Como deixar a adolescência e se tornar um adulto de verdade

Por algum motivo, as pessoas desta geração associaram a vida adulta a um período cheio de obrigações e responsabilidades, e só. Quando você paga contas, você está sendo um adulto de verdade. Quando você passa o sábado assistindo a Netflix que você pagou, bom, isso não é adulto? 

Nós ensinamos aos adolescentes que toda liberdade vem associada a uma responsabilidade do mesmo tamanho. Talvez seja necessário ensinar à geração Peter Pan que toda responsabilidade vem com uma liberdade de igual valor. Ser adulto não é a pior coisa do mundo. Na verdade, não há nada melhor do que viver plenamente a idade que se tem.


A verdade é que a gente adora fingir que sofre, destacar tudo de negativo nessa vida que a gente leva, que na verdade nem é ruim. Chega de drama. Engole o choro. Vamos ser adultos de verdade, sim.

Corte o cordão umbilical e declare a independência

Ou, pelo menos, comece a planejar essa etapa. É um grande passo para você, um pequeno passo para a humanidade. A frase não tem tanto impacto quanto a original, mas a sua vida vai mudar. No entanto, tome muito cuidado: existe o jeito adulto e o jeito adolescente de fazer isso. Estamos tentando ser adultos aqui.

A maioria dos meus amigos e conhecidos saiu da casa dos pais para trabalhar, estudar ou casar, mas eu conheço muita gente que não precisou morar fora para estudar ou trabalhar, e que não vai casar tão cedo. Parece que não há uma motivação para essa mudança de endereço. Um corpo em inércia tende a ficar em inércia, não é?

A adolescência é um período de muita ansiedade pela independência - vislumbramos a liberdade, não a responsabilidade. A vontade de que as coisas aconteçam do seu jeito e de que tudo à sua volta seja uma grande declaração de quem você é. Sim, ansiamos por liberdade e gritamos "eu não vejo a hora de sair dessa casa!"

Aí nos tornamos adultos, e embora o costume tenha tornado aquele grande comichão em uma coceirinha companheira, a necessidade de ter um canto só seu continua ali. Para a maioria das pessoas. Mas nem todas fazem algo a respeito, e muitas fazem do jeito errado.

Nesse momento, se você mora com seus pais, precisa fazer uma avaliação sincera sobre o motivo pelo qual você continua com eles: os seus pais dependem de você? você está aproveitando o momento em que pode economizar para dar um grande passo no futuro? ou você simplesmente resolveu aproveitar o máximo possível até que eles não aguentem mais a sua presença e resolvam sair de casa?

E qual é o jeito errado de sair da casa dos pais? É sair como um adolescente, movido pelas emoções e sem pensar direitinho em como vai viver de forma independente. Não precisa esperar até conseguir o manter o mesmo padrão de vida que você tem morando com seus pais - uma contenção de gastos é esperada para abrigar as contas necessárias, mas não dá pra sair com uma mão na frente e outra atrás, pra dormir na casa de um amigo, pagando a sua parte do aluguel com serviços domésticos. Veja bem. Tenha um plano, um plano de adulto, e paciência para levar esse plano até o final.

Resolva a sua própria bagunça

Nem todo mundo que saiu da casa dos pais é independente (da mesma forma que já refletimos que nem todo mundo que mora com os pais está parasitando o lar). Uma pessoa autônoma precisa ser capaz de cuidar das próprias coisas. Uma pessoa responsável precisa saber consertar as merdas que faz.

Todo mundo erra. O que separa as pessoas decentes do resto é o quanto a pessoa se responsabiliza pelas suas decisões. Na vida adulta a gente lida com papéis, com burocracia e com dinheiro. Lidar com essas questões é ser o gerente da própria vida.

Isso não quer dizer que você nunca deve procurar um profissional, apenas tente não se acomodar. Você não precisa de um contador para administrar suas finanças pessoais. Peça conselhos, peça ajuda, e principalmente, peça para que te ensinem como se faz - assuma a responsabilidade pela sua permanência nessa grande bola giratória.

