Hermenêutica e o Desafio da Educação Cristã (Série Essencial Invisible College)

Esta é uma série de textos escritos para o curso de Teologia Essencial do Invisible College. O curso consiste no estudo de um tema da teologia por mês com leitura de um livro, materiais complementares em texto, áudio e vídeo, um fórum de perguntas e respostas com um convidado, uma sessão de tutoria com um dos professores em um grupo pequeno e a entrega de um texto (resenha ou artigo). O texto a seguir foi escrito em Janeiro de 2021 para o tema Hermenêutica Bíblica.




A Bíblia é a Palavra de Deus, a revelação divina para a humanidade. É confortador saber que o Espírito Santo é o intérprete fundamental, comunicando por meio do texto bíblico a mensagem de salvação em linguagem acessível a literatos e iletrados. No entanto, a falta de conhecimento pode fazer perecer aqueles que tentam abordar o texto bíblico de forma equivocada, ainda que com “as melhores intenções”.

A dificuldade de leitura e compreensão de texto na população é um dos obstáculos que se impõem entre o evangélico brasileiro e as Escrituras Sagradas. Nos últimos séculos, muito se avançou no letramento dos leigos – uma tarefa encabeçada pela Igreja e adotada pela sociedade e pelo Estado na civilização ocidental. No entanto, o texto bíblico traz peculiaridades que devem ser observadas para a sua melhor interpretação. A lacuna da hermenêutica bíblica precisa ser preenchida pela Educação Cristã.

Acesso às Escrituras

O acesso às Escrituras Sagradas tem movido a Igreja nos últimos séculos a diversos avanços sociais, linguísticos e tecnológicos. O objetivo de levar a Palavra de Deus a todo povo, língua e nação, crendo, ainda, no sacerdócio universal de todo cristão, tem sido facilitado pela sistematização de idiomas escritos, a criação da imprensa, a abertura de escolas e alfabetização em massa da população.

No entanto, como reflete ENKVIST, “Pensar que a leitura é apenas uma habilidade é um erro. O importante não é a leitura em si, mas a compreensão da leitura que se baseia na compreensão do mundo.” Quão disponível está o texto bíblico, se ele pode ser lido, mas não compreendido? Aquele que lê e não interpreta, realmente leu?

O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) de 2018 relata que 13% da população brasileira com Ensino Médio completo corresponde a analfabetos funcionais, e apenas 34% das pessoas que chegaram ao nível universitário podem ser consideradas letradas proficientes, isto é, “pessoas cujas habilidades não mais impõem restrições para compreender e interpretar textos em situações usuais”.

Uma pesquisa Datafolha publicada em 13 de janeiro de 2020 distribui a escolaridade da população evangélica brasileira em 35% com Nível Fundamental, 49% em Nível Médio e 15% no Nível Superior. Os dados confirmam o que a evidência empírica tem sinalizado: o evangélico brasileiro tem dificuldades para ler e interpretar as Escrituras, e isso se reflete na sua vida devocional, no evangelismo e no serviço cristão.

Entendes o que lês?

O estudo da Palavra de Deus é atividade coletiva e individual, que não encontra limites etários, sociais ou acadêmicos. São diversas as passagens bíblicas em que o ensino é ordenado: em casa, aos filhos; nas ruas; nos templos; no discipulado.

Nesta jornada, o educador cristão, seja na função de pregador ou mestre, professor de escola bíblica ou de seminário, discipulador ou líder de pequeno grupo, precisa estar consciente da relevância da sua tarefa e esmerar-se ao estudar e interpretar as Escrituras para o seu público-alvo.

A disciplina do estudo nos transforma pela renovação da nossa mente. O zelo do professor em aprofundar-se no conhecimento do objeto de estudo bíblico é uma manifestação do zelo pelas Escrituras, a fim de transmitir a Palavra de Deus tal como Ele a revelou.

O trabalho educativo crucial para a Igreja contemporânea está no desenvolvimento das aptidões para o estudo individual e dirigido. Uma geração de adultos que mal lê, mal interpreta e tem pouco espaço para desenvolver o pensamento no âmbito eclesiástico terá grandes dificuldades em instituir uma rotina de devoção e estudo bíblico individual, e maiores ainda ao assumir posições de liderança e instrução, seja em casa, no discipulado individual, ou em ministério eclesiástico.

