terem sido bem tratadas em algum lugar.

Mulher tinha desconto na balada por uma questão machista - os homens vão pagar pra entrar numa festa se tiverem razões para acreditar que está cheia de mulheres. Mulher não tem mais desconto na balada - agora uma parte das feministas chora porque não é justo as mulheres a mesma quantia já que supostamente ganham menos. Se proibir a entrada de mulheres, machismo. Se mulher entrar de graça, machismo. Não tem como ganhar um argumento de uma mulher, porque a carta do machismo vence todas no Supertrunfo.

O problema é que a gente não soube lidar com o sofrimento. O problema é ter se acostumado com a posição de vítima e não saber conquistar outro papel na sua história. Imagine viver sem precisar se preocupar com os motivos porque as pessoas estão fazendo as coisas e simplesmente aproveitar as oportunidades. Imagine viver mais preocupado em superar as dificuldades e fazer a sua história do que em teorizar "por que as pessoas fazem isso comigo".

Não falo isso para banalizar os males da sociedade, mas acontece que a gente luta contra as injustiças não com discurso e choro, mas com ações que fazem a diferença. Não resolve a minha vida dizer pra todo mundo que eu sou tão capaz quanto qualquer homem/branco/insira aqui a categoria privilegiada. Nada fala mais do que aquilo que você faz, e é por isso que eu sou do time que levanta e faz. Sem choro.

Existem três tipos de jogadores. Os que jogam com cheats, os que jogam sem cheats e os que choram porque não sabem os cheats. Você sabe quem são os melhores jogadores.

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