“Mostra-nos o Pai!”

Esta é uma série de textos escritos para o curso de Teologia Essencial do Invisible College. O curso consiste no estudo de um tema da teologia por mês com leitura de um livro, materiais complementares em texto, áudio e vídeo, um fórum de perguntas e respostas com um convidado, uma sessão de tutoria com um dos professores em um grupo pequeno e a entrega de um texto (resenha ou artigo). O texto a seguir foi escrito em Março de 2021 para o tema Teologia Bíblica do Novo Testamento.




A eternidade no coração do homem sugere a existência de algo maior do que a sucessão de tempos e atividades da vida comum, mas não explica e não concede uma compreensão acerca de Deus e seus caminhos. A busca humana pelo divino tem nos levado a diversos caminhos místicos e explicações esotéricas para os mistérios da vida, mas não ao conhecimento do Deus verdadeiro.

É o próprio Deus quem se revela, desde a criação do mundo, por meio das coisas criadas, exibindo seus atributos invisíveis, seu poder e natureza divinas, mas também falando, ensinando e se mostrando diretamente a alguns homens que o registraram naquilo que hoje chamamos de Escrituras Sagradas. A Teologia Bíblica lida com o processo da revelação de Deus registrada na Bíblia e busca compreender, especificamente, como Deus se revelou à humanidade nesse tempo.

É interessante notar que Deus não se revela como uma aparição, uma entidade cósmica, um intangível distante, mas por sua própria iniciativa estabelece com o homem um relacionamento. A revelação relacional de Deus nos mostra diferentes atributos em diferentes contextos. Isso não significa que Deus mudou.

A imutabilidade é um dos atributos de Deus. Ele é eterno, infinito e imutável, mas nem sempre é compreendido assim. A ideia de que o Deus do Antigo Testamento é diverso do Deus do Novo Testamento é tão antiga quanto a Igreja. Marcião de Sinope foi provavelmente um dos primeiros a sustentar essa ideia. Ele tinha dificuldades em conciliar os ensinamentos de Cristo com as ações divinas relatadas no Antigo Testamento. A conclusão de que se tratava de divindades diferentes foi a forma que encontrou para resolver as supostas incoerências da divindade bíblica.

Essa mesma ideia resiste até hoje, sendo um tema constante na apologética a imutabilidade divina e o mistério da trindade. No entanto, o problema da suposta incoerência não parece se resolver com a doutrina da trindade, posto que o Deus Pai de que fala o Filho ainda pode parecer muito diferente do Deus do Antigo Testamento.

Para resolver esse problema, será necessário abordar, primeiro, o próprio problema. Trata-se da expectativa de um Deus sem complexidade, unifacetado, que se manifesta e se revela sempre da mesma maneira. Ocorre que Deus não tem qualquer obrigação de atender as expectativas humanas sobre o Deus que elas querem ver, muito menos àquelas que diminuem e limitam a sua existência. O que muitos atribuem a uma suposta contradição bíblica ou divina não passa de um conhecimento limitado do Deus que se revelou.

A descrição de uma divindade amorosa no Novo Testamento em contraste com a divindade cruel do Antigo Testamento não resume o caráter divino apresentado nessas porções das Escrituras. Esse argumento reducionista não revela a essência divina, mas a superficialidade do conhecimento que se tem sobre Deus e a sua Palavra. Não são poucos os trechos em que a benignidade e o amor de Deus são evidenciados no Antigo Testamento. Tampouco o Novo Testamento omite a morte de Ananias e Safira como consequência fulminante da sua infidelidade perante a santidade do Altíssimo, sem contar tantos outros adoecidos e mortos pelo Juízo divino.

Por outro lado, essa expectativa revela também certa medida de indisposição para conhecer o caráter e os atributos de Deus, e talvez alguma soberba e vaidade que não permitem aceitar, compreender ou mesmo considerar que o Deus revelado possa ser maior que o conhecimento do homem mortal.

Nenhuma pessoa seria julgada falsa ou instável porque se mostra séria em um contexto e descontraída em outro, nem porque se relaciona de forma amistosa com algumas pessoas ao passo que é agressiva com outras. A comparação é pífia, mas se até os homens podem ter uma personalidade extensa e complexa, e podem escolher revelar ou ocultar características conforme o contexto e os relacionamentos em que se inserem, por que seria o Criador uma figura tão simplória e limitada?