O incentivo à leitura bíblica não pode ignorar o fato de que muitos cristãos não entendem, ou entendem mal, aquilo que leem. Para este exercício de devoção individual, não basta ter acesso a alguém que lhe explique as Escrituras. É importante que os cristãos desenvolvam as ferramentas adequadas para fazer o seu próprio exercício hermenêutico com a autonomia e desenvoltura que se espera de cristãos maduros.

Além de ensinar a partir de uma interpretação adequada das Escrituras, o educador cristão deve ter o cuidado de transmitir aos alunos os princípios que lhes permitirão acessar o texto bíblico, promovendo a autonomia para o estudo bíblico e para o exercício do ministério cristão por cada crente.

Hermenêutica para não leitores

O estudo da Hermenêutica é útil para todos os cristãos, mas nem todos terão repertório intelectual para entender a necessidade do estudo, ou mesmo para absorver o seu conteúdo no campo filosófico, dedicando tempo ao estudo da hermenêutica enquanto doutrina abstrata.

Disso não se depreende que alguns, por sua juventude ou imaturidade intelectual, devam ou possam ser privados do estudo da hermenêutica, mas que este será incutido na forma de princípios, na prática do estudo bíblico, introduzindo hábitos de leitura que remetem às boas práticas da hermenêutica bíblica.

Os princípios de interpretação bíblica são especialmente úteis aos que leem a Palavra de Deus, mas também são válidos para os que, por qualquer impedimento, apenas ouvem a leitura de terceiros, pois a comunicação oral não prescinde de interpretação. Essa situação exige especial cuidado do leitor em manter a fidelidade do texto.

É comum que as primeiras porções da Bíblia apresentadas ao leitor ou ouvinte sejam narrativas. Muitas crianças são familiarizadas com “a história de Adão e Eva”, “Noé e sua arca”, “Davi e Golias”, enquanto outros que iniciam a vida com Cristo mais tarde tendem a começar o estudo da Bíblia pelos evangelhos.

Para muitos jovens que congregam em família, as narrativas contadas por seus pais, professores de escola bíblica, em músicas e filmes infantis serão a única versão da história bíblica que conhecerão por pelo menos uma década. O educador cristão precisa ter o cuidado para apresentar uma porção suficiente da história bíblica, sem acrescentar adornos ou retirar detalhes que descaracterizem a narrativa.

É crucial que o leitor ou ouvinte entenda que Deus é o protagonista da Bíblia e de todas as suas histórias. Esse princípio deve ser observado mesmo em resumos e histórias curtas, não apenas observando se Deus está presente na narrativa, mas dando destaque à intervenção divina como ponto central da história.

O uso de material extraído e adaptado das Escrituras pode ser um recurso didático interessante, mas somente quando amparado pelo amplo conhecimento do educador a respeito do texto original e da tradição cristã associada à interpretação de cada texto. O conhecimento do texto bíblico na fonte é imprescindível para evitar que se perpetuem mitos e alegorias inseridos pela tradição oral, sem respaldo bíblico.

O ensino da Hermenêutica

O estudo bíblico cada vez mais se consolida como necessidade e interesse de todos os cristãos, mas o estudo da hermenêutica ainda soa como uma exigência técnica a ser estudada nos seminários e institutos bíblicos, uma matéria complicada para os mais simples. Neste sentido, é dever do educador cristão aculturar os seus educandos para a necessidade e a própria possibilidade do estudo da hermenêutica.

Não obstante, o ensino da hermenêutica pode ser inserido no estudo bíblico, tendo o cuidado de apresentar a interpretação adequada do texto bíblico e de reproduzir o trabalho exegético no texto em conjunto com o estudante, apresentando a interpretação bíblica na prática.

A hermenêutica bíblica não é tema restrito aos especialistas, mas uma importante ferramenta para a vida devocional, discipular e ministerial do cristão, independente do seu nível de maturidade ou letramento, cabendo à Educação Cristã ensinar a interpretação bíblica, traduzindo os conceitos hermenêuticos conforme a capacidade e necessidade dos educandos.

Referências Bibliográficas

50% DOS BRASILEIROS SÃO CATÓLICOS, 31%, EVANGÉLICOS E 10% NÃO TÊM RELIGIÃO, DIZ DATAFOLHA. G1, 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/ noticia/2020/01/13/50percent-dos-brasileiros-sao-catolicos-31percent-evangelicos-e-10percent-nao-tem-religiao-diz-datafolha.ghtml Acesso em 27.01.2021.

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