Quatro razões porque você faz tudo sozinha em casa

"Tudo eu nessa casa" é uma frase que une as mães e os adolescentes - uns com mais razão do que outros. Não é difícil encontrar uma mulher que acredita que o marido, os filhos, ou quaisquer que sejam as pessoas com quem ela more, poderiam e deveriam ajudar mais.

As estatísticas não me permitem falar besteira aqui: as mulheres gastam, em média, o dobro de horas nas atividades domésticas, em comparação com os homens - sem contar as donas de casa em tempo integral. Estamos falando de gente que trabalha quarenta horas por semana... e passa mais vinte horas cozinhando, limpando, lavando, passando, cuidando das crianças....

A realidade é esta, sem enfeite, nem maquiagem: o reflexo de uma cultura machista que há séculos aprisiona os homens e mulheres da nossa sociedade. Porque isso é verdade, volta e meia surgem textos, sermões, pregações, infográficos, vídeos e todo tipo de material para dizer "Homens, se toquem e comecem a fazer mais atividades domésticas".

O problema é que todo esse material é visto e aplaudido apenas por mulheres. Os homens não estão seguindo uma série de quadrinhos para entender o quanto a sua esposa está cansada e como ele é um folgado que vive como se tivesse empregada doméstica. As pessoas dificilmente chegam ao final de um texto que fala contra elas. E aí? Nada acontece.

Ficamos esperando que os homens mordam a isca para se instruir, criem consciência sobre o mundo ao seu redor, que eles entendam indiretas e que todo mundo contribua em casa de forma mais ou menos igual, sem precisar ficar falando, repetindo, insistindo, brigando... Enfim, ficamos esperando que a mudança parta deles.

"Eu já faço demais", eu sei, eu sei. Mas se você é adepta do "quer fazer bem feito, faça você mesmo", então você sabe que a forma mais eficiente de mudar a sua realidade começa com a sua própria mudança. Será que você não está fazendo algo para contribuir para o seu próprio martírio?




Toda a organização da casa está concentrada em você

Saber o que tem que ser feito - parece óbvio, mas não é. A coisa é muito mais simples quando não envolve várias pessoas. Quais são as tarefas que precisam ser feitas, e com que frequência? Acredite, isso não é universal, tampouco é um conhecimento implantado no cérebro desde a fase embrionária. É daquelas coisas que a gente aprende em casa, com as figuras de referência e com nossa própria experiência.

A grande questão é que cada pessoa tem um histórico diferente - experiências diferentes, criação diferente - e traz consigo a cultura do seu berço, que pode ser muito, muito parecida com a sua, mas sempre será diferente. Isso significa que esses detalhes, que a carrega a vida toda, e por isso parece tão óbvio, precisam ser esclarecidos quando estamos lidando com mais de uma pessoa. Não dá pra cobrar das pessoas a execução de tarefas que só existem na sua cabeça.

Vocês podem sentar e decidir como organizar as atividades domésticas, para formar um plano. Não importa se cada um terá as suas tarefas definidas, ou se simplesmente vão definir o que precisa ser feito, sem designar pessoas específicas... O importante é que todas essas coisas saiam da sua cabeça e estejam em um local acessível a todos.

Ninguém faz como você

Para que as pessoas realizem certas tarefas, é importante dar a elas a liberdade necessária para fazer do jeito delas. Há uma diferença enorme entre dar sugestões para melhorar o processo e ditar passo a passo de como fazer cada coisa.

A sensibilidade precisa ser maior quando falamos de pessoas que, diferente de você, não têm anos e anos de prática. O nível de exigência precisa ser menor para quem está aprendendo. Costumamos fazer isso com as crianças, mas por algum motivo não temos paciência para deixar que o adulto aprenda.

Nem toda crítica é útil ou necessária - o que você acha super importante pode ser apenas uma mania, e a maioria das críticas pode ser transmitida sem um tom ofensivo - em vez de enfatizar o que está errado, dê uma sugestão sobre como essa pessoa pode melhorar.

Muitas mulheres criticam e até ridicularizam os maridos no serviço doméstico ou no cuidado com os filhos apenas para reforçar um estereótipo - "olha o jeito que ele segura a criança", "olha quanta água ele coloca no balde", "todo esse tempo pra lavar uma louça..". Se você recebesse esse tipo de estímulo, qual seria a sua reação?

Deixar que os outros façam significa aceitar que cada um vai fazer do seu jeito - segundo as suas competências e limitações. Se você não consegue lidar com as pessoas fazendo de um jeito diferente do que você faria - que não é necessariamente errado - talvez seja melhor aceitar que sempre fará tudo sozinha.

Você sustenta padrões irreais

Existe um limite daquilo que é possível em uma casa onde as pessoas vivem. Muita gente usa esse limite como desculpa para a bagunça. "Casa arrumada não tem vida" - quantas vezes não ouvimos isso? Eu já falei que não é verdade. Existe um equilíbrio entre a casa impecável do showroom e a casa onde ninguém liga porque as pessoas estão vivendo - em meio ao caos.

A gente se cobra demais pela cortina que não ficou bem ajeitada, pela ponta do tapete que está dobrada, pelo cisco que caiu no chão. O fato é que aquela casa impecável do fim de sábado - ou que é arrumada para as visitas - não se sustenta por mais de duas horas, não deu nem tempo de descansar da faxina.

Descubra o padrão de limpeza e organização que você consegue sustentar. Em vez do ciclo semanal em que a casa fica muito suja e bagunçada, para depois ficar muito limpa e arrumada, encontre um padrão realista, que vocês conseguem manter todos os dias, sem precisar de uma força-tarefa.

Acredite: é muito melhor viver em uma casa 8/10 todos os dias do que passar duas horas em uma casa impecável, sendo que nessas duas horas você está tão cansada que nem consegue curtir antes do primeiro suco derramado.

Os padrões irreais são tão exigentes, que desanimam muita gente antes mesmo de começar - a gente sabe que vai dar trabalho e não vai durar. É muito melhor envolver todo mundo na manutenção de um padrão realista do que se frustrar porque toda aquela faxina só durou duas horas.


Você mora com pessoas mal-educadas

Existe gente ignorante e existe gente sem noção. Estou falando de gente folgada, egoísta, egocêntrica e preguiçosa. Nesse ponto, pensando no que se pode fazer a respeito, há uma diferença enorme a partir de quem são as pessoas que moram com você. Algumas relações são voluntárias, outras não. Algumas situações você ajudou a criar, outras já estavam lá quando você nasceu.

Você não escolhe os seus pais, mas escolhe o amigo com quem vai dividir o apartamento. Você não tem muita influência sobre a educação do seu marido - as pessoas mudam, mas não mudam -, mas é 100% responsável pela educação do seu filho (não, não é 50% pra cada um, é 100% pra cada um: lidem com essa matemática).

Algumas situações podem ser remediadas imediatamente, outras requerem tempo de planejamento e preparo. Às vezes vale mais a pena ser trouxa do que passar a vida inteira falando com as paredes - sabe como é? Afinal de contas, na maioria das vezes, a gente escolhe quem são as pessoas que a gente mora, e escolher errado traz pro seu colo uma parte da responsabilidade...

Pode ser que a paz interior esteja em fazer o que tem que ser feito, e se sentir feliz consigo mesma. Se você se sente bem com isso, não tem problema nenhum em fazer tudo sozinha.

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