Arte, censura, liberdade

Uma coisa todo mundo concorda: o banco errou. Uns vão dizer que errou em fazer a exposição, outros apontam o erro no cancelamento.

Insentões aparecem para criticar todo mundo ao mesmo tempo: "Liberais defendendo a censura e esquerdistas defendendo um banco". O mundo dá voltas ou nós é que estamos tontos?


A liberdade de expressão

A Constituição garante a liberdade de expressão, colocando sobre ela apenas uma regra: a responsabilidade. Já falei que a responsabilidade é a outra face da liberdade, e que uma não pode existir sem a outra. Por isso, quem quer se expressar livremente precisa dar a cara a tapa - não vale se esconder no anonimato - e se responsabilizar pelo que expressou diante de todos - inclusive sobre eventuais calúnias, ofensas e bobagens em geral.

Quer dizer que o tal artista tinha todo o direito de fazer a sua arte? Sim. E de enfrentar todas as consequências do seu ato. Fazer arte deve ser uma manifestação de coragem, a exposição daquilo que se carrega dentro de si. Arte covarde é uma contradição.


A liberdade de expressão do outro

O direito do artista de fazer a sua arte é correspondente ao direito que todas as pessoas têm de achar aquilo tudo uma bela bosta. Ou achar lindo. De achar o que quiser. De dizer que todo mundo deveria prestigiar a obra, ou de que a exposição deveria ser fechada porque ninguém merece ver uma coisa dessas. Enfim, todo mundo tem liberdade para se expressar sobre a obra, e eu acho que ninguém discorda disso.

Censura

A censura, por outro lado, vem encerrar a liberdade de expressão em sua origem. Ninguém vai se manifestar sobre a obra, porque a obra não está apta à exposição pública, de acordo com os critérios obscuros de alguém. Nesse sentido, nenhuma manifestação popular contra uma obra de arte pode ser considerada censura, porque a censura somente pode vir de uma autoridade superior.

Hoje existe censura em filmes, por exemplo, para impedir o acesso de determinadas faixas etárias a certos conteúdos que os legisladores consideraram inadequados - critério deles, autoridade superior. Censura não é ver, não gostar, fazer campanha contra... isso é liberdade de expressão. Censura é fazer com que ninguém possa dizer que não gostou.

Cancelamento não é censura?

Pois bem, vamos falar do caso concreto: um banco privado abre uma exposição de arte. As pessoas visitam a exposição e muita gente não gosta. As pessoas que não gostam da exposição começam a pressionar o banco para que a exposição seja cancelada.

O movimento, a pressão, as ameaças e as milhares de contas canceladas (eu não me daria ao trabalho, mas né, cada um se manifesta como acha que deve) são manifestações legítimas da expressão de uma parcela - que não é pequena - da população. A expressão do outro não deve ser menos legítima por ser diferente da minha. Não é assim que a gente joga esse jogo chamado democracia.

Cada consumidor tem um super poder, que é o de escolher para onde vai levar o seu dinheiro. Todo mundo tem direito ao boicote, como forma legítima de se manifestar sobre os temas que lhe são caros.

"Nunca uma exposição de arte foi cancelada" talvez seja verdade para exposições gratuitas e abertas ao público em geral (não pesquisei), mas a afirmação é completamente falsa se considerarmos o universo total das exposições de arte, incluindo aí aquelas que a gente precisa pagar ingresso para ver. 

Quando se cobra ingresso para uma exposição de arte e ninguém paga porque uma pessoa foi e disse "tá, ó, uma bosta", a exposição é cancelada e em seu lugar vem outra coisa. Isso acontece o tempo todo, não só com as artes plásticas: filmes saem de cartaz antes do tempo, peças de teatro e shows musicais encerram suas turnês mais cedo, porque o artista precisa comer, e pra comer ele precisa de dinheiro e pra ter dinheiro ele precisa cobrar ingresso. Se ninguém quer pagar pra ver esse show, o jeito é cancelar e fazer outro.

De onde vem a grana

O Santander Cultural é um espaço de acesso gratuito, o que torna essa coisa do boicote mais difícil - daí as manifestações mais fervorosas e medidas drásticas de quem vai precisar procurar outro banco, conhecer outro gerente, transferir todas as contas, avisar o patrão e/ou os clientes... é um baita de um esforço para fazer a sua opinião ser ouvida.

Acontece que o artista em exposição não tinha muitas preocupações - já estava bem alimentado porque as obras foram financiadas com dinheiro público.

Agora vejamos... se alguém pega o seu dinheiro, o dinheiro do pagador de impostos, para financiar um artista que faz uma obra que você considera de mau gosto, você não acha que merece dar uma opinião - para não dizer dar um escândalo? 

Você está pagando impostos porque precisa, pensando que, pelo menos, vai pagar o salário dos professores e os remédios da farmácia popular, mas em vez disso o seu dinheiro é usado para fazer uma coisa que você nem gosta (por exemplo, seja financiar um artista que não é do seu gosto ou pagar o mensalão de um corrupto) - não é revoltante?

Será que a liberdade de expressão deve ser financiada com dinheiro público? Não seria mais honesto fazer um financiamento coletivo para que a sua arte fosse apoiada apenas pelas pessoas que concordam com ela?

