O consumismo é capitalista?

Cada nova fase da vida é um momento de muitas descobertas. As vidas de um novo universitário, de uma nova mãe, de alguém que acabou de alugar seu primeiro apartamento têm em comum um monte de novidades, um monte de dúvidas e um monte de propaganda de coisas que o mundo jura que você precisa. O consumismo quer aproveitar a oportunidade na janela da ignorância de quem está adentrando um mundo novo e não tem certeza do que realmente precisa - é a hora perfeita para convencer a comprar um produto.



No mundo do marketing digital, o mercado ficou ainda mais esperto para captar as pequenas mudanças e começar a disparar a propaganda antes que a janela se feche. Informe uma rede social sobre uma gravidez e bam! em todos os lugares aparecem roupas de bebê, berços, carregadores  e outros acessórios. Uma marca de fraldas começa a te mandar emails. Todo mundo quer o dinheiro da nova mãe empolgada que acha que precisa de tudo - "é melhor não usar do que precisar e não ter". 

Uma vez eu falei no Facebook sobre um produto quase completamente inútil, uma embalagem personalizada para ser usada apenas uma vez e depois descartada ou guardada como lembrança. Na minha mente minimalista, isso não faz sentido nenhum. Apareceram muitas pessoas para concordar e discordar de mim, mas somente uma para perguntar se eu era marxista. Só uma, porque quem me conhece sabe que muito pelo contrário, mas é uma associação comum, a de pensar que o consumismo é capitalista, e que quem nada contra essa corrente só pode ser marxista.

A associação do consumismo ao capitalismo é bastante lógica, porque somente o capitalismo fornece o ambiente favorável ao consumo - consciente ou não. Mas isso não quer dizer que a promoção do consumo consciente seja marxista, porque o consumo consciente pressupõe uma liberdade que somente o capitalismo proporciona. Se você não pode escolher o que vai consumir, seu consumo não é consciente.

A liberdade de escolha é o grande "pro" do ambiente capitalista. Nenhuma circunstância é capaz de retirar completamente o direito de escolha do indivíduo na sociedade capitalista, muito embora alguns queiram dizer o contrário. Apontam a propaganda, a ignorância e a falta de recursos como cerceadores da liberdade produzidos pelo capitalismo, mas nada disso tem força para obrigar as pessoas a consumir, nem mesmo tem força para impor a sua presença, de modo irredutível e permanente, às pessoas.

A propaganda tem por objetivo convencer uma pessoa a se tornar um consumidor. Dizer que a propaganda obriga a consumir é dar muito crédito ao marketing, ou pouco crédito às pessoas. Na pior das hipóteses, a propaganda em si pode ser evitada ou facilmente ignorada - nenhum recurso essencial à vida obriga a assistir um vídeo de trinta segundos para continuar. 

A ignorância é uma condição sempre temporária e muitas vezes autoimposta, mas é sempre melhor administrada onde há livre trânsito de informações, isto é, onde a informação não é controlada por uma agência coercitiva. A maioria das pessoas prefere a comodidade da ignorância do que a preocupação do consumo consciente. É mais fácil comprar tudo do que pesquisar o que comprar.

A falta de recursos, quando cerceadora de liberdade de consumo, é também um pouco de ignorância. Os produtos industrializados parecem ser mais baratos do que produtos in natura, mas quem já parou para pensar que o quilo do miojo pode custar R$ 12,50? Ou que um quilo de biscoito recheado pode custar R$ 15,00? 

Essas informações não estão sequer ocultas, quase sempre o preço do quilo está disponível junto ao preço da unidade (em tamanho menor, mas está lá), ou acessível por uma simples regra de três. São produtos mais caros, menos nutritivos e que saciam a fome por menos tempo - porque são digeridos muito rapidamente - do que frutas e cereais. 

Quando temos menos recursos, precisamos atacar a ignorância para fazer as melhores escolhas. Novamente, escolhas somente são possíveis em um ambiente de liberdade proporcionado pelo modelo econômico capitalista. 

Isso não impede que o Estado e a própria sociedade se organizem para ajudar aqueles que não têm, não sabem ou não conseguem discernir melhor, muito pelo contrário. Onde a liberdade é mais valorizada, haverá sempre espaço para cultivar a autonomia do outro.

O consumismo não é capitalista, o consumismo é um anseio humano. A vontade de possuir existe muito antes da capacidade de entender o dinheiro, o capital, a troca. Esse anseio humano somente pode ser controlado por uma força interna ou externa. A força externa é uma privação de liberdade - seja ela dominadora ou paternalista, toda privação de liberdade é opressora. A força interna é o consumo consciente, o exercício informado da liberdade de escolha do consumidor.

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