Rotina doméstica: o que funciona?

Há um tempo atrás circulou uma história nas redes sociais sobre os maridos que não fazem nada em casa porque a mulher não pediu ajuda. A gente já falou por aqui que a falta de comunicação é um problema fundamental e que nada é óbvio. Então sim, existe uma parcela de responsabilidade, mesmo que seja só aquele um por cento, da pessoa que sempre faz tudo sozinha e não se comunica, não verbaliza o quanto está cansada sobrecarregada etc. 

Mas a história abordou um ponto interessante e importante que é um problema muito comum: o domínio das tarefas domésticas pelas mulheres. E não estou falando simplesmente  que as mulheres fazem mais coisas, mas principalmente do fato de que só ela sabe o que precisa ser feito e só ela sabe como fazer.


Existem muitas checklists disponíveis na internet e muitas formas de gerenciar os afazeres domésticos, mas ainda há uma centralização muito grande dessas atividades sobre a mulher. No início do casamento, até alguns anos atrás, as tarefas de limpeza da casa ficavam no meu aplicativo de organização pessoal. Eram minhas tarefas porque elas estavam na minha lista de coisas pra fazer, que só eu tinha acesso.

Hoje nós temos um sistema diferente. Primeiro, porque ele é impresso e fica na parede da lavanderia, disponível e acessível a todos os habitantes da casa porque todos podem e devem participar das rotinas que não são minhas, nem de nenhuma outra pessoa. São rotinas da casa, os responsáveis por crumpri-las são as pessoas que moram nela. Segundo, porque é uma lista que não deixa de descrever o óbvio. Ninguém pode dizer que não sabia o que era pra fazer, ou que não sabia como fazer.

É importante atentar para o fato de que querer envolver todo mundo nas tarefas significa abrir mão do controle. Não dá pra exigir que todo mundo faça tudo exatamente como você faria. É um trabalho em equipe. As crianças não vão executar tão bem as tarefas que você faz todos os dias há décadas, e isso se aplica a qualquer adulto que não passou por isso na infância. A curva do aprendizado exige um bocado de paciência, e é essa falta de paciência que, muitas vezes, deixa a pessoa trabalhando sozinha. Ninguém aprende a fazer com perfeição sem errar.

Um grupo de mulheres se junta para criticar um pai trocando fralda exatamente da mesma forma que um grupo de homens quando uma mulher manobra o carro.

Eu já falei algumas vezes que não faço faxinas. Aqui cada um tem sua rotina e a casa também tem uma rotina daquilo que precisa ser feito diariamente, semanalmente, a cada três dias, quinze dias e assim por diante.

Por muito tempo, as tarefas semanais eram divididas ao longo da semana para não acumular todo o serviço da casa para um dia só - eu não gosto da ideia de perder um dia inteiro fazendo limpeza. Talvez a sua rotina não permita isso. Funcionou para mim, e até hoje grande parte ainda é dessa forma, mas a nossa rotina mudou. A vida é dinâmica e essas mudanças operacionais precisam acontecer para acomodar as outras mudanças. Não dói.

O que tem funcionado por aqui é uma profissional que vem quase semanalmente para fazer principalmente essas tarefas que não são diárias, enquanto a manutenção da ordem no dia a dia é feita pelas pessoas que moram na casa, conforme a disponibilidade de cada um.

A gente tem que descobrir o que funciona pra gente e viver sem culpa pelo modo como a nossa vida funciona. É quase inevitável que alguma das pessoas fique com a maior parte das tarefas, ou com as tarefas mais chatas. A gente não faz sempre o que gosta, e dividir as tarefas domésticas meio-a-meio é uma conta complicada de se fazer. Qual seria o critério da divisão?

O que a gente pode fazer é ajustar o sistema até chegar no nosso ideal, que dificilmente vai se encaixar no padrão de qualquer outra pessoa. Você não tem que se sentir mal porque o que funciona pra você não é o que os outros consideram justo. Só você está na sua pele.

O fator fundamental é que a rotina da casa não é minha ou do marido ou da diarista... é a rotina da casa, e todas as pessoas envolvidas têm responsabilidade. É uma mudança na forma de ver as coisas que muda o comportamento de todo mundo. 

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