Livre da pílula

A superestimada pílula. Há quem diga que ela foi responsável pela libertação feminina, mas eu diria que foi o contrário. Tomamos a pílula para não precisar pensar no assunto - toma todo dia e não vai engravidar. Com o tempo, a pílula passou a ser receitada para tudo - regular a menstruação, ovários policísticos, endometriose e até acne. Parece um milagre. Nossos problemas acabaram?



Você se lembra da sua primeira consulta? Eu me lembro que não houve muitas perguntas, nem muitos esclarecimentos. Afinal, era uma solução óbvia. Não quer engravidar, toma pílula. Ninguém pergunta o porquê, ou se há alternativas... ninguém pergunta se há contraindicações.

Eu tinha sangramentos muito intensos na pausa da pílula, tão intensos que não podia doar sangue e precisava de suplementos durante todo o ciclo para não ficar anêmica. A solução: outra pílula, sem pausas. Sem pausas, sem sangramentos. Funcionou bem por um bom tempo, até que o corpo não aguentou. Tomando a pílula, eu passei a ter sangramentos diários. Não era muita coisa, mas era como uma torneira pingando. Constante.

Consegue imaginar a agonia?

Nesse momento eu já estudava há algum tempo sobre métodos alternativos, mas não cogitava parar a pílula por causa do risco de engravidar. Durante os meus estudos, eu tomei ciência de que o meu histórico familiar não é favorável à administração da contracepção hormonal, mas o medo de engravidar era maior. (Não é assustador que a gente tenha mais medo de engravidar do que de ter um piripaque e morrer?). Mas eu não aguentava mais sangrar sem parar. Sem parar.

A minha ginecologista pediu exames e mandou parar a pílula por um mês, e naquele momento eu decidi: eu não volto mais. Ainda sangrei por vinte dias depois que parei e no retorno, com todos os exames perfeitos, comuniquei a minha decisão de não tomar hormônios e saí do consultório com uma receita de suplementos pré-concepcionais. Ou pílula, ou grávida. Ou não.

Toda essa história já faz mais de um ano e eu não engravidei, não por algum problema ou porque tive sorte, mas porque eu não quis e porque existem métodos contraceptivos não hormonais eficazes o bastante para permitir isso. Eu optei pela combinação de um método de percepção da fertilidade com um método de barreira.

Independente do método que você usa - mesmo que seja a pílula - se você não quer engravidar de jeito nenhum, precisa combinar pelo menos dois métodos contraceptivos porque 1) todo método tem uma taxa de falha em uso perfeito e 2) o mau uso do método aumenta essa taxa de falha. Todo mundo conhece alguém que engravidou tomando pílula, né? A combinação de métodos serve para que um cubra a taxa de falha do outro.

Nada como o autoconhecimento
Eu já falei que não gosto dessa palavra, mas preciso dizer que não há nada mais empoderador do que o autoconhecimento. Saber como funciona o seu corpo, saber interpretar os sinais que ele dá e usar essas informações para tirar o melhor proveito dos seus dias.

O ciclo feminino é muito complexo - é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Quatro hormônios sendo ativados em momentos diferentes que fazem funcionar a engrenagem do corpo. Muita coisa mudando o tempo todo! O caminho do óvulo, as mudanças do endométrio, mudanças na temperatura do corpo...

Muita gente confunde percepção da fertilidade com tabelinha, como se não fossem opostos. Seguir tabelinha é pegar aquele ciclo de vinte e oito dias, supor que a ovulação acontece exatamente na metade do ciclo e querer que o corpo corresponsa a essas expectativas. Percepção da fertilidade é uma leitura de dentro pra fora, é o corpo, e não o livro, quem conta o que está acontecendo. É informação confiável e personalizada em tempo real.

Meu corpo não é sujo
De tudo, pra mim o mais surpreendente foi descobrir que nem tudo o que sai da vagina é corrimento. Essa informação crucial quebrou uma barreira enorme, a barreira do nojo. Desde a adolescência, encontrar uma secreção na calcinha trazia frustração e uma cobrança interna - falta higiene, falta limpeza, falta cuidado.

A descoberta de que não é algo sujo, mas algo lindo - sinal de fertilidade! - trouxe uma sensação completamente diferente, um deslumbramento, uma curiosidade, a alegria de ver, em mais um sinal, que está tudo funcionando direitinho. Minha vagina é minha amiga. Sai, neura!

A parceria fundamental
A contracepção não é um assunto feminino. Dentro de um relacionamento, a contracepção será sempre um assunto do casal. Está dentro da área mais íntima da relação, onde não há espaço para desonestidade.

Enquanto eu estudava sobre o assunto, antes de tomar a minha decisão, eu compartilhava com meu marido todas as informações. É um direito e um dever dele também participar dessa escolha, estar bem informado quanto às alternativas, indicações e contraindicações.

Os métodos que escolhemos foram uma decisão conjunta e consciente. Quando eu falei para ele que não queria mais tomar hormônios, ele sabia o porquê. Esses fatores ajudaram muito nos momentos de arrependimento - sim, às vezes a gente se arrepende e enche o saco. Tomar a pílula é muito mais fácil, é prático, não precisa pensar. Saber o porquê de estar fazendo o que se está fazendo é fundamental para levar à frente qualquer projeto.

Saudades da pílula?
Parar de tomar a pílula não serviu só para estancar o problema imediato. Eu percebi diversas mudanças em mim, algumas coisas que eu nem sabia que eram influência dos hormônios que estava tomando. Uma elevação da disposição, da sensação de bem-estar, da libido... só tenho uma coisa a lamentar, porque não seria honesto deixar de dizer: quando eu tomava hormônios minha pele era per-fei-ta. Voltei a conhecer cravos e espinhas, meio chato, mas nada grave, né?

Agora que eu me sinto dona do meu corpo, consciente do que estou fazendo e do porquê estou fazendo... agora que provei para mim mesma que é possível ter uma vida sexual ativa e não engravidar, mesmo sem a pílula... eu posso dizer que liberdade é não precisar fazer o que não se quer. Eu não preciso da pílula. Essa é a minha libertação feminina.

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