Aprenda a lidar com gente

Não sei se foram os computadores ou a falta de obrigação de falar com as pessoas... você já viu uma geração tão socialmente incompetente quanto a nossa? Não sabemos falar com as pessoas, temos aversão a chamadas telefônicas e Deusmelivre ter que resolver um assunto pessoalmente. Isso não tem nada a ver com ser introvertido ou extrovertido, mas com competências interpessoais. Se você não vive no seu próprio planeta, precisa aprender a falar com outras pessoas.

Tudo bem que muita coisa pode ser feita com um clique e isso facilita a nossa vida, não estou radicalizando. Mas as pessoas tinham muito mais prática nesse negócio chamado "relacionamentos interpessoais" quando esses relacionamentos não aconteciam pela via escrita, intermediados por uma tela e um avatar.

O que não mudou é que as pessoas ainda existem. São vizinhos, vendedores, prestadores de serviços, professores, colegas de trabalho, gente com quem, eventualmente, a gente precisa lidar e até, quem sabe, puxar conversa no elevador. As pessoas estão aí e não existe nada de especial em viver no seu mundinho, se recusando a interagir. Não perca a chance de interagir com humanos de verdade. Vai saber quanto tempo a gente ainda tem.

Descubra onde se informar

Um adulto de verdade não precisa saber tudo, mas é importante ter o telefone de quem sabe saber onde procurar. Isso significa que pedir ajuda é coisa de adulto, sim, com a diferença de que o adulto sabe quem pode ajudar em cada situação.

Procurar ajuda, seja de uma pessoa da sua confiança, de um profissional ou de um portal online, é muito diferente de procurar fundamentação para as certezas que você já tem, quer dizer, buscar alguém para concordar com você. É expor a sua vulnerabilidade e permitir que alguém lhe ensine algo.

Ao contrário do que a gente achava, ser adulto não significa ser perfeito e acabado, mas compreender a nossa incompletude. A maturidade traz a humildade de quem não conhece tudo, mas tenta, na medida do possível, aprender com os melhores.

Permita-se

Ser adulto não é apenas ter boletos a pagar. Aliás, a graça de crescer é poder calcular riscos e tomar decisões. A responsabilidade é apenas um lado da moeda. Ser adulto significa que eu posso decidir o que será do meu dinheiro, do meu tempo, das minhas habilidades... - em vez de depender das vontades e possibilidades de outra pessoa.

Quando a lista de prioridades é minha, eu posso decidir que prefiro sair pra jantar a assinar canais de televisão. Na sexta-feira, eu posso decidir se vou dormir mais tarde, ou se prefiro acordar cedo no sábado. E se eu preferir acordar cedo no sábado, não vou me achar uma pessoa boba ou velha porque eu não preciso me sentir pressionada, como um adolescente, a tomar as decisões que "todo mundo acha" que são as mais legais.

Ser adulto é, às vezes, errar, porque adultos assumem as responsabilidades e consertam o estrago que fizeram. É saber que a gente não tem que ser sério e produtivo o tempo todo, que a vida precisa ser equilibrada com a leveza, as risadas, que a mente precisa ser arejada, assim como a casa.

Ser adulto é se divertir sem ser idiota - e quando eu falo idiota estou falando daqueles que acham que é legal se divertir com o sofrimento de alguém, ou que tomam decisões precipitadas, assumindo uma conta que não serão capazes de pagar. Ser adulto é gastar o seu dinheiro com o seu hobby, sem ter medo de ter que explicar para alguém o que você está fazendo.

Sobre este assunto: um dos melhores livros que eu li em 2017, Como Criar um Adulto (Julie Lythcott-Haims) não ensina apenas sobre como podemos influenciar a próxima geração, mas nos faz refletir para sermos melhores adultos.

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