A revelação divina através do seu relacionamento conosco nos dá a oportunidade de conhecer seus diferentes atributos nos mais diversos contextos e, ainda assim, enxergar a sua unidade, imutabilidade e infinitude. Antes de pensar em incoerências, é necessário visualizar o contexto e o relacionamento que Deus estabelece com as pessoas.

O Senhor dos Exércitos guerreia com e pelo seu povo. O amigo de Abraão, com seu relacionamento pessoal – o Deus de Abraão – se assenta à mesa com ele. Davi encontra em Deus o refúgio e o perdão. Ele é o pastor, o cuidador, o servo, mas também é poderoso e implacável contra o ímpio. No entanto, precisamos que venha o Filho para nos mostrar o Pai.

A palavra Pai não era uma forma comum de se dirigir a Deus na comunidade da velha aliança. Seu nome era inefável; Ele não deveria ser mencionado com qualquer grau de intimidade. O termo Pai quase nunca foi usado para falar sobre Deus ou para se dirigir a Ele em oração no Antigo Testamento. Mas no Novo Testamento, Jesus nos traz a um relacionamento íntimo com o Pai, rompendo a separação simbolizada pelo véu do templo. Jesus nos deu o incomparável privilégio de chamar a Deus de “Pai”.[1]


É Jesus Cristo quem nos ensina a orar ao “Pai nosso”, e a partir dos evangelhos encontramos a ideia de que somos adotados por meio da redenção em Cristo, com a prerrogativa de sermos chamados “filhos” de Deus, porque cremos no seu nome. Essa revelação não significa que a partir do Novo Testamento se torna Pai, mas que através do Filho podemos conhecer e desfrutar da paternidade divina.

A ideia de um Deus íntimo, paternal, não está excluída no Antigo Testamento, mas somente se desenvolve quando o Filho nos revela o Pai, e nos dá o privilégio de, por meio do Espírito Santo,

É certo que a nossa finitude não consegue compreender toda a extensão de um Deus infinito, mas podemos e devemos conhecer os atributos que Ele já nos revelou. A profundidade no conhecimento de Deus dissipa as supostas incoerências e nos faz perceber a graça que se estende aos seres humanos em toda a revelação bíblica, e até os dias de hoje. A revelação de Deus não é inconstante nem instável, mas progressiva e contextualizada. Hoje podemos dizer que é perfeitamente possível conhecer a Deus, porque o que nos era impossível Ele já fez: Deus se revelou.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HUTCHINSON, Robert J. Uma história politicamente incorreta da Bíblia. Rio de Janeiro: Agir, 2012.

KAISER, Walter C., Jr. O plano da promessa de Deus: teologia bíblica do Antigo e Novo Testamentos. Trad. Gordon Chown, A. G. Mendes. São Paulo: Vida Nova, 2011.

MACARTHUR, John. O resgate do pensamento bíblico: recuperando uma visão de mundo alicerçada nos princípios bíblicos e na mensagem cristã. São Paulo: Hagnos, 2018.

PIPER, John. Em busca de Deus: a plenitude da alegria cristã. 2. ed. São Paulo: Shedd, 2008.

SPROUL, R. C. Does Prayer Change Things? (Crucial Questions Series Book 3) Reformation Trust Publishing. Edição do Kindle.

VOS, Geerhardus. Teologia Bíblica. 2. ed. Trad. Alberto Almeida de Paula. São Paulo: Cultura Cristã, 2019.



[1] The word Father was not the basic form of address for God found in the old covenant community. His name was ineffable; He was not to be addressed with any degree of intimacy. The term Father was almost never used to speak of God or to address Him in prayer in the Old Testament. But in the New Testament, Jesus brought us into an intimate relationship with theFather, breaking down the partition symbolized by the veil in the temple. Jesus gave us the incomparable privilege of calling God “Father.” SPROUL, R. C. Does Prayer Change Things? (Crucial Questions Series Book 3) Reformation Trust Publishing. Edição do Kindle. (p. 20-21). Tradução livre.

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