Antes do fim

Não posso terminar esse texto sem falar sobre o conteúdo da exposição. Quem defende a exposição, disse que não viu nada de mais. Quem é contrário à exposição, encontrou todo tipo de perversidade, e até crime, naquilo que viu. Eu só vi uma imagem, e só vou me manifestar sobre ela:

Qualquer imagem que sexualize crianças é um incentivo à pedofilia, porque a pedofilia é a inserção de uma criança em uma relação sexual. A minha opinião sobre esse assunto não é nada flexível: a sexualidade da criança não deve ser despertada. Isso significa que a gente não fala que criança namora, nem diz que a criança é sensual. Criança não tem decote, nem lábios carnudos. Criança não é homo, nem hetero. Criança é criança.

Talvez as pessoas sejam inocentes, ou bobas, ou se façam de bobas... talvez você não tenha jamais pensado nisso, mas existe um motivo porque muitos pais sequer colocam fotos dos filhos nas redes sociais, para evitar que imagens de crianças sejam usadas como objetos sexuais. É errado tratar as crianças dessa forma. Ainda que a criança da imagem não sofra nada, outra criança pode sofrer em seu lugar.

Como eu vou explicar isso aos meus filhos?

A exposição recebeu muitas crianças, em excursão escolar - desacompanhadas dos pais, e eu imagino que muitos deles não foram à exposição, ou não o fizeram antes do passeio dos filhos. Os pais confiam no discernimento da escola para disponibilizar às crianças o conteúdo adequado à sua faixa etária.

No entanto, quando falamos de um conteúdo sensível, a família tem o direito de saber antes a que tipo de imagens serão expostas as crianças, de escolher, na medida do possível, quando as crianças serão expostas a determinados temas.

A vida acontece o tempo todo, isso é certo, e muitas vezes a gente precisa encontrar explicações apropriadas para tópicos que não pensava ter que entrar tão cedo, mas a visita a uma exposição de arte que explora temas polêmicos e provocativos não é um evento acidental e inevitável.

Escola ensina, família educa. Se vamos manter esse discurso, precisamos ser coerentes com ele o tempo todo. Se os pais quiserem levar os filhos à exposição e ter conversas construtivas a partir dessas provocações, é um direito deles. Também é um direito dos pais preferir que os filhos não vejam essas imagens. A decisão - informada, consciente, deliberada - sempre é dos pais.

Quem é liberal nessa bagunça toda?

Parecia a situação mais irônica - a esquerda defendendo a instituição mais capitalista que existe e os liberais defendendo a censura. Estranho, pra dizer o mínimo... Mas o fato é que nossas definições de esquerda e direita já estão bem bagunçadas e é muito fácil confundir anarquistas, comunistas, com gente que é apenas hippie e se define como esquerda porque enxerga ali o pessoal do "paz e amor", assim como é muito fácil colocar conservadores e liberais no mesmo saco.

Para os conservadores, o problema maior era o conteúdo da exposição - inadmissível. Acho até que eles gostariam de poder censurar tudo de antemão. Criar uma comissão para filtrar o tipo de arte que enaltece o espírito ou algo assim...

Já para os liberais o grande problema é que a exposição foi realizada com dinheiro público - e embora o cancelamento da exposição não faça retornar aos cofres publicos o dinheiro, manda a mensagem sobre como eu quero que o meu dinheiro seja gasto.

Pra não deixar de falar, no estatismo autoritário não estaríamos tendo essa conversa porque os artistas já teriam sido fuzilados muito antes de pensar nessa exposição.

O liberal, nessa bagunça toda, é a pessoa que não liga pra quem é o artista, qual é o seu conteúdo, e que pode até prestigiar a obra, se for de seu interesse. Ele só não concorda que o dinheiro público deva ser investido nesse setor. A arte deve ser financiada por quem se identifica com ela. Simples assim.

Resumindo...


  • O artista tem o direito de fazer o que quiser e chamar de arte, assim como o público tem o direito de achar o que quiser da arte. As pessoas que acharam a arte de mau gosto têm todo o direito de boicotar a exposição, os patrocinadores, os apoiadores, enfim, quem elas quiserem. O boicote é e sempre será um meio legítimo de protesto, a maior arma do consumidor para se fazer ouvido.
  • Fazer arte com dinheiro público é questionável, para não dizer errado, porque muito embora a gente não queira só comida, mas também diversão e arte, é preciso, antes, ter a comida, para depois mandar dinheiro público para a diversão e arte.
  • Atribuir sexualidade à criança - homossexualidade ou heterossexualidade - é tão errado quanto estimular o namoro infantil, vestir a criança com roupas sensuais, enfim, todas essas coisas estimulam a pedofilia, e considerar isso arte é, no mínimo, mau gosto - essa é a minha liberdade de expressão em exercício.
  • Todo liberal tem direito à sua opinião, inclusive à sua opinião sobre os outros e sobre o que eles fazem. Todo liberal tem o direito a não querer financiar, direta ou indiretamente, aquilo que ofende à sua moral, aos seus princípios ou qualquer coisa que ele não gostar, não quiser, não desejar... Não é um liberal aquele que acha que o artista não tem o direito de fazer a arte que quiser.

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