Estado laico, igreja apolítica

Estado e Igreja estão em um relacionamento complicado há séculos. Há quem confunda as duas coisas como uma só; para outros, devem ser completamente heterogêneos. Muita gente diz que esses assuntos a gente não deve nem discutir. Misturar política e religião... dá certo?


Não sei se essa é a pergunta certa, até porque é difícil separar as duas coisas, ao menos quando falamos do cristianismo. Não me refiro ao fato de que alguns políticos usam igrejas como palanque - ou pior, curral eleitoral, muito menos encorajando a teocracia. O cristianismo é intrinsecamente político, não por se envolver em eleições ou ocupar cargos de governo, mas porque está comprometido com a transformação da cidade, a polis. É impossível se importar com a cidade sem fazer política.

Infelizmente, a política tomou dimensões nefastas, dando novo significado à palavra. Quando falamos em política, normalmente não estamos mais falando da vida das pessoas, mas de um processo eleitoral, da arte de se obter o que se quer pelo cultivo de relacionamentos lucrativos, da corrupção e das pessoas que a praticam. Política virou coisa suja, quando na verdade é coisa nossa. Talvez seja desnecessário, mas eu quero esclarecer que não é nessa política que a igreja precisa se envolver.

O distanciamento da política e das ações do Estado é uma barreira que conversa muito bem com a separação entre igreja e Estado. O Estado deve ser laico. A igreja deve ser apolítica. Deus me livre falar de coisa suja num lugar tão santo. Mas qual é o papel de cada um? Hoje, talvez, seja fácil dizer, porque já separamos muito bem: Igreja é para adorar a Deus, para cultivar a espiritualidade, para tratar os anseios da alma; Estado é para servir a população, tratar os doentes, alimentar os famintos, garantir a justiça.

Se a descrição do Estado lhe parece familiar, é bem provável que você a tenha visto na Bíblia, e por isso eu digo que o cristianismo é totalmente político. Muitas políticas públicas deram início no domínio eclesiástico, como ações de compaixão e graça da igreja: educação pública, cuidados de saúde para todos, assistência social, direitos humanos... 

Então, o que aconteceu?

Em algum momento o Estado começou a participar dos serviços oferecidos pela Igreja - momentos diferentes a depender do serviço - até assumir a função total ou majoritariamente. Quando começamos a pagar para que o Estado assumisse essas funções, terceirizamos uma importante porção da missão da Igreja, cruzamos os nossos braços e deixamos o Estado fazer "o seu papel", que na verdade é o nosso. A Igreja se recolheu a uma insignificância que não era sua, e chamou isso de neutralidade política, como se fosse algo bom, útil e necessário.

Enquanto isso, o Estado, torna as pessoas cada vez mais dependentes de si, convencendo-as de que ele é o único que pode dar a todos o que necessitam, e que a sua onipresença regulatória e mantenedora é extremamente necessária para garantir que ficaremos bem. O Estado deixa, portanto, de ser laico, para se tornar um deus, apresentando o mesmo comportamento que se vê em muitas religiões, inclusive em igrejas que se declaram cristãs.

Mas o cristianismo não é sobre aprisionamento e dependência da religião ou da igreja. Também não é sobre anarquismo e corrupção da ordem e da autoridade estabelecida. O cristianismo é sobre liberdade, seja qual for a prisão - a miséria, a corrupção, a mentira, a vaidade, a tirania, o conservadorismo, o legalismo, a ignorância, a doença - a proposta do cristianismo é de libertação.

0 comentários: