Isto é uma intervenção

Todo mundo tem uma mania esquisita, né? A pessoa que se veste todo dia de azul, aquela que só usa camisas polo, a pessoa que só dorme depois de lavar a louça, a pessoa que deixa acumular até adquirir pequenos colegas de apartamento. Tem gente que é obcecada com uma cor, uma série, um estilo musical, gente que faz coleção de tampinha de garrafa, DVD, sapatos. Aquele cara que em todas as conversas dá um jeito de falar sobre o seu assunto preferido, aquele que não pode ouvir de um assunto que já desconversa.


A maioria dessas manias é bem comum, tão comum que a gente nem percebe que é meio esquisito aquela pessoa estar sempre com a cor azul em alguma peça de roupa... mas de vez em quando as nossas manias e obsessões passam dos limites, quando a gente percebe que aquele colega que gosta de cerveja nunca foi visto sem uma cerveja na mão. Quando ninguém aguenta mais o amigo que não para de falar da ex, está na hora de uma intervenção.

O Brasil estava com uma mania de conservadorismo que a gente achou até engraçadinha. Os tiozinhos vestindo a camisa da seleção e indo às ruas protestar. Aquele monte de gente ocupando as principais avenidas do país para dizer que é contra a corrupção. Gente que nasceu nos anos noventa pedindo a volta dos militares. Estranhamente fofo.

Alguns políticos se aproveitaram da situação e ganharam notoriedade. Essa onda de conservadorismo não cresceu à toa, mas não foram esses políticos os seus criadores... eles apenas surfaram a onda. A onda é criada por um vento que incomoda a água que, de outra forma, estaria calma. Quanto mais forte o vento, maior a onda. O vento, no caso, foi o fracasso, agora evidente, da gestão que se dizia "de esquerda", e que, implementando muitas medidas estatistas, veio a criar uma marolinha crescente, que está quebrando só agora. É o Brasil a beira do caos.

Não adianta querer se enganar e dizer que o que estamos vivendo agora é fruto de dois anos, e não de dez. Não quero dizer que o governo atual fez tudo certo ou nada errado, o que eu estou dizendo é que é errado afirmar que a nossa situação atual foi causada, exclusivamente, por este governo, ou pelo anterior, assim como é errado assumir que o Brasil não passaria por esta situação se o governo anterior não tivesse caído.

As políticas que guiaram o governo dos últimos doze anos não são inéditas, e seus efeitos não são desconhecidos. O crescimento do controle estatal é capaz de gerar uma aparência de bem-estar muito realista, mas quando passam os efeitos da realidade virtual, o efeito colateral aparece: o mundo de repente fica esquisito, como se estivesse girando de cabeça pra baixo, e demora um pouco para voltar ao normal. É sempre assim. Outro efeito interessante é que a gente tende a culpar a realidade real porque é nela que a esquisitice toda acontece. Durante a realidade virtual esava tudo bem... e aí dá saudade.

Um caso mais esquisito é o das pessoas que acabam gostando desse jeito esquisito de viver. Elas já se convenceram de que "esse mal é para o bem", mas perderam a perspectiva do bem vindouro. Ficam obcecadas com o gosto amargo, e começam a achar que isso é que é o bom, é isso que faz bem. Quanto pior, melhor. Começam a desejar coisas absurdas, uma doença, um câncer, um tiro na cabeça. Aquilo que faz mal, há de fazer bem.

É por isso que o Brasil precisa de uma intervenção. Não é uma intervenção militar, comunista, conservadora ou anarquista. É uma intervenção sanitária. Precisamos lembrar como é ser normal... na verdade, talvez seja importante aprender o que é ser normal, e chamar as coisas pelo que elas são. Está na hora de recuperar a sanidade.

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