O jeito errado de educar

Eu costumo dizer que, enquanto educadores - pais, tios, avós, preceptores, professores, guardiões, seja lá qual for o título oficial - o nosso papel é de moldar uma personalidade única para que ela consiga conviver com as demais e aproveitar o seu potencial. Assim como cada criança é única, cada um de nós tem o seu jeitinho especial de educar - experiência, crença, cultura, educação, tudo isso e muito mais influencia nas nossas escolhas.

É certo que existem muitas formas de educar, e também é certo dizer que não há uma maneira correta - e nesse ponto o respeito é fundamental. Procuramos aquela que parece ser mais correta segundo nossas crenças e valores, mas não podemos esquecer que as outras pessoas dificilmente terão exatamente o mesmo conjunto informativo, e mesmo que compartilhem, podem considerar de maior importância algo que consideramos não ser tão fundamental.

Todo mundo acha importante que as crianças tenham saúde, mas isso significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Para uns, criança saudável é a que não está doente, para outros é a que come frutas e verduras, outros consideram fundamental para a saúde que a criança não experimente açúcar até os dois anos de idade. 

Enquanto a gente discute quem está mais certo, a probabilidade de que todos estejam vivos e saudáveis daqui trinta anos é muito grande, e que todos nós tenhamos perdido o nosso tempo discutindo, maior ainda. É necessário um esforço de empatia para compreender que todo mundo - ou pelo menos a maioria das pessoas - está tentando fazer o seu melhor, na medida do possível.



Por outro lado, não podemos cair na armadilha de pensar que todo mundo está certo do seu jeito. Existe, sim, o jeito errado de educar.

Dependência

É um paradoxo muito grande ter um serzinho completamente dependente de você. É maravilhoso, péssimo e assustador, tudo ao mesmo tempo. Dá medo de fazer tudo errado e, ao mesmo tempo, medo de deixar que eles façam e errem mais ainda. Dá aquela canseira de ter que fazer tudo e, ao mesmo tempo, aquela dor no coração de saber que somos cada vez menos necessários.

É um desafio educar humanos autônomos: o delicado equilíbrio entre a segurança e a ousadia. Ainda, é completamente necessário que as crianças desenvolvam, em seu próprio tempo, a autonomia de que vão precisar pra não ter que pedir pro pai abrir o pote em rede nacional.

Dá medo de soltar essas pessoinhas nesse mundão? É claro que sim. Mas é melhor aprender a cuidar da própria vida em um ambiente seguro do que, de uma hora pra outra, precisar se virar sozinho e não ter com quem contar.

Ninguém dura pra sempre, e a dependência traz uma fragilidade enorme à vida de uma pessoa. Hoje, a maior dificuldade dos adolescentes institucionalizados e dos egressos de acolhimento (estou me referindo aos "orfanatos" e "abrigos", que a gente não chama mais assim) é a ausência de autonomia - não aprenderam como fazer compras de supermercado, como pegar um ônibus, como funciona um cartão de crédito.

Não importa se o seu estilo é mãe-águia, que joga o filhote do penhasco e fica observando pra ver se vai dar tudo certo, ou se o seu negócio é criação com apego, ou alguma coisa no meio dos dois. É importante incentivar a autonomia.

Arrogância

Há um movimento muito interessante na educação que destaca a criança como uma pessoa a ser respeitada, na mesma linha do Estatuto da Criança e do Adolescente, que elevou as crianças ao status de sujeitos de direitos - e não mais objetos. Esse movimento diz respeito à consideração da criança como um ser dotado de personalidade, uma pessoa única, que tem aptidões e desejos, que se emociona, que age e reage. Um ser a ser compreendido, antes de corrigido.

Não há nada de errado com esse movimento. Não é disso que se trata o jeito errado de educar. Crianças são pessoas e devem ser tratadas como tais. Respeito gera respeito. Amor gera amor. Etc gera etc.

O problema surge quando elevamos a criança ao status de super-pessoa, majestade, soberano. A coroação da infância faz com que em cada lar habite um pequeno monarca - mas a mamãe não é a rainha e o papai não é o rei. Diante da majestade criança, todos somos súditos.

Crescer com essa mentalidade é muito cruel. É uma visão de mundo distorcida, como se fosse toda feita de vidro, que a qualquer momento pode se estilhaçar, com cortes, gritos e traumas. A criança precisa dos limites, precisa do não, precisa ter consciência de que existem outros, e que ela é mais um dentre os outros. Antes que os outros ensinem isso pra ela. Fora de casa as lições não são temperadas com amor.

Medo

Nenhum ambiente violento é saudável para qualquer pessoa. Nenhuma criança se desenvolve bem quando vive com medo. Eu sei que muitos vão dizer "mas eu cresci com medo do meu pai e tô aqui". Só que eu não estou falando que as crianças vão literalmente morrer de medo - muito embora a morte não seja um resultado incomum em um ambiente de violência.

Viver com medo faz mal porque o medo não é o contrário da coragem, mas da confiança. Algumas coisas não são letais e ainda assim trazem prejuízos com os quais a gente precisa conviver e tratar na terapia anos depois. Crianças precisam se sentir seguras - confiança em si, nos pais, nas pessoas, em Deus - para chegar à plenitude do seu desenvolvimento.

Existe uma dose saudável de medo, aquela que nos faz viver longos anos. O medo que nos impede de morrer de um jeito estúpido. A medida certa de medo não nos impede de desenvolver vínculos de confiança com outras pessoas. A medida certa de medo não nos impede de calcular riscos, tomar decisões corajosas e executar atos de bravura. A medida certa de medo é aquela que nos ensina a viver num mundo de sobreviventes.

Ignorância

Uma saia justa todo dia. Nada passa despercebido aos seus olhos e ouvidos, e o filtro entre o que se pensa e o que se fala praticamente não existe. A curiosidade é enorme e precisa ser bem aproveitada para estimular a inteligência e a criatividade.

No meio de tantos o quês e porquês, às vezes a gente se perde. Seja por não sabe como explicar um assunto complexo para uma pessoa tão nova, ou por achar que não está na hora de aprender esse tipo de coisa, ou mesmo porque a cota de porquês do dia já explodiu junto com a paciência.

Todo aquele rebolado para não responder as perguntas cabeludas ou contar mentiras para encobrir uma história que você não quer contar agora acabam se revelando armadilhas que podem explodir bem na sua cara.

Eu disse recentemente e reafirmo: cabe aos pais decidir, na medida do possível, quando, onde e como abordar assuntos sensíveis e importantes. Por outro lado, quando estivermos lidando com a medida do impossível, precisamos tratar as crianças com honestidade e franqueza, sem esquecer a idade que têm e a sua capacidade de compreender a complexidade da vida.

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