A melhor parte

Precisamos falar, de novo, - sempre - sobre pecado. Precisamos falar sobre pecado de novo e de novo, porque se não estamos falando sobre isso, se deixamos esse assunto de lado, então não estamos lidando com ele. É muito mais cômodo não tocar no assunto. Assumir que eu faço coisas abomináveis, que eu as produzo naturalmente, rotineiramente, é assumir que eu sou abominável. Isso não pega bem.

Ninguém gosta de falar sobre câncer, mas não há como tratar sem tocar no assunto. Como o pecado, eu posso fingir que ele não existe e cumprir deliciosamente a minha lista de coisas para fazer antes de morrer - até que ele mesmo venha me lembrar de sua existência fatal e dolorosa.

O pecado é como uma droga. A gente sabe quem é ruim, a gente sabe que é bom. Alguns de nós conseguem focar na parte ruim, outros se deixam seduzir pelo lado bom. Todo mundo sabe que a melhor forma de resistir ao doce chamado da droga é não experimentar - se eu não souber o quanto é bom, eu consigo focar no quanto é mau. 

Mas não há como não experimentar o pecado. Não conseguimos não pecar porque é o nosso ser - somos pecadores - que nos leva ao pecado. Não é o ato que nos transforma, assim como não é a produção da primeira fruta que determina que árvore será aquela. Ela já era o que é desde a semente.

E o pecado é bom. O pecado nos coloca em vantagem diante de outras pessoas. O pecado nos dá prazer. O pecado cria atalhos confortáveis e evita conflitos. O pecado nos proporciona aquilo que nós achamos que merecemos. Às vezes, o pecado até parece justiça. É muito mais fácil pecar do que resistir. Essa parte da nossa vida em que não precisamos pensar na pessoa horrível que somos é boa porque é confortável.

Mas não é a melhor parte. Não é melhor porque para viver em paz com o pecado precisamos conviver com o medo, a raiva, a culpa. É uma pequena dose de veneno todos os dias para continuar vivendo a ilusão desse barato - que está tudo bem, está tudo certo.

O pior de tudo é que o pecado nos afasta de Deus. Não porque ele nos rejeita, mas porque é impossível ficar perto dele e do pecado. É incompatível. Quando tentamos chegar perto do Santo Deus, o pecado grita alto, revelando a culpa e a vergonha que escondemos debaixo de camadas e camadas de orgulho e boas ações. Somente o próprio Deus pode nos livrar do pecado, mas para isso precisamos falar sobre ele. 

Se não lutamos contra o nosso próprio pecado, não podemos ter comunhão com Deus. O sinal da comunhão na Igreja - a Ceia do Senhor, quando nos lembramos do sacrifício de Jesus para nos livrar do pecado - é precedido por um momento de contrição - a oportunidade para o arrependimento e a confissão, não pública, mas diante de Deus. É admitir que errei, e tenho errado, mas prentendo me esforçar mais para resistir à pessoa horrível que sou. É clamar para que Deus me ajude a ser mais parecido com Ele - santo, sem culpa, sem vergonha, sem dor.

Muitos se afastam da comunhão porque reconhecem o seu pecado, mas, de forma triste, não escolhem a melhor parte. A melhor parte não é ter consciência de quem eu sou e viver assim porque é natural - a melhor parte é receber o perdão e ser perdoado. A melhor parte é viver sem culpa, sem vergonha. É se perceber a cada dia sendo transformado - mais perto, mais amigo, mais parecido com Jesus.



Você não precisa se abster da comunhão por causa do pecado - se te contaram isso, então você só recebeu a mensagem errada. A comunhão não é para aqueles que não pecam, mas para aqueles que foram perdoados, e o perdão se estende a todos.

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