O que a escola ensina

Bias. Palavra que indica uma tendência, inclinação, preferência. Inclinações não são sempre ruins. As pessoas precisam de preferências, tendências e inclinações - o nome disso é ter opinião. É importante que cada um tenha a sua. Quem lê este blog conhece quais são as minhas tendências e inclinações. Mas a opinião tem o seu lugar, assim como a imparcialidade.

Quando a opinião ultrapassa o seu espaço demarcado no jornal, a informação é comprometida. Pior, quando a opinião se disfarça de imparcialidade, quando teorias se apresentam como fatos, quando a preferência de uns sufoca as preferências dos outros, o que era tendência se transforma em manipulação.

Dizem que a imparcialidade é impossível. Talvez seja verdade, mas uma coisa é certa: os problemas causados pela parcialidade diminuem consideravelmente quando há uma parcialidade honesta, quando admitimos e confessamos quais são os parâmetros, as tendências, as crenças, os valores que informam nossas preferências. 

Ao entrar em uma igreja, temos uma noção razoavelmente clara do que será pregado ali. Ninguém espera cultuar um deus hindu em uma igreja evangélica, mas ninguém vai a uma igreja se não quiser - pelo menos não deveria. Embora não existam muitas opções lá dentro, estar ali é uma opção.

Independente do que diz a lei, o STF e o povo do Facebook, é papel da família ensinar sobre sexo, religião, política, entre outras coisas, porque os valores morais são o tipo de educação que a família concede à criança. A escola existe para ensinar conhecimentos específicos.

É claro que as coisas se misturam um pouco na linha divisória entre o educar e o ensinar. A escola precisa lidar com a ética, os pais precisam ajudar os filhos a aprender o conteúdo escolar. No entanto, essa área cinzenta onde a parceria deveria ocorrer pode se transformar rapidamente em zona de conflito.

Não é que a educação não possa ser informada por valores específicos - sejam eles políticos, religiosos, morais... - mas ela precisa ser completamente honesta sobre esses valores desde o princípio. Não há promessas de imparcialidade religiosa em um colégio adventista ou vincentino. Instituições educacionais com propostas pedagógicas não convencionais procuram deixar os valores de sua abordagem bem claros aos pais e responsáveis - eles sabem que precisam de uma parceria, e não de uma zona de conflito.

É totalmente aceitável que isso aconteça porque ninguém é obrigado a matricular os filhos no colégio de freiras. É uma opção. Não concorda, leve a sua criança para outra escola. O problema é quando a optativa se torna obrigativa. Por diversas circunstâncias, as pessoas podem se ver sem condições de optar por uma educação em conformidade com os seus valores familiares.

Quem matricula seus filhos na escola pública normalmente não tem muita liberdade de escolha sobre a escola - é a mais próxima do seu endereço, a que tem vagas, a que aceita crianças peculiares... O Estado não seleciona os pagadores de impostos - ele aceita o dinheiro de todos para prestar serviços a todos, portanto não pode aderir a uma opinião em detrimento das demais.

Se por um lado a instituição pública não pode ter um posição oficial em matérias opinativas e altamente controversas e pessoais, é impossível exigir o mesmo dos agentes estatais. Sugerir que as pessoas não devem ter ou manifestar opiniões quando exercem suas funções é, no mínimo, ingênuo, e no fim das contas funciona como a desculpa perfeita para vestir de imparcialidade e absoluta correção aquilo que não passa de uma opinião ou preferência pessoal.

É simples assim: se eu não devo manifestar a minha opinião, a minha fala nunca será meramente opinativa, mas revestida de formalidade, apesar de contaminada, inevitavelmente, com a minha opinião. Esse recurso pode ser usado propositalmente - aproveitando-se da cátedra para o doutrinamento dos alunos vulneráveis - ou de forma inocente - tem gente que acredita mesmo que consegue informar sem opinar.

Por isso que, em todos os casos, é sempre melhor ser honesto. As opiniões surgirão inevitavelmente. Os assuntos surgirão inevitavelmente. As crianças não têm filtro sobre o que se conversa em casa e o que se conversa na escola, e muitas sequer terão a oportunidade de falar sobre certos assuntos em casa.

Mas os assuntos devem ser tratados de forma honesta, colocando as etiquetas certas naquilo que é opinião e no que não é, tendo o tato de dizer que algumas perguntas devem ser levadas para casa - ainda que encontrem uma resposta (dentre muitas) na escola. As crianças precisam ser estimuladas a investigar, a ouvir diversas fontes e a formar a sua própria opinião. E isso vai além, muito além das aulas de filosofia. 

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